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O orador, na conferência sobre o “Hospital e a Igreja da Misericórdia de Faro”, promovida pelo Núcleo de Faro da Associação dos Médicos Católicos Portugueses, contrariou assim a tese de que a Misericórdia da capital algarvia seja de 1581, justificando que as “Visitações das Igrejas Algarvias” da Ordem de Santiago, de 1554, referem, na página 58, a existência da Misericórdia da cidade.

Aparício Fernandes, que lembrou que “no Algarve, as Misericórdias de Tavira e Lagos têm uma datação do ano em que D. Leonor fundou as Misericórdias – 1498 – e que Loulé tem datação de 1570”, considerou que “não faria sentido que Faro fosse ter uma datação tão posterior, quase um século depois da fundação das Misericórdias”.

Aquele médico e historiador elucidou que a 26 de janeiro de 1501, “o rei D. Manuel concede a João Dias e a sua mulher o privilégio de construção de um hospital”, o Hospital João Dias, anexo a uma igreja de mareantes votiva ao Divino Espírito Santo, com construção de dois tempos, onde viria a nascer a Misericórdia. “Deverá ter existido apenas uma pequeníssima ermida, de 7mx7m, com uma coluna correspondente ao portal de entrada primitivo”, explicou o conferencista, que apresentou a fotografia de um fragmento da cantaria do lintel da entrada da referida igreja, existente no Museu Municipal de Faro.

O orador, que lembrou que, em 1499, a Alfândega de Faro veio para a Praça da Rainha (atual Jardim Manuel Bívar) e “trouxe todo o comércio e a vida citadina para fora do recinto amuralhado”, disse ainda que o Hospital João Dias estava perto de um curso de água, pois, na altura, entre a entrada da Misericórdia e a entrada da Vila Adentro, havia um braço de ria. Tinha internamento de doentes e uma albergaria no primeiro andar e, no rés-do-chão, existiam armazéns que eram alugados e cujos proventos revertiam para o próprio hospital que tinha também duas enfermarias.

Segundo o historiador, o Hospital da Misericórdia ainda não existia em 1795, quando o bispo D. Francisco Gomes do Avelar pede ao arquiteto italiano Francesco Saaverio Fabri o projeto do atual Hospital da Misericórdia de traça neoclássica. “O que ladeava a igreja da Misericórdia era, de um lado, as casas do coronel Nunes e os armazéns e, do outro, o açougue”, justificou com base numa planta de José Sande Vasconcelos existente na Biblioteca Nacional.

Aparício Fernandes defendeu que Fabri, para o hospital edificado entre 1795 e 1815, “foi buscar a inspiração ao Ospedale Maggiore de Milão” e que fez ainda obras de arranjo no portal de entrada da igreja da Misericórdia, mandada construir pelo bispo D. Afonso de Castel Branco, em 1583 e 1585, cuja planta disse ser atribuída a Nicolau de Frias.

O orador explicou ainda que, na tipologia dos hospitais das Misericórdias, havia sempre uma comunicação do hospital com a igreja à qual estava ligado. “Em Faro, a enfermaria das mulheres tinha essa ligação para a igreja, através de uma janela que entretanto foi fechada mas que atesta claramente um edifício pensado para ser Misericórdia”, afirmou.

Aparício Fernandes lembrou ainda que, desde o concílio de Aix La Chapelle, “ficou marcada a necessidade de se associar ao tratamento dos doentes internados, o tratamento do espírito de que as Misericórdias se encarregavam”. “Mais tarde, no concílio de Trento, mais vincado isso ficou”, acrescentou, garantindo que, a estrutura hospitalar, como hoje a conhecemos na Europa Ocidental, provém do cristianismo.

Recorde-se que o Hospital da Misericórdia de Faro, a funcionar até 1979, deu origem ao atual Hospital de Faro.

Samuel Mendonça
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