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A localização periférica, a baixa densidade populacional, o espírito comunitário e também o “fator” sorte são algumas das razões que ajudam a explicar a ausência de casos de covid-19 em quatro dos 16 concelhos do Algarve.

Alcoutim, no nordeste da serra algarvia, Monchique, também na serra, mas na outra ponta da região – ambos na linha de fronteira com o Alentejo -, assim como os “vizinhos” Vila do Bispo e Aljezur, na costa oeste, este último também a “tocar” o Alentejo, ainda não registaram nenhum caso de infeção pelo novo coronavírus.

Questionada pela Lusa sobre as razões para a ausência de casos neste concelhos, a delegada de saúde regional do Algarve colocou as suas realidades territoriais periféricas entre os principais motivos que justificam o facto de não terem havido contágios pelo novo coronavírus.

“Analisámos estas questões no nosso departamento e, em primeiro lugar, vem logo à cabeça serem concelhos mais periféricos e com menor densidade populacional”, afirmou Ana Cristina Guerreiro.

Além de se tratar de concelhos “onde residem poucas pessoas”, há também “pouco movimento de entradas e saídas de visitas para outros locais, ou entrada de visitantes durante esta época”, o que leva aquela responsável a acreditar que este também foi um dos motivos por que “ficaram mais preservados”.

A mesma fonte realçou a importância de se “ter suspendido rapidamente a realização de mercados e feiras”, medida que os próprios delegados de saúde locais também apontam como uma decisão “muito boa” para esses concelhos terem conseguido chegar até aqui sem casos detetados.

Estes quatro concelhos, situados nos extremos nascente e poente da região, contam também com uma população maioritariamente idosa, que, além de ser mais reduzida do que no litoral, tem um “maior espírito comunitário”, disse ainda a delegada de saúde do Algarve.

“Nas grandes cidades e nos meios maiores há, talvez, mais dificuldade em compreender isto, mas nos meios pequenos todos sabemos que o nosso comportamento também é importante para os outros e há mais solidariedade entre as pessoas, protegendo ou tentando proteger a população mais idosa. E estes casos são todos de concelhos com muita população idosa”, afirmou.

Por outro lado, os mecanismos implementados para a distribuição de bens de primeira necessidade, medicamentos e atendimentos domiciliários também “foram muito bons” para alcançar este resultado, referiu.

Com uma densidade populacional de cinco habitantes por quilómetro quadrado e cerca de 3.000 residentes, Alcoutim, no nordeste algarvio, um dos concelhos mais desertificados da região, mantinha, até quinta-feira, zero casos de infeção, tendo havido, desde o início do surto, apenas um caso suspeito, que não se confirmou.

O presidente da Câmara de Alcoutim, Osvaldo Gonçalves, contou à Lusa que, há cerca de mês e meio, quando houve a suspeita de um caso num bombeiro, “foi imediatamente ativado o plano de contingência” e as pessoas que tinham tido contacto com ele “ficaram isoladas para fazer os testes”.

Osvaldo Gonçalves garantiu que se tratou do “único episódio de suspeita” e que, “desde então, não houve nem mais suspeitas nem casos positivos”, mesmo tendo sido testadas “as áreas críticas onde ocorreram um maior número de óbitos e casos graves no país, que foram os lares”.

O autarca considerou que o “isolamento natural que as pessoas têm por causa do território”, composto em grande parte por pequenos núcleos habitacionais dispersos pela serra, está entre os principais fatores que levaram à não deteção de casos de covid-19 no município.

Outra das razões, apontou, foi a “implementação de todo um sistema de apoio porta a porta e casa a casa para as pessoas que tivessem necessidades especiais de bens de primeira necessidade”, que permitiu “evitar que as pessoas saíssem de casa”.

No extremo oposto do Algarve, na costa oeste algarvia, o presidente da Câmara de Aljezur atribuiu à sorte, baixa densidade populacional e ao esforço da população no cumprimento das recomendações das autoridades de saúde, o facto de o município não ter registado, até ao momento, qualquer caso de covid-19.

“Entre meia dúzia de fatores, está a sorte, mas foi sobretudo o esforço e a responsabilidade de todos no cumprimento das recomendações que foi determinante e que permitiu alcançar estes resultados”, sublinhou José Gonçalves.

Na opinião do autarca, a ausência de grandes centros comerciais naquele concelho da Costa Vicentina, “onde se pudessem acumular pessoas” e a resposta em rede dos vários parceiros – Câmara, Juntas de Freguesia, entidades e associações – na salvaguarda dos idosos, “para que se mantivessem em casa”, foram, também, determinantes.

“Agora, com o desconfinamento, estamos expectantes para ver como vai ser o futuro, porque começam a chegar pessoas para alguns dias de férias, mas creio que todos se deslocam com cautelas, cientes das medidas de proteção”, frisou.

Portugal contabiliza 1.369 mortos associados à covid-19 em 31.596 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia divulgado na quinta-feira.

No Algarve, segundo a Direção-Geral da Saúde, havia, na quinta-feira, 366 casos confirmados de infeção e 15 óbitos associados à covid-19.

Os concelhos com mais casos no distrito de Faro eram, na mesma data, os de Albufeira (76), Faro (67), Loulé (64) e Portimão (38).

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