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Após o apelo inicial do Bispo do Algarve, que destacou o esforço que a Igreja algarvia tem vindo a fazer para promover a leitura da Palavra de Deus, nomeadamente através da prática da Lectio Divina, a que a presente jornada vem dar continuidade, e exortou à meditação da última exortação apostólica do Papa – “Verbum Domini – Palavra do Senhor” – precisamente sobre este tema, seguiu-se a intervenção do padre Mário de Sousa sobre o tema “Mateus: a comunidade, o autor e a obra”.

O sacerdote começou por explicar que não existem quatro Evangelhos, mas “quatro versões do único Evangelho que é o de Jesus Cristo”, “escritas de acordo com as necessidades das comunidades a quem a obra se destina”.

O padre Mário de Sousa aludiu às “três características do Evangelho de Mateus”, referindo-se à “polémica com o Judaísmo”, aos “problemas internos da comunidade” e à noção de “comunidade urbana já com alguma organização” e sublinhou que a obra de Mateus, com “muita profundidade”, resulta da “escola de reflexão” que havia na comunidade. “Que comunidade seria esta? A maior parte dos autores considera que era a Igreja de Antioquia”, elucidou.

Constatando que Mateus é o único que apresenta a actividade de Jesus na Síria, o orador evidenciou que “Pedro tem uma predominância muito grande na obra de São Mateus e na comunidade de Antioquia”, explicando que o Evangelho “deve ter sido escrito entre a década de 70/80”.

Já relativamente à autoria, reconheceu haver “autores que dizem que teria sido um judeo-cristão”. “Fiquemos com a tradição que fala em São Mateus”, recomendou, destacando que o evangelista “não se limita a fazer crónica dos acontecimentos, mas escreve para uma comunidade concreta e procura iluminar as problemáticas à luz da própria vida e da pregação de Jesus Cristo”. “Procura pôr no centro do seu Evangelho a pessoa de Jesus”, complementou.

Por outro lado, o conferencista comparou que, “quando passamos do Evangelho de Marcos – sóbrio, muito narrativo, com muito poucos discursos –, para o de Mateus, é como se passássemos de uma igreja românica para uma igreja do Renascimento”. “Encontramos riqueza artística e espiritual muito grande”, observou.

O padre Mário de Sousa explicou que “Mateus não apresenta Jesus apenas como filho de David, mas recua muito mais atrás, à promessa a feita a Abraão”, para apresentar Cristo como a “superação de todas as esperanças” que veio para ficar. “Mateus tem a preocupação de nos apresentar Jesus como Deus connosco, o Emanuel”.

O conferencista destacou ainda que o Evangelho de Mateus, ao contrário da obra de Lucas, centra-se na acção de Jesus enquanto Ele esteve na terra e que se estrutura a partir de cinco grandes discursos: o discurso da montanha (capítulos 5-7), discurso missionário (capítulo 10), discurso em parábolas (capítulo 13), discurso eclesial (capítulo 18) e o discurso escatológico (capítulos 24/25).

A terminar, evidenciou que “Pedro, no Evangelho de Mateus, assume grande preponderância”. “Em nome dos discípulos, põe questões a Jesus sobre a vivência, a vida interna da comunidade e também é Pedro que, em nome deles, faz a profissão de fé: Tu és o Filho do Deus vivente. Aparece-nos como o protótipo do discípulo”, concluiu.

Samuel Mendonça

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