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Celebração de abertura do Ano Missionário na Diocese do Algarve apelou ao empenho de todos

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A Diocese do Algarve reuniu-se ontem para assinalar “festiva e alegremente o início do Ano Missionário”, na data em que a Igreja celebrava precisamente o Dia Mundial das Missões.

Na celebração de abertura do Ano Missionário, o bispo do Algarve lembrou que ele surgiu como resposta dos bispos portugueses à intenção do papa Francisco de “estimular a Igreja toda para esta dimensão missionária”. “Aquilo que levou o papa a instituir um mês missionário foi a passagem de cem anos de um documento do papa Bento XV [Carta Apostólica Maximum Illud], logo no ano a seguir à conclusão da Primeira Guerra Mundial”, lembrou D. Manuel Quintas, explicando que “os bispos em Portugal, não só acolheram com alegria esta decisão do papa Francisco, como decidiram que este mês missionário fosse celebrado como culminar de um Ano Missionário com início já neste outubro de 2018”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“O objetivo principal desta decisão é despertar em toda a Igreja, e em particular em cada batizado, uma maior consciência da missão que Cristo confia à Igreja e dar um novo impulso missionário à vida e ao testemunho pessoal, bem como à transformação da própria ação pastoral”, prosseguiu, considerando que não basta “aumentar ainda mais” o “fervor missionário”, mas passa pela reestruturação da própria Igreja. “Todos os grupos e movimentos devem interrogar-se sobre o modo como [poderão] ser verdadeiramente missionários”, advertiu na celebração que teve lugar na igreja matriz de Albufeira por ser a terra natal do beato Vicente de Santo António, o missionário algarvio de maior expressão que foi martirizado em Nagasaki, Japão, em 1632.

O prelado lembrou, por isso, que “a Igreja existe para evangelizar”. “A Igreja somos nós. Este Ano Missionário é para cada um de nós”, observou, lembrando que a iniciativa “não é para alguns apenas”. “Os enviados, hoje, somos nós. E somos enviados a ensinar o evangelho, ou seja, ensinar quem é a pessoa de Cristo, de modo a proporcionar o encontro pessoal com Ele”, afirmou, advertindo que “sem este encontro pessoal não há missão”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Assim, também nós, Igreja do Algarve, queremos acolher e celebrar este ano como uma oportunidade para assumirmos pessoal e individualmente este dever, para dar maior vigor missionário às nossas paróquias, às nossas comunidades, aos nossos grupos eclesiais, abrangendo todos sem exceção”, continuou, apelando a “que ninguém se considere dispensado deste dever baptismal”.

O bispo do Algarve rejeitou que hoje seja “mais difícil anunciar o evangelho do que no passado”. “São as dificuldades de todos os tempos aquelas que temos hoje. Temos é que transmitir o evangelho de um modo diferente”, considerou, apelando à resistência ao “pessimismo agoniento e comodista”. “Às vezes, parece que ficamos também assim, com muito pessimismo, como se tudo dependesse de nós. Nós somos apenas instrumento. É o Espírito que converte”, alertou, garantindo que este atua “através” e “apesar” da “fragilidade” e do “pecado” dos membros da Igreja.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

D. Manuel Quintas pediu então que cada membro da Igreja comece por si mesmo. “Antes de pensarmos naqueles aos quais somos enviados, criemos as condições exteriores e interiores para nos deixarmos reevangelizar. O Ano Missionário é, antes de mais, para nós. Há muito a fazer neste Ano Missionário sobre nós mesmos”, afirmou, desafiando cada cristão a “criar espaço e tempo para uma escuta mais disponível da palavra de Deus, tempos de silêncio, de oração, de interioridade”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O bispo diocesano desafiou ainda cada um a “cultivar o sentido de pertença afetiva à própria comunidade paroquial” para que possa “ser Igreja em saída para as periferias urbanas e geográficas”, indo “ao encontro dos doentes, dos privados de liberdade que se encontram nas prisões, hospitais”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

D. Manuel Quintas rejeitou também que os agentes sejam poucos. “Não digamos que somos poucos, digamos antes que somos menos”, pediu, exortando à aprendizagem com os santos. Neste sentido, lembrou o beato Vicente, e “tantos e tantas” que ao longo da história, testemunharam “a sua paixão por Cristo e pelo evangelho, independentemente da língua, cultura ou localização geográfica onde realizavam a sua ação missionária”. “O seu testemunho missionário ecoa ainda hoje, de modo muito forte, no nosso coração e no coração da Igreja”, afirmou, evocando o testemunho do beato algarvio “presente na alegria, no entusiasmo, na coragem e no modo incansável de levar o evangelho a todos, traduzido numa vida totalmente dedicada aos outros e que em muitos, como ele, culminou com o próprio martírio”.

