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Consultor do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Santa Sé), o padre Fernando Rodriguez Garrapucho foi um dos principais oradores da atualização do clero das dioceses do sul do país que se realizou entre 18 e 21 deste mês, que teve como tema “Diálogo, opção evangélica e ponte civilizacional”.

O padre Fernando Garrapucho, da congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (dehonianos), que também é consultor da Comissão Episcopal das Relações Interconfessionais da Conferência Episcopal Espanhola, apresentou, durante dois dias, quatro conferências subordinadas aos temas “Ecumenismo: o caminho incontornável para o Cristianismo, num Mundo fragmentado”, “Do confronto à comunhão. O Percurso teológico-pastoral de uma Igreja aberta à ação do Espírito Santo”, “Os dois «pulmões» do Cristianismo: Ocidente e Oriente” e “O Ecumenismo do «sangue» e da Caridade”.

O sacerdote espanhol, que também é docente da Universidade Pontifícia de Salamanca, defendeu a necessidade de constituição de um Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no seu país, apontando à eventual importância de o mesmo poder acontecer em Portugal.

“Seria muito útil. Vejo-o como muito necessário. Este conselho seria muito importante para conseguirmos atuar a uma só voz, como cristãos, na sociedade. E isso teria muito mais efeito do que cada um fazê-lo separadamente. Sobretudo ajudaria a purificar os elementos da cultura contrários à pessoa humana e que são evidentes”, considerou no encontro realizado em ambiente digital.

O orador, que percorreu toda a história do ecumenismo e se deteve na enumeração das diversas igrejas cristãs orientais e ocidentais, lembrou existirem 1.200 milhões de católicos no mundo e quase 500 milhões de cristãos não católicos (cerca de 230 milhões de cristãos orientais e cerca de 250 milhões de cristãos protestantes).

Aquele especialista sublinhou que “não é verdade” que se esteja “a viver um inverno ecuménico”, 50 anos passados sobre o Concílio Vaticano II. “O que se passa é que no tempo do Concílio havia muitas esperanças, quase ingénuas, de que este caminho fosse muito simples. Fizemos enormes avanços”, garantiu, acrescentando que “não se esmoreceu o diálogo ecuménico”. “Pelo contrário. Agora está muito mais intenso”, sustentou.

Nesse sentido, disse que o caminho de aproximação está agora centrado no que é “mais difícil”, o que “divide com mais força” as diversas Igrejas, o “núcleo duro da divisão”. “O diálogo doutrinal está em desenvolvimento com muitos acordos que pareciam impossíveis até há poucos anos”, reforçou, lembrando que o caminho do ecumenismo é mais fácil do que o do diálogo interreligioso. “No ecumenismo está Cristo. No diálogo interreligioso, não necessariamente”, sustentou.

O sacerdote afirmou que uma das questões ecuménicas que está em cima da mesa é “encontrar um conceito comum da unidade da Igreja”. “Hoje não existe consenso sobre qual é a unidade que se quer alcançar, como é a Igreja una que sonhamos no ecumenismo porque cada Igreja tem a sua própria ideia”, desenvolveu, interrogando: “que modelo de unidade da Igreja universal deve constituir a meta que procuram todas as Igrejas cristãs?”.

Outra das dimensões disse ser a da “reformulação do primado romano e da forma do seu exercício”. “Somos chamados, depois de 50 anos de diálogo ecuménico, a encontrar juntos – católicos e de outras Igrejas –, uma forma nova de exercício do primado que seja válida para uns e para outros porque o seu serviço à unidade e à voz comum do Cristianismo no mundo é cada vez mais necessário para os cristãos. Que haja uma voz cristã, em vez de muitas vozes, diversas e discordantes”, referiu, explicando que a questão do primado é o ponto de mais difícil de negociação para as Igrejas orientais.

Outra questão prende-se com a inter-comunhão eucarística. “Se um ortodoxo e um católico têm o mesmo batismo porque não pode comungar cada um na Igreja do outro? Há cristãos de primeira e cristãos de segunda? O que acrescenta a eucaristia ao batismo que o batismo já não tenha?”, interrogou, lembrando que a Igreja católica já reconhece a validade dos sacramentos das Igrejas orientais porque reconhece a sucessão apostólica dos seus bispos.

O conferencista acrescentou que, dentro do protestantismo, “quase todas as Igrejas de tradição luterana têm um desejo enorme de unidade e de que a Igreja Católica reconheça os ministérios dos seus bispos e pastores, os seus sacramentos e, sobretudo, de obter a inter-comunhão eucarística”. “O mesmo sucede com os anglicanos”, prosseguiu, lamentando que “não fora agora a questão da ordenação das mulheres ao episcopado, presbiterado e diaconado” e a Igreja Católica já estaria “muito perto da união com os anglicanos”.

Relativamente às Igrejas orientais disse que o assunto é mais complexo porque “depende de cada patriarcado” por não haver “uma autoridade única dentro da ortodoxia”.

O padre Fernando Garrapucho considerou ainda como “caminho privilegiado de diálogo entre as igrejas cristãs” rumo à unidade o “ecumenismo do sangue”, ou seja, o testemunho dado através do martírio daqueles que foram sacrificados pela confissão da fé em Cristo”.

O orador disse ser preciso ainda “quebrar com muitas inércias” e “preconceitos” do passado. “Precisamos crescer na fraternidade cristã. Temos ainda muitos preconceitos de uns em relação aos outros. É preciso ir mudando a mentalidade, a forma de estudo da Teologia, abandonar preconceitos, para ir ao encontro dos outros e sermos capazes de rezar juntos. A humildade é o caminho para a unidade”, concluiu, lembrando o motivo do afastamento: “a divisão aconteceu porque não permanecemos no amor de Cristo e porque não quisemos dar os frutos de fraternidade que nos exige o evangelho”.

A atualização de bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja e Évora foi promovida pela décima quarta vez consecutiva pelo Instituto Superior de Teologia de Évora.

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