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As empresas marítimo-turísticas que operam no Algarve estão com a atividade totalmente parada e fracas perspetivas para o verão, receando que uma retoma demasiado gradual as possa deixar mais de um ano sem faturar.

É na marina de Albufeira, fechada à entrada e saída de barcos – pelo menos enquanto vigorar em Portugal o estado de emergência -, que a Lusa encontra três empresários do setor marítimo-turístico. O dia cinzento, com ameaça de chuva, serve de reflexo ao que afirmam estar a passar-se na sua atividade.

“Dizem que há 360 dias de sol no Algarve, o que não é o caso hoje, mas nós só conseguimos trabalhar a sério durante quatro meses. O resto do tempo é para cobrir as despesas mínimas”, desabafa Mário Silva.

Proprietário há dez anos de uma empresa de mergulho, decidiu apostar este ano em “passeios marítimos de luxo” e investiu “cerca de 600 mil euros em dois barcos”, confessando não saber quando irá “conseguir recuperar” o investimento.

“Se não arrancarmos esta temporada, só vamos trabalhar a partir da Páscoa do ano que vem, na melhor das hipóteses. Estamos a falar de um ano e meio sem faturar para garantir as despesas da empresa”, afirma o empresário.

Em fevereiro, Mário Silva já tinha reservas para “umas semanas bem compostas em julho e agosto, num valor de 150 mil euros”, valor que já teve de “devolver aos clientes”.

Desde março que os barcos estão parados e uma pequena vista de olhos pelos postos de amarração da marina de Albufeira permite identificar várias embarcações de empresas marítimo-turísticas, numa imagem da total ausência de atividade.

Pedro Bacalhau é proprietário de doze barcos de passeio nos quais transportou o ano passado cerca de 120 mil pessoas, entre passeios, atividades de desportos náuticos, eventos corporativos ou casamentos. “Agora estão parados na marina”, lamenta.

O empresário refere que “a dinâmica da atividade no Algarve faz com que março seja a pior fase de liquidez e tesouraria”, sublinhando que logo no início desse mês “surgiram muitos cancelamentos”, e que a atividade foi encerrada em 14 de março.

“Temos feito investimentos todos os anos, sempre com recurso à banca, se não faturarmos nesta temporada temos de continuar a endividar-nos. Neste momento não sei se é comportável continuar o endividamento”, argumenta Pedro Bacalhau.

Há duas semanas candidatou-se ao apoio excecional no âmbito da crise epidémica da covid-19, mas defende que estas medidas “deveriam ter moratórias mais prolongadas” e que as “exigências das linhas de créditos têm de ter em conta a sazonalidade do Algarve, que vai ser muito mais acentuada este ano”, alerta.

É essa sazonalidade a grande preocupação destes empresários, já que alguns mantêm “uma operação residual de novembro a fevereiro”, para poderem garantir “uma estrutura profissional que dê resposta a uma operação complexa no verão”.

No caso de Pedro Bacalhau são 56 as pessoas “que dependem da faturação da temporada média e alta”.

Carlos Vieira centrou a sua atividade no apoio recreativo de praia – com motos de água, gaivotas e passeios de paraquedas em barco –, e alerta para o facto de 80% das empresas algarvias dependerem diretamente ou indiretamente do turismo.

“Isso quer dizer que deixaram de faturar em outubro de 2019 e só se prevê faturação significativa em junho de 2021, sendo que há um estudo a colocar o início da retoma apenas em 2022. Será, pelo menos, uma travessia no deserto de um ano e meio”, destaca.

O empresário, que é também membro da direção da Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE), argumenta que a medidas anunciadas até agora “não são suficientes” porque, no caso algarvio, as “carências vão terminar quando as empresas estiverem descapitalizadas”.

“É necessário o ‘lay off’ para os sócios gerentes, medidas de redução de IRC e Segurança social nos próximos dois, três anos e reduzir o IVA de forma permanente para os 6%, como acontece na maioria dos países da concorrência”, aponta.

Já a pensar na retoma da atividade, Carlos Vieira revela que a APECATE “está a preparar um manual de boas práticas” para que as empresas saibam “de que forma podem trabalhar protegendo os seus clientes e funcionários”, já que “nada vai ser como dantes”.

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