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Manuela de Azevedo, primeira mulher a exercer jornalismo em Portugal e actualmente com 98 anos, foi convidada a marcar presença na apresentação e debruçou-se sobre a “relação muito cordial entre dois vultos da cultura e da democracia”, sublinhando que as comemorações do 150º aniversário de Manuel Teixeira Gomes, a decorrer ao longo deste ano, “celebram um grande português, amigo muito querido de João de Barros, o poeta da integridade e do civismo.”

“Teixeira Gomes foi, fundamentalmente, um ‘pintor’ do Algarve, tendo gravado com a sua caneta paisagens sensuais e espantosas. Escritor correcto, de uma linearidade admirável, deixou tudo pela escrita – não querendo ser licenciado ou político, foi Presidente da República, mas, acima de tudo, marcou lugar indelével na literatura portuguesa”, realçou a coordenadora da obra.

Na sua intervenção, Nuno Severiano Teixeira reconheceu os méritos desta colectânea, que lhe proporcionaram “belas horas de deleite na leitura das cartas e respectivas anotações, com as quais aprendi muito, fundamentalmente através do rigor do trabalho de Manuela Azevedo.”

Para o docente universitário, “a jornalista, e também escritora, revela grande erudição e uma particular sensibilidade humana, que lhe permitem compreender as duas personagens que se escrevem entre si, valendo este conjunto de cartas e postais pelo texto e pelo contexto, pela forma e pelo conteúdo.”

Estudioso do período histórico em que se insere a troca de correspondência agora editada em livro, Severiano Teixeira considera que “este espólio, pertencente à cultura portuguesa, é também um exercício de liberdade, onde se reflectem períodos distintos na vida de Teixeira Gomes: entre 1905 e 1910, nos últimos anos da Monarquia, afirma-se um comerciante próspero, entusiasmado com o despertar dos seus projectos literários e vivendo desafogadamente na sua terra natal; de 1910 a 1926, no início conturbado da República, temos apenas duas cartas, devido a uma intensa actividade diplomática que não lhe dá muito descanso; entre 1926 e 1931, período no qual é escrita a esmagadora maioria das missivas, revela-se livre como um passarinho, feliz pelo auto-exílio a que se propôs; por fim, na última década da sua vida, já em Bougie, apresenta-se progressivamente mais sombrio, ao sentir o aumento do isolamento e a diminuição da saúde, sobretudo a perda da visão.”

A terminar a sua intervenção, Severiano Teixeira lembrou que “nas últimas cartas entre dois grandes vultos da cultura e da democracia portuguesa, Teixeira Gomes assume, entre outros desencantos, um claro desdém pela censura salazarista que asfixiava o seu país, ao qual nunca mais regressou.”

António de Barros, neto do poeta João de Barros, mostrou o seu contentamento ao ver as cartas agora reunidas em livro. “É uma enorme satisfação ver, finalmente, o livro saído do prelo, devido ao empenho da Câmara Municipal de Portimão. É o fim de 22 anos de impasse, uma vez que está terminado desde em 1987. Culmina, assim, um longo processo que consumiu o entusiasmo do meu pai, que tudo tentou para que as cartas de Teixeira Gomes ao meu avô fossem publicamente conhecidas.”

Depois de agradecer o empenho da família Barros neste projecto, o presidente da Câmara de Portimão, Manuel da Luz, realçou que “nunca é demais o esforço que o Município está a fazer em prol da cultura, especialmente com o rico programa de comemorações deste ano e onde parte substantiva é justamente a edição das obras de Manuel Teixeira Gomes, já que a melhor homenagem que se lhe pode prestar é ler a sua rica obra.”

O autarca defendeu que “as escolas do Município deveriam ter autonomia para incluir Teixeira Gomes no seu currículo escolar”, dirigindo o desafio aos professores para que “interessem os seus alunos por este grande escritor portimonense.”

A par do lançamento da colectânea, os herdeiros de João de Barros procederam à entrega formal do conjunto das cartas e postais originais de Manuel Teixeira Gomes ao Município de Portimão, como gesto simbólico e valorativo da presença do antigo Presidente da República na sua terra natal.

Esta doação vem enriquecer o espólio do Museu de Portimão sobre Manuel Teixeira Gomes. O antigo Presidente da República é, actualmente, parte integrante da exposição permanente do Museu, onde existe um núcleo sobre a vida e a obra do ilustre portimonense. Uma exposição que dá a conhecer o viajante, o escritor e o político que foi Manuel Teixeira Gomes.

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