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A Rocha é uma das primeiras organizações ambientalistas portuguesas, a única de inspiração cristã, fundada precisamente no Algarve, mas já presente nos cinco continentes do mundo. Nasceu no coração da Ria de Alvor, há 29 anos, impulsionada por um inglês, Peter Harris, pastor anglicano e ornitólogo, que veio para Portugal com a família, para estudar zonas ameaçadas que eram utilizadas pelas aves migratórias e estranhou a pouca atenção dos cristãos ao ambiente e biodiversidade.

A Rocha é hoje uma organização cristã internacional que, inspirada pelo amor de Deus, se envolve em várias áreas. Entre nós tem sido, sobretudo, conhecida pelo seu trabalho em defesa da sua sede: a Ria de Alvor.

Marcial Felgueiras, natural de Lisboa, veio para o Algarve há 20 anos. É formado em engenharia agrícola e diretor de operação d’A Rocha, credenciado pelo ICNB – Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade. Participou em diversas expedições internacionais. Entrevista e foto por Samuel Mendonça.

FOLHA DO DOMINGO – Com que idade se percebeu um defensor do ambiente?

Marcial Felgueiras
– Como defensor foi mais tarde… Foi um tio meu, caçador, que me transmitiu o seu grande fascínio pela natureza. Acho que foi com 12 anos que fiquei mesmo fascinado com o mundo natural. Na altura começaram a dar os documentários de David Attenborough na televisão e, ao domingo, ficava a ver os programas. Começou por uma paixão e mais tarde, já universitário, comecei por me tornar sócio da Liga para a Proteção da Natureza e por enveredar, um pouco mais, pela causa ambiental.

Quais as áreas de intervenção d’A Rocha? Tendo em conta essas áreas de acção, quais são os principais projetos em que se encontra envolvida?

Fazemos intervenção a vários níveis e A Rocha é única em todo o mundo. Por um lado, temos investigação científica: desenvolvemos e ajudamos jovens cientistas (e outros menos jovens) em programas de investigação e participamos na recolha de informação científica ou mesmo na direção do projeto. Por outro lado, ajudamos no trabalho de educação ambiental nas escolas, formal e não formal. A nível formal, recebemos uma média de 1500 a 2000 alunos por ano ou vamos às escolas. Já temos tido escola de fora do Algarve. A nível não formal, o nosso trabalho vai desde ações de formação nas empresas, a lares de terceira idade, ocupação de tempos livres de jovens ou com pessoas com dificuldades cognitivas ou motoras.
Por outro lado, temos também a formação cristã para esta área com comunidades cristãs mas também com que nunca teve contato com a Bíblia nem sabe os rudimentos da fé cristã. Com essas pessoas podemos fazer algum trabalho, caso haja abertura para isso. Uma coisa temos como muito certa: não somos uma organização proselitista para fazer discípulos com a desculpa de que trabalhamos com o ambiente. Trabalhamos muito bem com pessoas que não são cristãs – algumas budistas, muçulmanas ou ateias –, sabendo de antemão que há uma divisão que eles nunca vão poder passar.
Em termos espaciais, a Ria de Alvor está no nosso coração mas já trabalhámos no Guadiana, na Ria Formosa, no Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano, no Alentejo, Alcobaça, Gerês. Vamos, por vezes, a convite das Igrejas locais para fazer trabalho de educação ou monitorização ambiental.

Que sentido tem uma organização ambiental ser cristã? Que papel têm os cristãos na questão ambiental?

