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Foto © João Cláudio Fernandes

A Conferência Episcopal apresentou hoje em Lisboa o primeiro volume da nova tradução da Bíblia em português, um texto que procura promover a leitura de todos, a partir das línguas originais, para provocar reações e sugestões.

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, deixou uma palavra de “gratidão e reconhecimento” para quem trabalha nesta tradução, algo “fundamental” na vida da Igreja Católica.

“Tudo quanto acontece em Igreja é na sequência desta Palavra”, assinalou o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

O cardeal português falou na relação com a “base cultural”, que se vai enriquecendo ao longo dos anos, que exige “capacidade de interpretar e receber”.

D. Anacleto Oliveira, biblista e bispo de Viana do Castelo, que coordena a nova tradução da Bíblia em português, falou na abertura da sessão, que decorreu na Universidade Católica, num “longo” processo, que tem as suas raízes no Concílio Vaticano II (1962-1965), onde se pedia uma maior difusão do texto bíblico entre todos os católicos.

Iniciada em 2012, com a colaboração da Associação Bíblica Portuguesa (ABP) e de especialistas países de língua portuguesa, a nova tradução segue dois critérios fundamentais: “fidelidade ao sentido literal” e “compreensibilidade da tradução na linguagem de hoje, que é a dificuldade maior”.

O bispo de Viana admitiu a dificuldade da missão de “fazer a transposição de um texto que dista cerca de dois milénios ou mais do presente, que é de outra cultura”.

O projeto tem por finalidade apresentar um texto uniforme, traduzido diretamente do hebraico, aramaico e grego, para uso na Liturgia, na catequese e em todas as atividades da Igreja em Portugal.

O presidente da Comissão Coordenadora do projeto falou ainda da necessidade de “revisão” da tradução litúrgica e de “ter em conta” os resultados da investigação bíblica, bem como a evolução da própria língua portuguesa.

As mudanças são visíveis no novo texto de tradução do Pai-Nosso, na qual Deus é tratado por ‘Tu’, seguindo uma evolução que houve na sociedade portuguesa.

“Há 60 anos, tratar Deus como ‘Tu’ seria uma ofensa”, assinalou D. Anacleto Oliveira.

A tradução de cada livro foi confiada a um biblista, especificamente, com preocupação de “literalidade”, sendo analisada e revista pelas subcomissões do Antigo Testamento e do Novo Testamento, harmonizando as diversas traduções, antes de ser entregue a um especialista em Língua Portuguesa e um liturgista.

Os leitores vão poder agora apresentar correções e sugestões, num pedido “veemente” da CEP para que existam reações ao texto provisório agora lançado, com “propostas concretas” sobre a compreensibilidade e a musicalidade do mesmo, por exemplo.

“Achamos que era oportuno o público português ter uma palavra”, indicou D. Anacleto Oliveira.
As sugestões podem ser enviadas por email, através do endereço eletrónico biblia.cep@gmail.com.

O padre Mário de Sousa, moderador da subcomissão do Novo Testamento, recordou os que os Evangelhos derivam de uma “passagem da pregação oral para os textos escritos”, processo que deve ser tido em conta numa tradução, “que pretende ser fiel não apenas ao texto, como ao mundo do texto e ao mundo por detrás do texto”.

Estes textos, insistiu, são “narrações teológicas”, consequência da “fé das comunidades”, e destinam-se “a alimentar a fé”.

Segundo o padre Mário de Sousa, a orientação dada pela Comissão Coordenadora foi a de “encontrar uma tradução que, embora num português escorreito, fosse o mais fiel possível ao texto grego”.

O responsável falou dos mais de 300 encontros entre os membros da subcomissão do Novo Testamento para destacar a necessidade de um trabalho constante de revisão e debate.

“A edição agora entregue é «ad experimentum», que o mesmo é dizer tratar-se de um texto que – numa metodologia que pensamos ser inusitada – aguarda pelo contributo fundamentado do leitor, que enriquecerá as limitações que uma tradução sempre transporta”, acrescentou.

Já o moderador da subcomissão científica do Antigo Testamento, José Augusto Ramos (catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), destacou a intenção de apresentar uma tradução da Bíblia como “leitura”, para “todos os possíveis leitores do âmbito da lusofonia”.

O trabalho dos vários especialistas procurou o “rigor científico” e a “articulação” com a vida cultural, “em todas as suas dimensões”.

Para o especialista, a proposta de um “texto capaz de se integrar legitimamente na leitura de cariz oficial, tanto na Liturgia como no Ensino” não lhe retira qualquer valor.

“A literatura bíblica posiciona-se no estatuto do partilhado, do coletivo”, precisou.

A edição é promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e editada pela Fundação Secretariado Nacional da Educação Cristã; feita ao longo de vários anos, por 34 investigadores a partir das línguas originais, começa a chegar aos leitores de todo o país com a publicação de “Os Quatro Evangelhos e os Salmos”.

A sessão concluiu-se com a recitação do Salmo 150, um hino de louvor.

Ecclesia

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