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Cristãos, judeus e islâmicos debateram a multiculturalidade no Algarve

Após a intervenção de Sara Ferreira, antropóloga, sobre a questão da multiculturalidade, Ralf Pinto, director do Centro Judaico de Faro, explicou que a Comunidade Judaica é constituída no mundo por um total de 14 mil pessoas, sendo que 600 se encontram em Portugal, distribuídas por Lisboa, Porto, Belmonte (distrito de Castelo-Branco) e Algarve.

Sublinhando que, para um judeu, “Deus é uma convicção espiritual com raiz no próprio ser”, deteve-se na enumeração de preceitos, leis e celebrações do Judaísmo e afirmou que membros da comunidade procuram “adorar a Deus com todo o coração e alma” e ensinam isso aos filhos. “O objectivo do Judaísmo é tornar sagrados todos os actos quotidianos. Por esta razão temos bênçãos para cada ocasião”, acrescentou.

Ralf Pinto disse ainda que o facto de não haver actualmente uma sinagoga no Algarve “não é problema” para quem professa a fé judaica. O director do Centro Judaico de Faro disse também que, no que respeita à multiculturalidade, “o Judaísmo não é proselitista”.

O padre Miguel Neto, do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, que apresentou alguns tópicos históricos, uma visão da realidade actual e algumas perspectivas futuras para a Igreja católica, defendeu que “é preciso abrir uma nova era no relacionamento entre as várias religiões com algum fundamento histórico”.

O sacerdote considerou, no entanto, que “se há sítio da Igreja primitiva onde foram realizadas iniciativas de âmbito multicultural, principalmente com a conquista islâmica, foi o Algarve” e explicou que “havia grande convivência, quer no Algarve, quer na Andaluzia, entre cristãos e muçulmanos”. “Os moçárabes cristãos adaptaram os seus ritos à realidade em que viviam”, justificou, lembrando que “até à primeira conquista de Silves, obras de autores muçulmanos retratam a existência de uma convivência salutar, apesar dos altos impostos que os muçulmanos pagar os que praticavam uma religião diferente”.

O representante do Cristianismo evidenciou então o Algarve como região de acolhimento inter-cultural e religioso. “Se há sítio no nosso país onde é habitual conviver com gente de outras etnias e religiões é o Algarve pelas características que todos nós conhecemos”, afirmou.

O padre Miguel Neto defendeu ainda que “ser cristão, hoje em dia, é uma escolha pessoal”. “Até aqui ser cristão era uma característica social e tradicional. Felizmente isto vai deixar de ser assim e essa mudança começou pelo Algarve”, frisou, considerando que “outra coisa é as pessoas serem culturalmente cristãs”.

O sacerdote defendeu que “as religiões não estão fora de moda” e lamentou que surjam “novos fenómenos religiosos que não implicam compromisso, conversão e mudança de vida”. “Ser cristão não é exercer um conjunto de regras, mas aderir à pessoa de Cristo e implica mudança de vida e conversão”, advertiu, criticando as que “querem ter um pé fora e outro dentro [da religião], querem algo que as ajude espiritualmente mas não querem essa conversão e essa mudança de vida”.

O representante de Igreja católica lamentou o referendo da Suíça, considerando que “imiscuiu-se na própria esfera privada da religião islâmica e isso é inadmissível”. “Eu sou livre de usar uma cruz ao peito, o senhor Ralf Pinto é livre de usar o quipá na cabeça e o dr. Ben-Hamadou é livre de usar outro sinal da fé islâmica. Estão a querer remeter as religiões a algo privado quando faz parte da sua essência, sobretudo do Cristianismo e do Islamismo, o testemunho de fé e a evangelização”, advertiu.

O padre Miguel Neto considerou ainda que o Algarve, “pela sua particular situação geográfica e civilizacional, tende a ser uma importante região no entendimento entre as várias confissões religiosas e as diversas religiões”. No entanto, a região corre também o risco de “ser uma região sem uma identidade religiosa específica e com uma panóplia de crenças e de crentes”, explicou. “O número dos cristãos pode diminuir, mas os que existem assumem a fé e tendem a ser sinceros, verdadeiros e coerentes com o credo que professam”, concluiu.

Radhouan Ben-Hamadou, rectificando o sacerdote algarvio, preferiu utilizar o termo presença em vez de invasão islâmica e lembrou que “a cultura islâmica deixou muitas marcas” não só em Portugal como na Europa. “Diz-se muito que a cultura europeia é judaico-cristã e esquecemo-nos que a cultura árabe foi a identidade da Península Ibérica”, constatou, apontando os exemplos das influências que perduram na agricultura, na gastronomia, nas artes e nas ciências.

O presidente da Associação de Cultura Islâmica do Algarve reconheceu que o processo de multiculturalidade entre cristãos e muçulmanos “nem sempre o processo foi pacífico”, mas considerou que “o que ressalta é que os povos tinham as capacidades de gerir a sua fé sem problemas”. Procurando precisar o padre Miguel Neto, explicou que o imposto aplicado pelos árabes “não era resultado de uma segregação de cidadãos que professam diferentes religiões, mas um imposto que é pago porque quem não professa a fé islâmica que não tem obrigação de proteger a nação e paga por isso para ser protegido”.

Ben-Hamadou rejeitou os termos tolerância e respeito, prefiro falar em parceria. “Devemos basear as nossas colaborações sobre um projecto que tenha as pessoas como centro. A integração dentro das cidades não pode ser em termos de assimilação, mas um enriquecimento com as identidades que chegam e com as quais se pode conviver. A diferença provoca medo e é preciso ultrapassá-lo. É preciso construir pontes, dialogar e criar valores que definam uma nova identidade para uma cidadania participativa de todas as pessoas”, defendeu.

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