Faz todo o sentido. Uma das coisas que se vê nas organizações ambientais é que quase nenhuma delas responde à raiz da questão: «porquê protegermos o ambiente?» Quando se procura responder a esta pergunta, a maioria das respostas é bastante egoísta: «porque o ambiente pode ser a solução para algumas doenças humanas»; «porque quero deixar um bom ambiente para os meus netos»; «porque quero ter uma vida saudável». As razões que quase todas as organizações ambientalistas têm, são de origem egoísta. A razão pela qual nós, como cristãos, devemos estar envolvidos na proteção ambiental é porque estamos a proteger algo que nos foi entregue com a responsabilidade de cuidarmos. É por uma questão de missão que nos é entregue, de sermos obedientes a essa missão e de estarmos a cuidar de algo que não nos pertence. Quando tomamos consciência de que o planeta e a terra onde moramos não nos pertence, pois pertence a Outro a quem um dia vamos ter de prestar contas pela maneira como cuidámos dela, sabemos que não estamos a fazer algo para nós. Logo aí há uma motivação, completamente diferente, que acaba por ter consequências ao nível da esperança e do entusiasmo com que se fazem as coisas. Quando estamos em reuniões com outras organizações cristãs, o desespero acaba por ser enorme. Os ambientalistas são uma gota de água num oceano e a capacidade de empreendedorismo e de cativar financiamento é completamente diferente da de cativar investimento para o lucro. É uma luta completamente desigual.
Crendo que o mundo foi criado por Deus, que o mesmo Deus está preocupado com esse mundo e vai zelar por ele e que, no futuro, vamos ter um mundo renovado, transformado e melhorado por Deus – uns «novos céus» e uma «nova terra» – só temos razões para trabalhar com otimismo porque sabemos que estamos a contribuir, ainda que com uma pequena «gota», para um «oceano» que vai ser uma maravilha. Por isso, temos todas as razões e mais algumas para nunca desistirmos. Vivemos, nos dias de hoje, como se já vivêssemos na ressurreição e é neste sentido que ser uma organização cristã faz todo o sentido.

Recorreu a imagens bíblicas. Cuidar e proteger a Terra é um mandato bíblico. É sobre os que leem a Bíblia que recai, particularmente, este dever. No entanto, apesar de 70% da população portuguesa ter Bíblia, apenas 5% a lê com regularidade. Os cristãos não estão sensibilizados para a proteção do planeta porque não leem a Bíblia?

Há um certo divórcio em pensarmos as questões ambientais e o Cristianismo. Muitas vezes, as pessoas não ligam ao facto de que se levarmos uma vida correta perante Deus, traz benefícios também para a Criação. O facto de não lermos a Bíblia é prejudicial, não só em termos de ambiente, mas também da relação do casal, da educação dos filhos, da relação entre patrão e empregado. É um aspeto transversal a todas as dimensões da sociedade e o ambiente faz parte dela. Muitas vezes pensamos o ambiente apenas como a selva amazónica. O ambiente é, cada vez mais, tudo à nossa volta.

As Igrejas cristãs algarvias já têm uma consciência ambientalista?

Não. Nem as algarvias, nem as outras. A Igreja, no seu todo, ainda não tem muito esta sensibilidade. Fazemos, às vezes, um programa especial, mas que não é o nosso dia a dia. O nosso dia a dia, de vivência de Igreja, continua a ser muito baseado na ida ao templo, em que vivenciamos a nossa experiência de comunidade apenas dentro daquele espaço. Esquecemo-nos de que a Igreja é muito mais do que aquilo. A Igreja está no local de trabalho, está no educar dos filhos em casa, etc. Não temos ainda muita sensibilidade para a parte ambiental. Para mais, porque às vezes quem está muito desperto em relação à questão ambiental são pessoas de movimentos espirituais não cristãos (como os budistas, Nova Era) e, de certa forma, há o receio de sermos confundidos com esses. Muitas vezes também se pensa que quando morrermos vamos para o céu, para um lugar incorpóreo, etéreo, meio impessoal e, portanto, não há muita razão para nos preocuparmos com isso…

Por falar nessa questão… A visão cristã do problema ambiental inclui, inevitavelmente, a dimensão da esperança. Muitos cristãos, e as próprias organizações ambientalistas cristãs, têm consciência da gravidade da situação mas defendem que, em última instância, Deus, que está aos «comandos» da Criação, intervirá. Esta linha de pensamento não tem sido entrave à mudança de comportamentos?

É verdade, muitas vezes as pessoas pensam assim. Só peço, então, que as pessoas se perguntem: para que vale a pena irmos ao médico? Porque um dia, quando morrermos, vamos ressuscitar. Ao cuidar da terra, estamos a cuidar de um outro corpo, que é um ser que tem vida (não confundir com a ideia de Gaia, da Mãe Terra), dada por Deus, do qual devemos cuidar, assim como temos a responsabilidade de cuidar do nosso corpo.

Quase como se fosse uma extensão do nosso corpo?

E de certa forma é. Porque se o ambiente está mal, o nosso corpo vai sofrer. E, simultaneamente, se a sociedade estiver doente, o ambiente também sofrerá. Por exemplo, a ligação entre pobreza e ambiente é fortíssima. Daí que A Rocha, mesmo na sua abordagem ambiental, tenha mudado bastante. Passámos a estar muito mais conscientes das nossas responsabilidades, não apenas ambientais, mas sociais. Precisamente porque a ligação pobreza-mau ambiente é fortíssima.

