A psicóloga Carla Tomás formou o clero do Algarve sobre como deve ser feito o acolhimento no sofrimento.

Aquela doutorada em Psicologia na área da religião e da espiritualidade, começou por evidenciar que o sacerdote “está na primeira linha para lidar com o sofrimento humano” porque, “muitas vezes, é o lugar de escuta, o refúgio, o porto de abrigo de muitas pessoas”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na formação apresentada na assembleia geral do clero algarvio, que teve lugar no Centro Pastoral de Pêra na passada quarta-feira, 06 de maio, e contou com cerca de meia centena de participantes, aquela especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, explicou que “o sofrimento ocorre em várias dimensões”, podendo “ocorrer numa dimensão física”, mas também “numa dimensão psicológica” e de “saúde mental”, “numa dimensão relacional” e até “numa dimensão espiritual”. “Quando estamos a ouvir alguém, é importante perceber em que dimensão é que o sofrimento se está a manifestar, para que também possamos responder da forma mais adequada”, alertou, explicando que “muitas vezes” também acontece que as pessoas tenham até “mais do que uma dimensão” afetada.

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Carla Tomás explicou ainda que “o sofrimento também pode ser apresentar-se de uma forma mais explícita ou mais implícita” e advertiu para a “dimensão da subjetividade do sofrimento”, porque “a mesma situação vivida por pessoas diferentes (e, às vezes, a mesma situação vivida pela mesma pessoa em momentos diferentes da sua vida) pode ter um efeito diferente”, realçando a necessidade de “não fazer julgamento sobre a intensidade” com que a pessoa vive a dor, nem “comparação entre sofrimentos”.

Aquela especialista explicou haver “várias reações típicas de sofrimento” e disse ser “importante” perceber-se “em que momento da reação está” cada pessoa. “Quando temos uma pessoa em sofrimento, ela necessita ser compreendida antes mesmo de ser aconselhada. Algo que é fundamental: darmos tempo para que o outro também se manifeste, para que eu também consiga compreendê-lo”, referiu.

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A formadora, que enumerou algumas competências de acolhimento e comunicação, alertou os formandos que para a resposta “se aconteceu é porque tinha de acontecer”, embora seja “muito válida”, há “um timing certo para ela chegar”. “Quando esta resposta é dada num momento muito precoce, ela ou não vai ter efeito nenhum ou até pode ter um efeito muito reduzido ou até mesmo contraproducente”, realçou, considerando que “ajudar a pessoa a crescer na fé mesmo no sofrimento é muito útil, é muito importante, mas tem de vir no timing certo”.

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Com uma detalhada explicação biológica, a psicóloga clínica justificou que perante uma situação de sofrimento a pessoa fica sob o chamado “sequestro da amígdala” cerebral que leva ao corte entre de comunicação entre a parte emocional e a racional daquele órgão. “Não é falta de fé, é biológico. Precisamos primeiro acalmar, acolher, ouvir, escutar e compreender aquela pessoa, fazer uma validação também emocional daquilo que ela está a sentir para que haja uma diminuição da ativação do cérebro emocional e para que comece então o cérebro racional a funcionar melhor. Quando isto acontece, eu já posso introduzir as questões espirituais, que são fundamentais”, explicou.

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Carla Tomás aconselhou então a seguir “um caminho de escuta, de presença, de validação emocional” para “depois introduzir a dimensão espiritual”. A especialista disse ainda haver, dentro da “escuta ativa”, um “conjunto de comportamentos não verbais que são importantes de ativar” no atendimento que “são tão ou mais importantes do que os comportamentos verbais”. O “olhar atento”, uma “expressão facial congruente”, uma “postura aberta” e o “toque”, foram alguns dos exemplos que deu, acrescentando o “uso do silêncio”. “Às vezes, as pessoas não precisam de respostas, precisam de companhia. E aqui o silêncio muitas vezes é necessário para que a pessoa processe aquela emoção também, para que a pessoa reflita”, disse.

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“Quando a pessoa vem falar connosco do seu sofrimento, não vem necessariamente à espera de que resolvamos o sofrimento dela. Vem à espera de alguém que a acompanhe nesse sofrimento. E o nosso papel é esse. E o silêncio não é abandonar a pessoa, não é desacreditar aquilo que ela está a sentir. É perceber que a pessoa, num determinado momento, precisa mesmo daquele silêncio”, sustentou.

A formadora exortou ainda a “suspender o julgamento” e não estar a “preparar a resposta”. “Se estou a processar e a julgar no sentido de pensar sobre aquilo que a pessoa me está a dizer, não estou a ouvir. Primeiro ouço, depois reflito com a pessoa sobre aquilo que me foi dito”, aconselhou.

Relativamente aos comportamentos verbais aconselhou o uso da “reformulação” para compreender se aquilo que está a pensar é exatamente aquilo que o outro está a dizer e as “perguntas abertas” que permitam respostas mais amplas, foram duas das sugestões.

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A formadora, que propôs mesmo um exercício prático de “escuta ativa” aos formandos, explicou-lhes ainda que “a validação emocional é muito importante” para ter uma “postura empática”, ou seja, “aceder à perspetiva do outro e à sua experiência emocional sem perder a própria identidade”.

Nesse exortou a “normalizar sem banalizar”, a “mostrar compreensão”, a “legitimar a experiência e dar espaço”. Deu também alguns exemplos que podem servir como ponto de partida de diálogo, explicando-lhes o que devem ou não responder, realçou a importância de “reconhecer a emoção da culpa” e alertou para estarem atentos aos sinais de risco.

A especialista realçou que “a psicologia da religião e da espiritualidade cientificamente comprova que pessoas com recursos espirituais têm maior saúde mental e maior saúde física do que pessoas que não têm estes recursos”. Carla Tomás acrescentou que dentro da psicologia da religião existe o coping (capacidade de adaptação às dificuldades da vida) religioso. “A ciência diz-nos que o coping religioso positivo – em que Deus é sentido como Pai, em que as pessoas encontram o sentido no sofrimento, em que a comunidade de fé é um recurso que foi muito útil naquele momento de sofrimento – vai gerar em termos de saúde mental maior resiliência, menores níveis de depressão, menores níveis de ansiedade, maior qualidade de vida. Já quando o coping religioso é negativo, ou seja, quando as pessoas assumem o que está a acontecer como uma punição, como um castigo de Deus; quando se sentem abandonadas pela comunidade, isto vai levar a índices piores de saúde física e de saúde mental”, garantiu, alertando para a influência da assistência espiritual.

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A formadora explicou ainda que quando se consegue “encontrar sentido no sofrimento, isso é um preditor de resiliência” e destacou a importância da oração, garantindo haver estudos que demonstram que “a oração contemplativa ativa regiões associadas à regulação emocional e à redução da resposta ao stresse (nomeadamente o cortisol), a ativação do sistema parassimpático, que depois diminui, por exemplo, os batimentos cardíacos”.

Carla Tomás disse ainda que “a questão da comunidade religiosa é muito importante”. “É um dos fatores também muito determinantes na saúde mental quando falamos na psicologia da religião e da espiritualidade. Uma comunidade que apoia, que é um recurso a que a pessoa pode recorrer e socorrer quando está num momento de dificuldade é um tesouro”, assegurou.

A formadora realçou ainda, da parte da manhã, a importância do “autocuidado no sacerdócio” e, da parte da tarde, para o “sofrimento mais comum” que é o da vivência do luto.