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Após a eucaristia, iniciada com o rito de aspersão, concelebrada por um número significativo de sacerdotes de toda a diocese e composta por momentos significativos como o do ofertório expressivamente de cariz missionário, seguiu-se um outro momento celebrativo junto da estátua do beato Vicente de Santo António. “É ainda significativo que, como Igreja Diocesana, tivéssemos querido inaugurar o Ano Missionário neste lugar onde evocamos a ação de Deus na vida de Vicente, mártir missionário, nascido nesta terra e cristão da nossa diocese”, afirmou D. Manuel Quintas, antes da oração missionária que ali foi proferida.

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O Ano Missionário prolongar-se-á até ao dia 20 de outubro de 2019.

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Celebração de abertura do Ano Missionário

Beato Vicente de Albufeira

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O beato Vicente de Santo António é um dos “beatos mártires do Japão”, 205 padres e leigos, que morreram no início do século XVII nesse país do oriente, tendo sido beatificados a 7 de julho de 1867 pelo papa beato Pio IX. Destes mártires, doze foram agostinhos, sendo que Vicente de Albufeira também faria parte dessa ordem.Vicente Simões de Carvalho nasceu em 1590 na cidade de Albufeira. O pai, António Simões, casado com Catarina Pereira, era médico, tendo-lhe transmitido conhecimentos que lhe seriam muito úteis na sua vida futura. Aos 12 anos, Vicente vai para Lisboa, por ordem de seus pais, para estudar. Foi aluno brilhante, com espírito de liderança, mas as tentações da vida fácil, como ele mesmo confessa numa das suas cartas, fizeram parte da sua vida na capital. É depois da morte de sua mãe que sente despertar em si a vocação sacerdotal, tendo sido ordenado em 1617, ainda em Lisboa.

É no México, para onde foi como missionário, que conhece a Ordem de Santo Agostinho, no seu ramo dos reformados recoletos e nela entra, como novicio, passando a ser conhecido como Vicente de Santo António.

Tendo ouvido falar das missões do Oriente e das dificuldades e perseguições dos cristãos, pediu para seguir para esta zona, tendo chegado às Filipinas em 1620, onde professou os votos como membro da Ordem. Um ano depois, em abril de 1623, partiu para o Japão, onde chegou em outubro do mesmo ano. Na cidade de Nagasaki foi acolhido pelo Agostinho mexicano Bartolomé Gutiérrez.

Por essa altura, o Governo central do Japão, nas mãos da família Tokugawa, que agia como regente (shogun) em nome do Imperador, considerava a missionação como uma intromissão inadmissível de costumes estrangeiros nas tradições milenárias do povo japonês, que tinha no Imperador a sua figura divina de culto, tendo decretado, em 1614, o encerramento das igrejas e obrigado, também através do mesmo decreto, os fiéis a abandonar a fé, o que condenou todos os cristãos e os missionários a uma vida de clandestinidade. A partir de 1617 as dificuldades e os tormentos levaram muitos a renegar a fé, mas outros preferiram morrer a renegar Cristo.

Vicente de Albufeira começou, pois, ao chegar a Nagasaki, uma vida de clandestinidade, mascarado de caixeiro ambulante, adotando nome e roupas diferentes: pregava nas casas que lhe abriam as portas, consolava os perseguidos, e provocava mais conversões.

Seis anos mais tarde, em 1629, acabaria por ser delatado por um ex-cristão, juntamente com outros colegas e seria preso e sujeito, por cinco vezes, ao tormento das águas sulfurosas que consumiam a carne do seu corpo e o deixavam sem sentidos. Após três anos de encarceramento e tortura, no dia 3 de setembro de 1632, o padre Vicente, juntamente com os seus companheiros e colegas Bartolomé e Francisco de Jesus, morreram queimados vivos numa fogueira.

Deixou diversas cartas, escritas na prisão aos seus amigos e discípulos (Cartas do Japão, Ed. Távola Redonda, 2001). Atualmente a paróquia de Albufeira desenvolve esforços no sentido de reeditar esta obra, completamente esgotada.

A Diocese do Algarve honra a memória do beato Vicente de Santo António, mártir, no dia 7 de setembro. E a sua cidade natal, Albufeira, celebra-o no dia 4 de setembro, com festas populares e uma procissão em sua honra.

 

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