O mundo promove cimeiras, estabelece protocolos, mas os resultados ficam muito aquém das expetativas. O que falta para um compromisso efetivo?

Acho que falta as pessoas terem um compromisso com Deus. Mas esta não é a resposta que as pessoas gostam de ouvir, nomeadamente quem não é cristão. Até há pouco tempo atrás, as organizações de fé, qualquer fé, eram sempre colocadas de lado porque se pensava: a sociedade é laica, não tem identificação com qualquer fé e as organizações de qualquer tipo de religião fazem sentido apenas no seu espaço e no seu tempo. Mas os políticos começaram a reparar que quem verdadeiramente muda e aceita transformação nas suas vidas são aqueles que têm um compromisso seja com que fé for porque têm um compromisso com alguém ou algo que é transcendente a si mesmo. Daí que, de repente, os políticos começaram a querer envolver as comunidades de fé nos trabalhos ambientais. Isto são os políticos a querer cavalgar nas organizações de fé para depois atingir os seus objetivos políticos e quando assim é a coisa nunca resulta porque, para além da agenda política, eles têm outras agendas como a agenda do desenvolvimento ou do crescimento económico. Como eles têm todas estas outras agendas é impossível criarmos equilíbrios porque as pessoas acabam por querer «agradar a gregos e a troianos». E como a Bíblia também diz, quem «serve a dois senhores» não vai a lado nenhum.

A estratégia de desenvolvimento do Algarve passou, durante muitos anos, pela criação de campos de golfe e pela construção em cima de arribas e areais. Afastámo-nos da plantação de espécies autóctones, também de técnicas tradicionais de construção e reconstrução de edifícios com menor impacto para o ambiente. É possível conciliar, no século XXI, a defesa do ambiente com o desenvolvimento algarvio e a oferta turística competitiva com outros destinos concorrentes?

Vou estar a «meter a foice em seara alheia» porque não conheço muito sobre hotelaria, agora uma coisa considero: em Portugal, e no Algarve em particular, nunca tivemos uma indústria do turismo. Tivemos uma indústria de construção civil que, com a desculpa do turismo, construiu muito. Com isso, adulterou as caraterísticas algarvias da construção. De certa maneira adulterámos a cultura. Quase que nos prostituímos culturalmente por causa do turista. O que mais há são pubs ingleses ou irlandeses e restaurantes holandeses e perdemos o orgulho na boa cozinha. Um turista alemão vem para cá num avião alemão, é transportado num autocarro alemão, com uma guia e um condutor alemães, vai comer salsicha alemã e vive num empreendimento turístico que, se calhar, foi projetado na Alemanha, em que a arquitetura pouco tem a ver com Portugal. O turista, praticamente não contacta com Portugal. Em termos económicos tira-se algum proveito do consumo que as pessoas fazem, mas das mais-valias que podiam ficar na restauração, pouco fica. Nesse aspeto os espanhóis e os franceses não abdicam da sua cultura e têm uma indústria do turismo muito mais assertiva e lucrativa.
Por outro lado, cometemos o erro de querermos fazer turismo em todo o sítio e um turismo para inglês. Os campos de golfe em Inglaterra não consomem nem um quinto da água que consomem em Portugal.

E porque é que isso acontece?

Por causa das temperaturas e por causa da chuva. O golfe foi um desporto inventado por pastores da Escócia e lá chove sempre. Mas já estão a começar a surgir os chamados campos de golfe rurais que são, praticamente, o voltar às origens do golfe, os quais incluem as próprias ervas e as árvores, que não se cortam, porque fazem parte do obstáculo da jogada. Há países que já têm vários campos de golfe destes.

Mas não há uma maior preocupação no reaproveitamento da água da rega?

Está a começar a haver agora. Mas o turista se vai a um campo de golfe e sabe que a água que o está a regar era, há uma semana atrás, esgoto, começa a pensar em ir a outro regado com água potável.

No encontro, que antecedeu a sessão de abertura do ‘eKlogia’, considerou que a razão para o descalabro ambiental teve a ver com a falta de refreamento da revolução industrial. É possível conciliar o progresso, provocado pelo desenvolvimento tecnológico na era digital, em que já não é a necessidade que faz a tecnologia mas o contrário, com a questão ambiental?

