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A autarquia de São Brás de Alportel, no interior do Algarve, desafiou a população a participar na produção de 12 mil máscaras sociais, ocupação que vai ser recompensada com a atribuição de vales de compras no comércio local.

A ideia partiu do executivo camarário, aproveitando os seus funcionários, entretanto sem ocupação, mas a participação foi alargada à comunidade, contando agora com mais de “70 participantes, dos 14 aos 87 anos”, num esforço coletivo que pretende proteger duplamente o concelho da pandemia de covid-19.

“As máscaras protegem a comunidade contra o vírus e a economia local contra a crise, com os vales de compras que vão ser atribuídos a esta rede de quase sete dezenas de costureiras e artesãs, para gastarem no nosso comércio local” afirma à Lusa a vice-presidente da Câmara de São Brás de Alportel.

Marlene Guerreiro considera que a medida, que “deve injetar oito mil euros” na economia local, “é o caminho mais longo” – mais rápido seria comprar as máscaras numa fábrica –, mas tem “um espírito solidário importante para a comunidade”.

O Centro de Artes e Ofícios da vila é o ponto central da iniciativa, onde diariamente trabalham quase 50 pessoas, por turnos, numa linha de montagem distribuída por várias salas, que garante a segurança de quem produz e dos que os rodeiam.

Na receção do centro, Sónia Martins e Carla Pernas asseguram o abastecimento de materiais, o fluxo de produção e a boa disposição de quem decidiu ajudar o próximo, acolhendo quem chega com um sorriso, já que “beijinhos agora não são permitidos”, lamentam, enquanto recebem mais uma das voluntárias.

“É meu hábito vir aqui para o centro, por isso, aceitei o desafio, embora não saiba costurar muito bem, faço o que posso em casa e os acabamentos fazem-se aqui”, revela Luísa Pires, enfermeira reformada, que assim pode “continuar a ajudar os outros”.

Num saco leva consigo 49 máscaras que a obrigaram a afastar-se “das redes sociais e da família”, para as conseguir terminar, mas que a fazem sentir-se feliz por “ajudar quem precisa”.

Ao lado, na sala de corte, as mãos e os olhos concentram-se nas medidas da marcação dos tecidos interior e exterior da máscara, essenciais para garantir que o resultado final sai como pretendido.

Marília Martins é umas das funcionária camarárias convocadas para o desafio, que aceitou “com toda a satisfação”, como revela à Lusa, por considerar importante “ser útil neste tempo de pandemia, ajudando quem precisa”.

Nas restantes alas do centro, o som das máquinas de costura é uma constante, mas não o suficiente para abafar a boa disposição e as muitas conversas “quase sempre à volta de comida e receitas”, entre as várias costureiras e artesãs.

“Há até quem dê um passinho de dança para desentorpecer as pernas”, adianta Sónia Martins.

Grande parte das máquinas são das próprias costureiras, mas houve “também algumas doações”.

No entanto, parte da força de trabalho está distribuída pelo concelho, tendo sido necessário montar uma logística para que a produção não pare e rapidamente se atinjam as 12 mil máscaras que serão distribuídas pela população: duas por cada munícipe.

Quase ao lado do Centro de Artes e Ofícios fica uma das ‘unidades’ de produção externa, em casa de uma família de ascendência nipónica e brasileira, cuja experiência no Japão permitiu estabelecer uma linha de montagem à volta da mesa da cozinha.

“O importante é não deixar a máquina parada. Um alfineta o elástico e vai à máquina, depois o outro remata e volta à máquina, que nunca pode parar. É uma questão de ver o que está a faltar e o que é preciso fazer” descreve Camila Miney à Lusa.

A opção em fazer a produção em casa permitiu “manter algumas das rotinas diárias”, nomeadamente, permitir que o filho assista à telescola, ao mesmo tempo que cumpre a promessa de produzir “50 máscaras de manhã e 50 à tarde, durante uma semana”, adianta.

Só desta casa sairão 500 das 12 mil máscaras que já começaram a ser distribuídas pelo concelho.

De acordo com a Direção-Geral da Saúde, a utilização de máscaras pela população é um ato de altruísmo, já que quem a utiliza não fica mais protegido, contribuindo, sim, para a proteção das outras pessoas.

A doença covid-19 é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro em Wuhan, uma cidade do centro da China.

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