Folha do Domingo foi ouvir o novo presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, D. Alexandre Palma, sobre que papel devem assumir os órgãos de comunicação da Igreja e os jornalistas cristãos, qual o maior desafio que a Igreja enfrenta hoje no ambiente digital e tecnológico, o que é que aquela comissão pretende para o setor e que estratégia para vencer o desafio da sustentabilidade. Entrevista conduzida por Samuel Mendonça

Num tempo marcado por discursos de ódio, violência, extremismo, misoginia, manipulação, radicalização e crescente polarização — uma polarização que, ao contrário do que acontecia há alguns anos, parece também manifestar-se no interior da própria Igreja — que papel devem assumir os meios de comunicação social da Igreja?
Em primeiro lugar, creio que estes desafios que identifica são reais. Mais descritos assim, mais de outra forma, mas eles são reais. Eu diria que, em primeiro lugar, é preciso todos nós — como comunidade eclesial, mas até como comunidade civil e social — percebermos que vivemos em sociedades democráticas, portanto muito plurais, e alguma da tensão, alguma da controvérsia, é, de alguma maneira, o preço que pagamos por querermos viver em sociedades plurais. O que é que eu estou a dizer? Não quero normalizar algumas das coisas que disse, mas quero dar-lhes, apesar de tudo, uma interpretação e perceber que provavelmente o que estamos a constatar e a viver é alguma expressão muito avançada e, se calhar, sombria — reconheço em muitos aspetos — de uma coisa que, apesar de tudo, achamos positiva, que é a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, também a liberdade religiosa. E, portanto, termos sociedades onde haja mais discussão pública é uma consequência, se calhar, disso. Isto, repito, não é para normalizar os abusos destas liberdades — seja lá o que isso for (eu também não sou capaz de o definir) — mas é sobretudo para dar este contexto.
Respondendo diretamente à sua pergunta, eu diria que a comunicação da Igreja, ou a comunicação inspirada pelo valor do Evangelho — porque ela pode ser uma comunicação de órgãos da Igreja, como podem ser comunicadores cristãos que estão em órgãos generalistas, não necessariamente da Igreja — eu diria que, em primeiro lugar, é promover uma mundividência cristã. Isto é, ajudar-nos a ler o que está a acontecer: a vida, a sociedade, a política, o desporto, a cultura, também a fé, também a religião, a família, a escola, o digital… Como é que lemos isto com um olhar inspirado pelo Evangelho de Jesus? Se quisermos, nas questões mais sociais, inspirado também pela Doutrina Social da Igreja. Eu acho que é isto que perseguimos, é disto que andamos atrás. Como é que lemos o mundo com os olhos do Evangelho? Isto é o grande desafio. E repare que isto não é apenas comunicação religiosa, não é apenas comunicação de eventos, de discursos, de documentos religiosos. Inclui isso, mas vai muito para lá disso. 


Como é que lemos o mundo com os olhos do Evangelho? Isto é o grande desafio.


Comunicar é um ato de amor e quando não é, é uma traição


Às vezes, a comunicação corre o risco de navegar em circuito ou círculo fechado.

Um olhar marcado pela esperança?
Bom, depois, a partir do que seja esta mundividência cristã, claro que é um olhar marcado, eu diria — para ser clássico — pela fé, pela caridade e pela esperança. Portanto, de alguma maneira, este olhar de transcendência sobre as coisas do mundo — a fé; este olhar de caridade no ato de comunicar, isto é, perceber que comunicar é um ato que pode e deve ser um ato de caridade, um ato de amor e, portanto, quando não é, de alguma maneira é uma traição sobre o próprio ato de comunicação. Quando comunicamos, isso na sua raiz pode — para levar a imagem do Evangelho — ser a semente da caridade. 
E depois — e acho que sublinha bem — a esperança. Isto porque creio que esse aspeto pode ser até uma espécie do «sal da terra» e «luz do mundo» que podemos trazer à comunicação. Às vezes, a comunicação — repito, civil, social, política, económica, etc., mas também eclesial — corre o risco de navegar em circuito ou círculo fechado. Portanto, de alguma maneira os debates alimentam-se a si próprios, as controvérsias alimentam-se a si próprias. Pode haver alguma coisa de bom nisso, mas é preciso, às vezes, levantar o olhar. E, de facto, aí a esperança é uma espécie de abertura para não nos fecharmos nestes círculos, porque não estamos imunes ao risco de isso acontecer. Portanto, trazer um pouco de Evangelho para a comunicação é também uma comunicação que analise, que seja rigorosa, mas que também abre à esperança. Para mim, ficou muito presente o lema que a Igreja em Espanha escolheu para a visita do Papa: “Levantai o olhar”. Acho que a comunicação inspirada pelo Evangelho, de Igreja e de cristãos no mundo, deve ajudar-nos todos a levantar o olhar.


