Pub

A equipa que lidera a candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura 2027 ambiciona que o projeto possa transformar a região, social e culturalmente, colocando na agenda problemas com que se deparam as cidades.

“Importante é saber o que a capital [da cultura] vai deixar à cidade, à região [do Algarve] e à Europa. O que é que ela contribui para a mudança de mentalidades”, afirmou à Lusa Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro.

A mais de um ano e meio da primeira decisão e dois da decisão final, já foram dados os primeiros passos, com a constituição de uma equipa “de cinco a sete pessoas de Faro” e garantido o apoio de todos os municípios algarvios, da Universidade do Algarve e outras instituições regionais.

“No passado mais recente não me lembro de algo que tenha unido desta forma o Algarve, levando tantas entidades a querem unir-se e trabalhar com o mesmo propósito”, destacou o autarca, observando que a ideia de colocar Faro na ‘corrida’ surgiu na sequência de “mudanças que se estavam a fazer na cidade”.

A primeira tarefa foi “cimentar a ideia” e assumir que seria liderado pela autarquia, mas que “só faria sentido se fosse da região”, sublinhou, adiantando que, nesta fase, está a ser elaborado um plano estratégico.

O objetivo é auscultar a sociedade, com a realização de entrevistas a agentes culturais, mas também aos cidadãos, processo que deverá durar “até meados deste ano” e que servirá de guia para definir o motivo e plano da candidatura.

Com este trabalho, a equipa procura dar resposta às 50 perguntas que motivam a candidatura e porque é que Faro pode ser a cidade Capital Europeia da Cultura 2027, “dando à Europa algo que a Europa precisa de ter”, sustentou.

De forma pragmática, o autarca afirma que “pode haver quem fique desiludido”, mas uma capital da cultura “não é trazer o artista a ou b” em 2027, “é tudo menos isso”, ressalva.

Dando como exemplo as últimas capitais europeias da cultura, Paulo Santos referiu que estas se focaram em “mudar mentalidades”, fazendo com que as pessoas se envolvessem, levando para casa “mais do que apenas a contemplação de algo para o qual compraram o bilhete e viram”.

Uma ideia partilhada pelo coordenador da equipa de projeto da candidatura, Bruno Inácio, para quem “entender o processo como meramente cultural é errado”.

Para o responsável, o evento pode mesmo servir para “colocar na agenda” um conjunto de problemas das cidades e abordá-los “de outra forma” através de processos culturais e criativos.

Olhando para o passado, ambos defendem que, após a celebração da cultura feita nas capitais dos países europeus, agora olha-se para o lado mais negro das cidades, “para aquilo que as pessoas não querem ver”.

Dão como exemplo o passado nazi que move as candidaturas de várias cidades alemãs, ainda a decorrer, para capital da cultura em 2025, a ocupação soviética, que é o tema deste ano em Rijeka (Croácia) ou o problema social da comunidade cigana em Timisoara (Roménia), que vai ser Capital Europeia da Cultura em 2021.

Paulo Santos revelou que Portugal e o Algarve não têm estes lados tão negros muito visíveis, mas há que olhar para os temas que podem ser despertados, trabalhados e desconstruídos através de um plano de uma capital europeia da Cultura.

As alterações climáticas e o aumento do nível da água do mar, presentes na agenda europeia, as migrações, numa região que faz fronteira com o continente africano, a biodiversidade do parque natural da Ria Formosa e a sua sustentabilidade no futuro, são temas para os quais a cultura “pode dar pistas” com vista à sua “consciencialização ou resolução”, defendeu Paulo Santos.

O turismo, grande motor económico da região, é outra realidade da qual “não se pode fugir”, realçou Bruno Inácio, já que “também tem um lado negativo”, por exemplo, na identidade do Sul do país.

Considerando que a cultura “sempre teve” a capacidade de envolver e agregar, defendeu que, através de processos culturais, é possível formar pessoas com uma ”visão mais ampla” e uma cidade “mais inclusiva e acolhedora”, com um efeito transformador no território.

Portugal vai acolher em 2027 a Capital Europeia da Cultura, juntamente com uma cidade da Letónia.

Os dois países selecionados são responsáveis pela organização do concurso entre as suas cidades, devendo para isso publicar um convite à apresentação de candidaturas com seis anos de antecedência.

Após a apresentação de candidaturas, que devem focar-se na criação de um programa cultural com dimensão europeia, caberá a cada Estado-membro convocar um júri para uma pré-seleção das cidades candidatas, isto até cinco anos antes.

A decisão final será dos países, devendo ser tomada até quatro anos antes do título.

Além de Faro, já anunciaram que vão apresentar uma candidatura as cidades de Leiria, Coimbra, Viana do Castelo, Aveiro, Évora, Braga, Guarda e Oeiras.

Portugal já recebeu a Capital Europeia da Cultura em três ocasiões: 1994 (Lisboa), 2001 (Porto) e 2012 (Guimarães).

Pub