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O conferencista, que interveio num primeiro momento sob o tema “«Jesus subiu ao monte e começou a ensinar os discípulos»” (Mt 5,1): O ensinamento da montanha (Mt 5-7)”, começou por explicar que os três Evangelhos sinópticos têm um “esquema topográfico e cronológico” muito parecido, constituído pela preparação do ministério de Jesus, o ministério na Galileia, a viagem para Jerusalém e o ministério em Jerusalém, que também é adoptado por Mateus, embora mais desenvolvido que todos os outros no que respeita às palavras de Jesus e aos seus discursos.

Comparando o Evangelho de Mateus com o de Marcos, o cónego José Morais Paulo considerou o primeiro “mais catequético”. “Encontramos elementos próprios que servem para o cumprimento da lei, antíteses e actos religiosos próprios do Judaísmo”, observou ainda o sacerdote que disse encontrar-se em Mateus “uma tonalidade mais espiritual”.

O conferencista discordou dos autores e comentadores que defendem que, no Evangelho de Mateus, Jesus se apresenta como “o novo Moisés”, mas ressalvou essa como uma “opinião” e uma “perspectiva de leitura e de enquadramento” da obra. O orador, que explicou que Mateus actualiza o Antigo Testamento, defendeu que “se se considerarem outros elementos”, podem surgir “outros caminhos”. “Há aqui mais pontos de contacto com a figura de Josué do que com Moisés e o acontecimento do Monte Sinai”, observou, estabelecendo vários paralelos entre o sermão da montanha, no Evangelho de Mateus, e os episódios de Josué, admitindo que “a interpretação que é discutível”.

Referindo-se aos destinatários do sermão da montanha, constatou que Mateus se dirige aos “membros da comunidade cristã dos finais do século I ao tempo da redacção do Evangelho”. “Provavelmente entre os destinatários de Mateus estariam os cristãos piedosos, que desvalorizavam a lei e os comportamentos, e os moralistas, que sobrevalorizavam a lei e os comportamentos”, complementou.

Por fim, sublinhou que o evangelista apresenta as Bem-aventuranças como uma alegria e felicidade já no presente, embora relacionado sempre com o futuro e com a consolação dos reinos dos céus. Referindo-se àquela passagem, frisou também que a justiça, segundo Mateus, “deve levar o comportamento humano a ajustar-se ao querer de Deus”.

De tarde, o cónego José Morais Palos abordou o tema “«O Reino dos Céus é semelhante a…»”: o Reino e as suas parábolas (Mt 13)” para explicar que “as parábolas preenchem grande parte dos Evangelhos sinópticos” e são um dos seus géneros mais específicos que “mostram a forma mais genuína como Jesus comunicou a sua mensagem”.

Evidenciou como a mesma parábola é narrada em contextos diferentes e com interpretações diferentes em Mateus e Lucas, segundo a comunidade a que se destinava e exemplificou com a parábola da ovelha perdida. Explicou o significado de parábola, a diferença entre parábola e alegoria e explicou o motivo que levou as parábolas de Jesus a serem alegorizadas e interpretadas como alegorias. “O que conta é o sentido global, independentemente dos detalhes”, clarificou, ressalvando que a parábola “é uma narração fictícia, criada num contexto preciso com uma finalidade”. No entanto, “não pode entender-se como mera ficção”, advertiu, assegurando que “a finalidade das parábolas no Evangelho de Mateus é para compreender a mensagem de Jesus”. “Há também uma perspectiva eclesiológica”, acrescentou.

Referiu-se aos dois grupos de parábolas existentes em Mateus, tendo em conta os cenários à beira-mar, para as multidões (4) ou em casa, para os discípulos (3), e aludiu ao tema recorrente do juízo final.

A terminar, exortou a que se actualize aos dias de hoje a mensagem da parábola do Evangelho, que é retirada do mundo agrícola.

A jornada, que se realizará a partir de agora sempre no sábado antes do primeiro domingo do Advento, terminou após a celebração da Lectio Divina, orientada pelo padre António de Freitas, sobre o Evangelho reflectido.

Samuel Mendonça

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