Um grande desafio é também estabelecermos rede.

E qual é, hoje, o maior desafio que a Igreja enfrenta no ambiente digital e tecnológico, num contexto inevitavelmente marcado pelo desenvolvimento da inteligência artificial?
Bem, em primeiro lugar, eu diria que o primeiro desafio é estarmos presentes também nesse ambiente. O magistério da Igreja, os sucessivos papas, as conferências episcopais, nomeadamente a portuguesa, nas suas múltiplas etapas, têm sempre sublinhado que precisamos de habitar este novo continente. 
Em segundo, significa estar presente — e colo com a resposta anterior — não de qualquer maneira, mas com uma motivação evangélica e com critérios evangélicos, como estávamos a conversar antes. 
Em terceiro, acho que um grande desafio é também estabelecermos rede. Ou seja, o meio digital é muito um meio muito propício a indivíduos, a individualidades. Nada contra, pelo contrário. Mas a Igreja não é apenas indivíduos, é também uma comunidade. E, portanto, como é que a comunidade se revê nesses indivíduos, e como é que esses indivíduos também se apresentam como parte de uma comunidade? Eu diria estabelecer rede neste sentido. O que não significa abafar o carisma de um comunicador, mas significa como é que ele se entende como parte de uma comunidade maior, que é a comunidade de fé, que é a Igreja. 
Depois, acho que o que está a acontecer com todos e também com os agentes eclesiais é que estamos a aprender em tempo real. Isto é — desculpe o anglicismo — learning on the job. Estamos a aprender à medida que a ferramenta se vai desenvolvendo, que as ferramentas se vão disseminando. E, portanto, um bocadinho como os navegadores, estamos a navegar neste mundo sem mapa, porque o mapa está a ser desenhado à medida que navegamos. Isto é um perigo. Vale a pena ser prudentes, mas o Evangelho também é coragem. E, portanto, a prudência não pode ser o negar este mundo ou fugir dele. Significa estar nele com equilíbrio, com sabedoria, mas aceitando também a coragem e o risco que isso pode trazer.


o nosso princípio não é de substituição, é de subsidiariedade.