Há prós e contras. Por exemplo, há vantagens com a revolução digital em relação ao consumo de papel. Por outro lado, muitos dos componentes eletrónicos para o fabrico de telemóveis e computadores são raros na natureza e que para serem extraídos implica exploração do ser humano e exploração de recursos naturais com destruição de floresta. O segredo está num estilo de vida simples. Se a minha família é composta por quatro pessoas, se calhar não preciso de ter uma casa com quatro quartos, duas salas e três casas de banho. Posso ter um jardim mais pequeno e organizado para ser amigo do ambiente, reciclar o lixo, o papel, consumir menos energia, etc. Posso não andar à procura da última moda tecnológica, não trocar de carro a cada 3 ou 5 anos. Isso não me acrescenta centímetros, auto-estima, nem a estima de outras pessoas.

A opção pela defesa do ambiente tem também impacto nas mais diversas dimensões da vida. É possível conciliar o modo organizacional da vida actual com o ser-se «amigo» do ambiente, controlando, por exemplo, a origem, a produção ou a composição do que consumimos?

É, mas algumas vezes é o cabo dos trabalhos quando vamos fazer compras e começamos a ver todos os rótulos para ver se foi produzido com respeito pelo ser humano, pelo ambiente. Daí que, quando possível, procuro comprar artigos de Comércio Justo porque este tem uma preocupação ambiental para além da preocupação social de pagar um valor justo ao produtor. É um tipo de comércio que está a crescer muito a nível mundial e que foi iniciado por pessoas cristãs. Quando não pode ser de Comércio Justo, procuro coisas de agricultura biológica e amigas do ambiente. Quando fazemos isto, temos ganhos financeiros, ambientalmente é melhor, estamos a cumprir com o nosso papel perante o ambiente e até é melhor para a nossa auto-estima. Há, muitas vezes, uma estratégia deliberada para que os produtos comercializados através do Comércio Justo sejam tidos como produtos muito caros, porque enquanto esse tipo de comércio não tiver sucesso nunca poderá crescer muito e por isso as margens de lucro das distribuidoras estão sempre garantidas.

Nas últimas décadas, o consumo foi estimulado em detrimento da produção. A agricultura foi desincentivada, implementaram-se quotas máximas de produção, as pescas viram a sua frota ser abatida a troco de incentivos… Passámos de país produtor no sector primário, a dependente da importação. A actual crise será momento do regresso a estas práticas?

Trocámos a produção pelo consumismo importado. Fomos convencidos a cair nessa asneira. Não tendo conhecimento quero dar o benefício da dúvida que os nossos políticos foram convencidos a isso e que não houve interesses por detrás. Mas a questão é que, em termos globais, a sociedade está a consumir muito mais do que o planeta consegue produzir num ano…

Mas então deixe-me perguntar-lhe: uma economia de mercado competitiva, tão defendida pela sociedade contemporânea, não implica o inevitável aumento do consumo e uma, cada vez maior, diminuição da recompensa justa a produtores?

Entramos no domínio da teoria económica que eu também não domino muito bem. Suponho que essa poderá ser a faceta mais vivenciada por todos nós. Acho que temos uma oportunidade para mudar os nossos paradigmas de vida e, mais tarde ou mais cedo, como sociedade global, vamos ter de mudar a nossa maneira de viver…

…mas o que está a ser dito às pessoas é que só há uma solução para sair desta crise: pôr a economia a crescer.

Exactamente. Mas isso começa a ser uma «bola de neve» e tornamo-nos, cada vez mais, consumidores. O nosso paradigma de vida, assim como o dos ingleses, alemães, chineses e indianos, é o modelo americano. E quando todos quiserem viver segundo o estilo de vida americano não haverá planeta que resista. Para alguns terem o estilo de vida da América hão-de haver milhões que terão de ter o estilo de vida de uma tribo africana. Por isso não admira que 20% da população mundial esteja a consumir 80% dos recursos mundiais.

Mas não são os ricos que têm ajudado a resgatar da pobreza muitos milhões de pessoas?

Essas pessoas dão muito, é verdade. Mas, percentualmente, em relação à riqueza que têm, dão muito pouco. Essas pessoas dão em função do bem que têm, uma percentagem que, normalmente, não ultrapassa os 3 a 5% do lucro produzido pelas suas atividades, enquanto que uma família «normal», em donativos para o Banco Alimentar e na sua comunidade de fé, em ajudas para lares de idosos ou de crianças, acaba por dar 10, 15 ou 20% da sua massa salarial.

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