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© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

A crise de vocações consagradas que vive toda a Igreja tem-se sentido também no Algarve e agravado na última década.

Ao nível dos institutos religiosos femininos, dos sete que desde 2003 tiveram que fechar comunidades no Algarve, três saíram mesmo da diocese, alguns deles com uma presença que vinha de há mais de um século.

Em 2003, a Congregação da Divina Providência e da Sagrada Família encerrou o seu contributo no Seminário de São José, em Faro, onde desde 1975, asseguravam todo o trabalho de apoio e manutenção daquela instituição com as diversas equipas formadoras e seminaristas que por ali passaram. Aquela congregação passou a estar presente apenas no Algarve em Quarteira com uma comunidade que atualmente integra ainda quatro consagradas que dão apoio à pastoral da paróquia e ao trabalho realizado no seu centro paroquial.

No mesmo ano, também o Instituto das Irmãs de Santa Doroteia fechava em Lagos a sua comunidade que, no início dos anos oitenta tinha aberto primeiro em Portimão, passando depois para aquela cidade. A sua presença no Algarve ficou resumida desde então à comunidade de Loulé, criada em 1990, que apoia toda a pastoral das paróquias daquela cidade, onde permanecem ainda três religiosas.

Em 2005 foi a vez da Congregação das Escravas da Santíssima Eucaristia e da Mãe de Deus fecharem a única comunidade algarvia, sedeada desde 1991 em São Brás de Alportel, terminando assim a sua presença na diocese. Aquelas consagradas colaboravam na pastoral da paróquia local e também nos Serviços Diocesanos de Pastoral da Diocese do Algarve, concretamente na loja de artigos religiosos que ali existe.

Em 2007, as irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, que agora extinguem por completo a sua presença no Algarve iniciada no ano de 1877, encerraram a sua comunidade em Faro, presente no Colégio de Nossa Senhora do Alto. Recorde-se que aquela congregação desde 1955 (e já antes no Colégio de Santa Catarina em Monchique, desde 1931) asseguravam a orientação educativa daquela instituição, passando a mesma para as irmãs Filhas Maria Auxiliadora (salesianas), cuja comunidade sedeada em Paderne teve de deixar de colaborar com a paróquia local para vir para Faro.

Em 2008 encerrou o Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Marana-Tha, sedeado em Santa Catarina da Fonte do Bispo, cujo projeto de fundação, embora tendo perdurado desde 1994, não chegou a vingar. O Algarve perdeu então uma das duas comunidades de vida contemplativa que tinha, ficando apenas com a das Carmelitas Descalças do Carmelo do Patacão, no concelho de Faro, para onde foi a única monja do mosteiro cisterciense algarvio, depois de ter estado durante algum tempo em França.

© Samuel Mendonça
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Em 2011 fechou a comunidade de Martim Longo das Franciscanas Missionárias de Maria que no próximo mês deixam também Odiáxere. Desde 1983 a trabalhar no apoio à população idosa e abandonada da serra algarvia, a comunidade religiosa de Martim Longo foi determinante na criação do centro paroquial juntamente com o pároco de então, o padre Manuel Oliveira Rodrigues, e na sua manutenção ao longo de 28 anos, assim como na colaboração com a pastoral paroquial.

A partir do dia 3 de agosto, a presença das Franciscanas Missionárias de Maria no Algarve irá resumir-se então à comunidade de Porches, criada em 1977, onde trabalham cinco consagradas, algumas das quais vindas da extinta comunidade de Martim Longo.

Em 2012, o Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria viu-se forçado a encerrar a comunidade de Monchique, interrompendo a colaboração de 35 anos com aquela paróquia serrana. Atualmente mantém apenas no Algarve a comunidade de Silves, criada há 19 anos, para onde seguiram as irmãs de Monchique e que integra ainda três religiosas que colaboram nos diversos serviços da pastoral paroquial.

O cónego José Pedro Martins considera que “está a haver um empobrecimento” e que esta realidade traz “muitas consequências” para a pastoral da diocese algarvia. “Há comunidades que têm estado em paróquias onde o pároco não está residente e aí supriam com o seu trabalho e presença de Igreja, ajudando as pessoas, na formação para os vários serviços na paróquia”, explica ao Folha do Domingo o vigário episcopal para pastoral da Diocese do Algarve, acrescentando que nas paróquias onde há pároco residente ou naquelas em que este tem a seu cargo várias comunidades paroquiais, acontece a mesma coisa.

“Não é fácil substituir imediatamente as comunidades religiosas por leigos dedicados, muito embora nós os encontremos, felizmente, nas paróquias da diocese”, constata, lembrando que a presença das religiosas é ainda importante “porque a vida consagrada é um carisma e o carisma continua presente na Igreja como necessário”. “A presença destas irmãs é um sinal do carisma, do despojamento e da dedicação total ao serviço do reino. Não tendo esta visibilidade, as comunidades ficam mais circunscritas a uma imagem redutora de Igreja”, complementa.

Aquele responsável reconhece correr-se ainda o risco de se poderem perder serviços e até mesmo instituições assegurados pelas consagrados e diz tratar-se de um “repto às próprias paróquias para que os leigos tenham mais consciência de que são chamados a participar como corresponsáveis na vida da Igreja”. “As comunidades que temos tido são comunidades com religiosas já muito avançadas na idade. Elas próprias também não têm encontrado vocações na própria diocese. Muita gente gosta das irmãs e fica embevecida com elas mas muito pouca gente pensa na continuidade deste carisma”, sublinha, constatando que o Algarve “não tem dado religiosas às várias congregações e institutos que aqui têm estado”.

Recorde-se ainda que o ano de 2015 será dedicado à vida consagrada por vontade do Papa Francisco que fez esse anúncio em novembro do ano passado.

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