E por falar em mapas, uma das questões que tinha para lhe fazer era relativamente às próximas Jornadas Nacionais de Comunicação Social, no próximo mês de setembro. E, de acordo com o convite enviado para essa iniciativa, dizia-se que o encontro quer ser “um momento de escuta recíproca, que abra caminhos para uma nova gramática do encontro” e que “marque o arranque do que possa vir a ser o desenho de um mapa conjunto para a comunicação da Igreja em Portugal”. “Mapa conjunto” quer dizer concretamente o quê?
Agradeço a pergunta porque ela para nós, Comissão Episcopal e Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, é importante. Vamos lá ver. Voltámos a ter, como no passado, uma Comissão Episcopal das Comunicações Sociais exclusivamente dedicada a esta área, por decisão do plenário da assembleia [da Conferência Episcopal Portuguesa]. Em paralelo existe uma transição — não total, parcial — de alguns dos agentes, nomeadamente eu, que agora fui eleito presidente desta Comissão Episcopal e que não estava ligado a ela nem sequer a esta área, e também uma nova diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais. Mas depois outros agentes, para uma certa continuidade também com o passado. 
O que é que nós queremos nesta fase? E aí, de facto, o ideário, a temática, a proposta das Jornadas de Comunicação Social tem isso muito explícito. Em primeiro lugar queremos escutar os agentes. Sabemos que o mundo da comunicação da Igreja ou de cristãos — faço sempre este acrescento — é muito diversificado. Temos órgãos nacionais, temos órgãos locais, temos órgãos diocesanos, temos órgãos não confessionais, temos profissionais, temos equipas, temos digital, temos televisão, temos rádio, temos podcast, temos imprensa escrita… Ou seja, quando começamos a ver, é uma constelação muito diversificada. Em primeiro lugar, o que nos perguntamos é: qual é a nossa função como Comissão e como Secretariado? E, em primeiro lugar, é escutar os agentes. Isto é, falem-nos do que é que estão a fazer, os vossos sonhos, os vossos projetos, os vossos medos, as vossas dificuldades, os vossos riscos. Portanto, aí a dinâmica da escuta.
Em segundo lugar, uma vez mais — não é por acaso que há bocado disse o que disse — rede. Queremos que as pessoas que estão a trabalhar na comunicação social da Igreja ou cristãos a trabalhar na comunicação social, se encontrem. Se pudermos ser a ponte ou os facilitadores deste encontro, teremos feito a nossa missão. Isto é, se está aqui alguém do Algarve a trabalhar numa área e está alguém em Braga a trabalhar uma coisa semelhante, mas não se conhecem, por que não conhecerem-se, por que não conversarem, por que não partilharem experiências, por que não partilharem recursos? Há um capital de trabalho e de recursos que não sei se estamos a aproveitar suficientemente. Daí a ideia de rede.
Em terceiro lugar, e tem a ver com alguma coisa do que já disse, que é interrogarmo-nos qual é a nossa função nisto. Nós não somos os comunicadores. A Comissão Episcopal não é ela agente da comunicação. De facto, na esfera da Comissão Episcopal, nomeadamente do Secretariado Nacional, existe a Agência Ecclesia que, ela sim, é uma expressão de comunicação no sentido explícito. Mas o nosso trabalho da Comissão é muito mais do que isso, e não é necessariamente de nos substituirmos aos comunicadores. É — e agora a terceira palavra que quero incluir aqui — o princípio da subsidiariedade. No fundo, a Comissão Episcopal não está para substituir os agentes na sua constelação, como há pouco dizia. Estamos para poder apoiar os agentes. Provavelmente em algumas dinâmicas nacionais que sejam supra-locais, que sejam supra-diocesanas, que sejam supra-movimentos, se calhar interessa haver uma estrutura que ajude a juntar. Se formos nós, cá estamos. Mas o nosso princípio não é de substituição, é de subsidiariedade. E, por isso, não vamos ser os comunicadores diretos. Nós queremos é dar força àqueles que já estão no terreno.
E depois, aquilo que também já há pouco dizia, que é: queremos ajudar a que a comunicação da Igreja ou ligada à Igreja seja evangelizadora. No sentido grande, isto é, trazer o Evangelho para a ordem do dia, para os critérios de decisão, para a inspiração da vida, para a beleza da cultura… 


nos próximos três anos queremos ter uma espécie de plano estratégico.

…para a agenda mediática? 
Sim, para a agenda mediática no sentido macro. E esse é um lugar que faz falta. Mas também para a agenda micro. Isto é, da família, do idoso que lê um jornal diocesano, do jovem que ouve um podcast ou que segue um produtor de conteúdos digitais. Ou seja, não apenas para discutirmos a inteligência artificial, a escola pública, a saúde — com certeza que sim — mas também as pequenas dimensões. Mas repito: a nossa atitude, sobretudo de entrada, é: “Digam-nos o que é que querem fazer, o que é que é preciso fazer, e em que é que nós vos podemos ajudar”.
Sendo claro, — e aí serei sempre muito assertivo — a nossa lógica é de evangelização em todos os sentidos: no sentido explícito e implícito. Meter Evangelho da vida, meter Evangelho da vida, meter Evangelho da vida. 
Última coisa: nós — como Comissão Episcopal e como Secretariado Nacional — também queremos, a partir de como nos representamos e da nossa missão, desenharmos um projeto. De alguma maneira dizer assim: nos próximos três anos — que é o mandato das Comissões Episcopais — queremos ter uma espécie de plano estratégico. Isto é: o que é que vamos querer fazer? Onde é que vamos querer chegar? O que é que vamos querer construir? Também para termos uma bússola para sabermos para onde é que vamos, para não sermos um cata-vento, mas podermos ajudar que toda esta enorme, bela e diversificada constelação que é a comunicação da Igreja, nomeadamente em Portugal, não perca o sentido de onde é que quer caminhar e para onde é que quer ir. E perceberá em toda esta conversa também uma lógica sinodal, uma lógica de escuta, mas escuta para construção conjunta, definição de um horizonte e depois tentar que todos caminhemos para aí. Nesta fase inicial, é o que queremos como Comissão Episcopal.


