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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O padre Carlos Carneiro desafiou ontem o clero algarvio a privilegiar a “relação pastoral” em detrimento de estratégias ou planos de ação.

O sacerdote jesuíta, que é o diretor do Centro de Reflexão e Encontro Universitário no Porto, veio ao Algarve apresentar uma reflexão no âmbito do Dia do Seminário de São José, em Faro, sobre o tema “O Padre, os Jovens e o Discernimento Vocacional: para um presbitério gerador de vocações”.

“Se toda a nossa vida for um sacramental, um sinal, então, num certo sentido, parece que não precisaríamos de grandes estratégias, de planos para as nossas pastorais, para as nossas promoções vocacionais”, afirmou o orador, considerando que o testemunho de vida dos sacerdotes “passaria por osmose”. “Seria uma espécie quase de contágio. A nossa vida tornar-se-ia apetecível, desejável. Seria absolutamente cativante, deslumbrante. Não seria o fascínio por admirar o padre A ou B, mas por descobrir Deus que se revela em cada um de nós”, clarificou, considerando que “tudo passa, cada vez mais, pelo contacto pessoal e direto com cada um”.

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“Aquilo que seria cativante era descobrirem em cada sacerdote a nossa humanidade, mas também a santidade de Deus em nós”, prosseguiu, observando que o testemunho do presbítero tem de ser “apelo a uma vida que vai muito para além do fazer, do ajudar” porque “está imersa num outro plano que é absolutamente transcendental”. “Se formos homens de Deus, não é a nossa fragilidade que vai ofuscar, ocultar ou inibir o apelo que Deus pode fazer a cada um”, considerou, concretizando o desafio. “O nosso trabalho é o de conhecermos as pessoas, de nos relacionarmos com cada um. Temos que nos tornar, se calhar, mais acessíveis”, precisou, lembrando que “o padre é alguém que está próximo”.

O sacerdote da Companhia de Jesus lembrou ser este um dos principais motivos que dá sentido ao celibato. “Nós não nos casamos com uma pessoa, para nos podermos casar com cada pessoa. Não somos exclusivos de uma pessoa, para sermos afetivamente de cada pessoa”, sustentou, evidenciando também a razão pela qual os sacerdotes são procurados. “As pessoas procuram-nos porque mostramos essa disponibilidade, essa capacidade de acolhimento e porque temos Deus para lhes oferecer e para lhes mostrar”, destacou, frisando que a finalidade é ajudar “cada um a descobrir a presença de Deus na sua vida e na sua própria vocação”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Neste sentido, referiu que os padres são “convidados a viver uma paternidade original”, uma caraterística que disse advir da “capacidade de cuidar, de conduzir e de guiar as pessoas”. “É uma paternidade muito original porque é afetivamente livre”, explicou na conferência que teve lugar numa sala do próprio Seminário e que contou com a presença do bispo, padres e diáconos da diocese num total de cerca de 25 participantes.

O padre Carlos Carneiro observou assim que os sacerdotes são chamados a oferecer a “matriz cristã que pode ajudar muito a viver um tempo cheio de muitas dúvidas, de muitas descrenças” e aconselhou a apresentarem o desafio “que é de Deus a propor permanentemente às gerações” sem “esconder as exigências da fé” porque “isso é aquilo que torna o evangelho apetecível e fascinante”. “Se criarmos uma espécie de proposta demasiado «doce», demasiado fácil, acaba por se confundir com todas as outras”, advertiu.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Lembrando que “a família continua a ser o valor mais estimado pelos mais novos” numa escala que também valoriza a escola, o sacerdote desafiou a Igreja a pensar em que medida é que se pode “transformar mais em família” e “mais em escola”. Para isso, apelou ao “batismo da ideia do que é que é ser padre”, rejeitando a imagem do “padre «afogado» em trabalho e em agendas paroquiais”. “Não apetece ser «náufrago». Apetece muito mais ser «nadador-salvador»”, alertou, considerando também ser preciso “aprender a ganhar um sentido de pertença à comunidade”. Neste sentido, rejeitou a eventual tentação de criar “células de católicos” que vivam numa “espécie de bolha”.

Após traçar o seu retrato da juventude atual que disse ter “valores e critérios” controlados pelas dimensões do “possível” e do “imediato”, o sacerdote considerou o ambiente de hoje “muito marcado pela experiência cristã, embora difusa”. “Isso é para nós motivo de grande esperança”, disse, acrescentando que “o tempo de hoje, com a juventude que existe, com os seus limites, os seus defeitos e as suas vantagens, é um tempo oportuno”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Neste sentido, exortou à “educação da vontade”. “Sem a educação da vontade parece-me que é muito difícil suscitar a possibilidade de um seguimento efetivo do Senhor e dedicado em absoluto aos outros”, afirmou, considerando que a crise vocacional “não se restringe à questão numérica das vocações sacerdotais”, mas alarga-se a “todas as escolhas e vocações”. “Há muito mais divórcio em relação ao casamento do que a relação ao sacerdócio”, sustentou, considerando que “um trabalho educativo e pedagógico muito importante a fazer” é ajudar a “estar bem com o que não se escolheu”. “[É preciso] ajudarmos as pessoas, não só a estarem bem com a escolha que fizeram, mas a estar bem com aquilo que não se escolheu, não se é e nunca se vai ser”, explicou.

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