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“Temos crianças e pais quase cegos. Temos, por exemplo, uma menina de 12 anos que vê com muita dificuldade e isto acontece porque o desespero e incapacidade das famílias em lidar com os problemas leva ao abandono do problema”, conta, preocupada, Joana Oliveira, recordando que há famílias monoparentais com três filhos para criar dependendo exclusivamente de um ordenado mínimo de 477 euros.

Segundo Joana Oliveira, responsável pela “Porta Amiga” – um centro de acolhimento que abriu em 2000 em Tavira e que atende 170 crianças em regime ambulatório e 18 em regime interno – a “rede social que existe não tem resposta para apoiar as famílias carenciadas” e por esse motivo surgem tantos casos de crianças com problemas de visão.

Uma centena de crianças e adolescentes carenciadas e oriundos de famílias disfuncionais do Algarve realizaram hoje rastreios visuais e cerca de 20 por cento dos rastreados precisam de usar óculos.

Maria (nome fictício) tem 12 anos, vive no Centro de Acolhimento “Porta Amiga”, em Tavira, sofre de dores de cabeça e vê com esforço as letras no quadro interativo da sala de aula.

“Vai precisar de óculos para visão ao longe e mais definição de letras”, explicou Cátia, uma das três autometristas envolvida no projeto “Ver para Aprender”, uma iniciativa que uniu a instituição de solidariedade Cáritas, o Instituto Óptico e a estação televisiva Sic. O objetivo do projeto é fazer rastreios visuais às crianças e oferecer óculos a quem necessita.

Durante o rastreio à visão a cerca de 100 crianças, e que decorreu hoje no centro de acolhimento “Porta Amiga”, foram sinalizadas “três casos de estrabismo", o que é revelador da “falta de acompanhamento da saúde visual em crianças carenciadas”, observa Carlos Tavares, do Instituto Óptico.

Esfregar os olhos e tê-los vermelhos, sofrer de sonolência, franzir a testa quando se está a ler, sentir dificuldades em aprender na escola, uma locomoção difícil ou esbarramento em obstáculos são alguns dos “sintomas” de estar com problemas de visão, alerta o especialista Carlos Tavares, recomendado exames de rotina às crianças no momento em que entram na escola.

“Não ver bem vai destruturar a vida completamente das crianças, porque 80 por cento do nosso cérebro processa a informação através da visão e isso afeta toda a aprendizagem do mundo exterior”, observou.

Mas há também rastreios com resultados interesantes. João (nome fictício), 12 anos, “podia ser aviador”, pois a observação ocular permitiu saber que tem uma aquidade visual de 100 por cento”, diz Carlos Tavares, sublinhando que saber que uma criança está saudável e não precisa de uma prótese ocular é igualmente importante.

Valter Spenser, 17 anos, conta, timidamente, que está tudo bem com os seus olhos e que não vai precisar de usar óculos.

“Gosto de fazer estes exames para saber se os meus olhos estão bons”, admitiu, envergonhado.

O projeto “Ver para Aprender” tem como objetivo sensiblizar a população para a saúde visual das crianças e para exames rotineiros. Depois de passar pelo Porto, Faro e Tavira, o consultório móvel de oftalmologia do "Ver para Aprender" entra de férias em conformidade com as férias das crianças. O consultório móvel retoma a ação nos dias, 06, 07 e 08 de outubro em Setúbal.

Lusa
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