quando vamos ver a história dos ‘media’ na Igreja, vemos que acompanhou a vanguarda até do desenvolvimento tecnológico.


não sei se estamos também a otimizar todos os recursos que temos.

Um dos principais desafios, se não o maior, que os órgãos de comunicação social da Igreja enfrentam é o da sustentabilidade. Que estratégia para vencer este desafio?
Bom, eu seria contraditório com o que acabei de dizer se dissesse: tenho aqui já a resposta na mão. Não tenho. E não tenho porquê? Porque, primeiro, acho que o problema é real. Depois, o problema é real, mas não é sentido em todos os agentes da mesma maneira porque temos uma enorme constelação de coisas muito diferentes: projetos muito sustentados, projetos menos sustentados… 
Também é preciso dizer que esta é uma questão que os órgãos da Igreja sentem à sua maneira, mas percebemos que é uma questão da indústria. Ou seja, toda a indústria da comunicação social — não apenas a nível nacional, mas até a global — em modalidades diferentes, atravessa um enorme desafio que é o da sua própria sustentabilidade económica.
Agora, a nossa atitude é ouvirmos. Há pouco não disse, mas evidentemente dentro desta constelação estão também os administradores, quem tem a gestão dos órgãos, até porque existe alguma segmentação entre a parte administrativa e a parte editorial nos órgãos de comunicação. Se calhar, uma das redes que queremos ajudar a criar é entre quem tem o encargo tremendo hoje de gerir um jornal diocesano, uma rádio, e sonha fazer mais coisas e debate-se com a escassez de recursos. Queremos escutar.
Mas, para mim é claro que tem de haver órgãos com identidades próprias. Isto é, a homogeneidade aqui provavelmente traria um empobrecimento da capacidade da Igreja falar,  mas temos de trabalhar mais em rede. E aqui há um ponto de equilíbrio porque não vamos todos ser o mesmo, isso a meu ver seria empobrecedor. Aliás, nem seria concordante com a história da relação da Igreja com o mundo da comunicação porque sempre foi uma história de enorme criatividade e inventividade. Isso permitiu que a Igreja — até se calhar nesta área muito mais do que noutras — estivesse bastante na crista da onda. Quer dizer, quando vamos ver a história dos media e a história dos media na Igreja, vemos que a Igreja acompanhou a vanguarda até do desenvolvimento tecnológico. E, portanto, isso resulta desta capilaridade, de uma relativa autonomia dos agentes para inventarem. Portanto, há uma enorme vantagem. Mas não sei se estamos também a otimizar todos os recursos que temos. E recurso é dinheiro, recurso é pessoas, recurso é tempo, recurso é tecnologia. Se trabalharmos mais em rede, sem abafar a particularidade da especialidade de cada um, a singularidade do serviço que cada um presta, se calhar podemos, com o mesmo, fazer mais. Mas para isso temos de ser capazes de trabalhar mais em rede.
A Comissão Episcopal, repito, pode ser um facilitador disto. Mas também deixem-me ser franco: ela não se vai substituir aos agentes nisto. Ela pode ajudar: “Quer fazer isto? Olhe, sabemos que está outra pessoa ali a fazer uma coisa semelhante. Porque é que não conversam?” Isto é também muito responsabilizador para os agentes que estão no terreno. Mas estamos todos juntos nisto. No fundo, é isso que gostava de dizer a terminar: que todos os agentes — mais institucionais, menos institucionais, projetos mais consolidados, projetos mais seminais, projetos mais focados no público todo, projetos mais de nicho focados na juventude ou na terceira idade — que olhem para a Comissão Episcopal e para o Secretariado Nacional e para o nosso pequeno staff como uma ajuda. No que pudermos ajudar, aqui estamos. Porque a nossa lógica é escuta, subsidiariedade, rede e evangelização.