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© Samuel Mendonça
Canaveira de Campos (E) e Candeias Neto (D), provedor da Misericórdia de Faro © Samuel Mendonça

Manuel Canaveira de Campos, impulsionador do movimento cooperativo em Portugal e ex-presidente do INSCOOP – Instituto António Sérgio do Sector Cooperativo, veio a Faro defender a afirmação de um outro modelo económico: uma economia de pessoas para as pessoas.

O orador, que proferiu no passado sábado uma conferência sobre “Economia Social” no âmbito das comemorações do 433º aniversário da fundação da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Faro, deixou claro que a “economia social” tem como “missão” “atingir o social através do económico, promovendo a pessoa e desenvolvendo a comunidade”. “O que está em causa não é a mera obtenção de resultados materiais, mas, através desses resultados, a promoção das melhores condições sociais, culturais, ambientais e económicas na vida das pessoas. Não é tanto o resultado das atividades. É a consequência que isso tem na vida das pessoas”, explicou.

No salão nobre da Misericórdia de Faro, Canaveira de Campos sustentou que a economia social “é baseada no compromisso de cidadania ativa e no princípio da solidariedade, é um fator de coesão social, de luta contra a pobreza e contra a exclusão qualquer que ela seja, é um fator de democracia participativa e de desenvolvimento”.

Neste sentido, o orador acrescentou que os resultados gerados no processo económico, “além de serem distribuídos de forma equitativa e justa pelos que para ele concorreram”, são investidos “na melhoria dos serviços prestados aos membros e à comunidade e na consecução de novos objetivos”. Evidenciando a importância das organizações da economia social”, destacou-as como “elementos estruturantes de desenvolvimento local, antes de mais pela sua ligação aos territórios a que pertencem as mulheres e homens que são os seus promotores e trabalhadores e pelo interesse em aí reinvestirem os resultados alcançados”. “As empresas de economia social não são empresas deslocalizáveis, que vão a correr ao sabor dos interesses próprios, atendendo à ligação entre os seus membros e o território a que se destina o projeto comum que promovem. São soluções locais para o desenvolvimento territorial e, na sua autonomia e independência, são os principais parceiros dos poderes locais, uma vez que os objetivos prosseguidos por uns e outros são idênticos e complementares”, complementou.

Canaveira de Campos frisou como exemplo que, neste tipo de economia, a promoção do emprego “não tem sobretudo a ver com aspetos quantitativos, mas com a qualidade do emprego criado” e disse que “o trabalho é compreendido, não como uma circunstância – estar a trabalhar ou estar desempregado – ou acidente, mas como uma forma genuína da realização humana”.

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O conferencista considerou, então, que “a época atual, caraterizada pela incapacidade demonstrada pela economia capitalista de se organizar ao serviço da sociedade, é ocasião oportuna para o estudo e promoção da economia social que há dois séculos vem demonstrando capacidade de conjugar o aparecimento económico com a justiça social e com o desenvolvimento humano”.

Neste sentido, disse que as organizações de economia social conseguiram resistir melhor à atual crise, até a nível de emprego. “Mantiveram a sua capacidade financeira, o que foi um exemplo perante a economia financeira capitalista que nós, indivíduos, andamos a aguentar. Aquelas empresas financeiras da economia social mantiveram-se, o que mostra que é uma outra economia que temos de instaurar”, afirmou, considerando que “o que está a travar o desenvolvimento das organizações é a menor capacidade de empreendedorismo social”. “Na prática, se as pessoas começam a ter que fazer contas para a sua própria economia familiar têm maior dificuldade em disponibilizar meios para ajudar os mais próximos”, sustentou.

Considerando que o tempo atual é de “desconfiança, de isolamento, de necessidades individuais e coletivas, de emergência social, olhando para o desemprego, para a pobreza, para a discriminação”, lamentou que o desemprego seja a “maior chaga” da sociedade, a “desumanização individual” e a “desagregação da sociedade” e que os mais velhos tenham um “peso social considerado excessivo” e um “peso económico considerado abusivo”. “Este tempo é igualmente um tempo de emergência territorial. É um abandono e uma desertificação humana e física”, afirmou, lamentando a “fuga das populações, sobretudo do interior para o litoral” e o “abandono, além de humano também social e político, com a retirada das escolas, dos centros de saúde, dos correios, dos transportes, de serviços públicos e até da denominação administrativas de freguesias”. “O que fica nesses lugares? Ficam os mais fracos, os mais isolados, os com menor capacidade cívica. É tudo isto que exige da economia social e de toda a sociedade portuguesa uma tomada de consciência perante os grupos e territórios em risco”, acrescentou.

Neste sentido, exortou a um “compromisso com novas atividades para a promoção do emprego, para a formação e promoção de empreendedorismo individual e colectivo, para a promoção humana, para a democracia participativa, para o desenvolvimento local, para a valorização do mundo rural, para a valorização dos produtos locais, para a valorização da cultura local” e apelou à criação de uma “rede de organizações que são parceiras, com os mesmos princípios e valores”, “vocacionadas para o mesmo trabalho de desenvolvimento e de solidariedade” e “abertas a projetos comuns e à intercooperação”.

Lembrando que “o Estado organizado que se quer continuar a desenvolver não pode resultar de um simples somatório de organizações” e que a responsabilidade social é também dos cidadãos, Canaveira de Campos disse ainda que o desafio que se tem apresentado à economia social é o “trabalho de cooperação entre as famílias e as organizações” e apontou caminhos de futuro que se propõem à economia social. “A principal responsabilidade é a de tornar sustentáveis as suas organizações para que o caminho seja também um caminho de futuro para as novas gerações. É necessário que vejamos a organização de economia social como uma empresa participativa, em que todos tomam parte consciente e ativa, ou seja, uma empresa inteligente que pode contar com o apoio e a inteligência de todos e não só com o trabalho”, sustentou, rejeitando “rótulos” atribuídos aos diversos agentes empresariais.

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A terminar, criticou a estratégia de privatização do Estado. “Por que é que o Estado, quando pensa em privatização, não pensa em privatização para a economia social?” questionou, lembrando que “a economia social também é privada”.

As comemorações do aniversário da fundação da Irmandade da Misericórdia de Faro contaram ainda no sábado com uma celebração da eucaristia, presidida pelo cónego José Pedro Martins na igreja da instituição. No dia anterior realizou-se um concerto da Orquestra Clássica do Sul no mesmo local e, na sede da instituição esteve ainda patente ao público uma exposição de obras pictóricas do pintor Carlos Louçã.

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