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“Ser ordenado é obra de Deus e não minha”

Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Segurança em bares e discotecas e instrutor em ginásios, Fernando Rafael Rocha sentiu-se chamado aos 28 anos a dar um novo rumo à sua vida que parecia ter atingido a estabilidade. Não era batizado, não tinha frequentado a catequese, nem nunca tinha tido qualquer prática religiosa a não ser a das orações que a bisavó lhe ensinara em criança.

Filho único de pais separados (sendo o pai já falecido), o futuro sacerdote começou a trabalhar aos 15 anos quando decidiu interromper os estudos para ganhar dinheiro para as próprias despesas. Embora mais tarde tivesse retomado a escola em regime noturno para completar o 12º ano, trabalhou na construção civil até aos 19 anos e foi bombeiro voluntário em Arraiolos durante quase seis anos enquanto a mãe, professora, ficou colocada numa escola daquela vila alentejana.

No próximo dia 26 deste mês, com 37 anos, o diácono Rafael Rocha será ordenado sacerdote na sua cidade natal de Quarteira pelas 17h, juntamente com o diácono José Chula, na igreja de São Pedro do Mar. Texto e fotos por Samuel Mendonça

Quando é que começaste a perceber que a tua vida passaria pelo sacerdócio?

A determinada altura, alguma coisa se despertou em mim. Namorava com uma pessoa que queria constituir família, mas quando ela me falava nisso eu, independentemente de amá-la, não me conseguia ver numa vida assim. Na altura devia ter 24 anos e isso criou-me um problema interior porque eu pensava: «mas será que eu não tenho a capacidade de assumir responsabilidades na minha vida? Porquê não sinto que a minha vida passa por constituir família? Devo estar doente, ter algum problema psíquico».

Comecei a isolar-me e a procurar Deus por mim próprio. Procurava ir para a praia e qualquer coisa começou a despertar em mim. Não conseguia perceber muito bem o que se passava. Cada vez gostava mais desses momentos de solidão, de poder falar com Deus e sentia-me completamente preenchido no meu interior. A dada altura acabei por terminar a relação. Tive uma conversa com a pessoa com quem estava e disse-lhe abertamente que não era uma questão de não gostar dela. Eu amava verdadeiramente aquela pessoa e isso, psicologicamente, afetou-me muito porque não conseguia perceber o que se passava comigo. Foi um grande sofrimento tanto para mim como para ela porque sei que ela também sofreu imenso. A partir daí comecei a procurar ajuda.

“Eu não acreditava na Igreja, nem em padres, nem em freiras, mas havia qualquer coisa que me fazia sentir bem dentro das igrejas

E recorreste a quem?

Recorri a tudo menos à Igreja. Eu não acreditava na Igreja, nem em padres, nem em freiras, mas havia qualquer coisa que me fazia sentir bem dentro das igrejas. Gostava de entrar nas igrejas e de me sentar, de sentir aquela paz e de olhar para o sacrário porque tinha consciência que quem ali estava era Jesus.

Mas já acreditavas em Deus?

Acreditava. Em Deus e em Jesus, mas tinha as minhas dúvidas em relação à Nossa Senhora.

O culto mariano fazia-te confusão?

Fazia-me uma certa confusão.

E continuaste à procura de perceber?

Procurei ajuda. Procurei várias pessoas e, inclusive, até cheguei a falar com os chamados médiuns, mas ninguém me conseguia dizer aquilo que eu queria ouvir, nem conseguia acreditar naquilo que via, nem naquilo que ouvia. Até que um dia falei com uma velhota de Quarteira que diziam que «dava umas bênçãos» [risos]. Ainda hoje sou amigo dela. Foi a única pessoa que me deu uma resposta que realmente valeu a pena.

“Cheguei a rezar 14 terços por noite

Qual foi?

Ensinou-me a rezar o terço. Disse-me: «vais ter de rezar muito para que Deus te mostre o caminho que tens de seguir». E eu nem sequer pus obstáculos e comecei a rezar. Na altura deixei de trabalhar como segurança na Fábrica do Inglês e passei para a Quinta do Lago. Tive a sorte de fazer muitas noites ao ser colocado no Hotel Monte da Quinta, na altura em construção, para fazer segurança contra os furtos de gasóleo das máquinas. Ficava ali sozinho da meia-noite até às 8h a vigiar uma área com muito pouca luz equivalente a dois campos de futebol. Sem saber como havia de passar o tempo, a forma que arranjei de passar as noites foi a rezar o terço. Não tenho palavras para explicar o que ali se passou durante praticamente dois anos da minha vida. Podia contar muitas histórias que se passaram comigo sozinho naquela obra com um terço na mão, desde coisas magníficas a outras estrondosas de medo. Cheguei a rezar 14 terços por noite. A dada altura comecei a sentir que só rezar era insuficiente e que precisava de fazer algo mais, mas não sabia o quê. Tinha necessidade de usar da caridade para com o outro, mas não sabia como fazê-lo. Até que um dia em casa encontrei a biografia do padre Cruz e comecei a lê-la. Apaixonei-me então pela sua história de vida, por aquilo que ele fez e pelo servo de Deus que ele foi e isso começou a despertar em mim outros sentimentos interiores. Depois comprei outras biografias, do padre Pio, de São Francisco de Assis e São Francisco Xavier. Comecei a repartir a minha vida entre a leitura da vida de santos e a oração do terço.

“«Por que não padre?». Quando veio este pensamento foi assustador e eu tentava exclui-lo da minha vida

Mas começaste a frequentar mais a igreja a partir dessa altura?

Não. Ainda não frequentava a igreja nessa altura. Não tinha ainda dado qualquer passo em direção à Igreja, mas um dia surge-me a questão: «Por que não padre?». Quando veio este pensamento foi assustador e eu tentava exclui-lo da minha vida, mas começou a surgir com mais frequência. Era como se fosse uma voz que falava comigo e aí senti que tinha de dar uma volta à minha vida. Tinha imensa vergonha de dizer aos meus amigos do mundo da segurança que ia dar um passo destes. Pensei procurar os jesuítas, tirei férias do trabalho e fui a Coimbra falar com um padre jesuíta que me pediu que me dirigisse ao meu pároco. Foi uma barreira interior difícil de ultrapassar porque não tinha grande simpatia pelo padre Elísio [Dias], embora o «conhecesse» desde pequenino.

Como é que foi esse primeiro contacto?

Foi muito engraçado. Andei a ponderar como haveria de fazer. Acabei por ganhar coragem e ir bater-lhe à porta. Ele abriu a porta, ficou um pouco espantado e mandou-me entrar. Disse-lhe que queria ir para os jesuítas e que eles me tinham dito para ir falar com ele. Ele ficou completamente boquiaberto. Tratou-me muito bem, combinamos encontrar-nos todas as semanas e começámos assim a desenvolver a nossa amizade. Pediu a dada altura para começar a frequentar a catequese de adultos uma vez por semana.

E continuavas a trabalhar como segurança?

Continuava. Trabalhei praticamente até entrar no Seminário.

E os teus colegas sabiam da tua vontade?

Muito poucos. Só praticamente no fim, quando apresentei a minha carta de despedimento, é que expliquei.

“D. Manuel Quintas disse que tinha muita falta de sacerdotes para o Algarve. Isto entrou-me mentalmente com muita força

Ficaram mais espantados do que o padre Elísio…

Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Não, pelo contrário. O receio que eu tinha de que as pessoas com quem convivia (ainda hoje minhas amigas) pudessem gozar comigo ou achar uma estupidez não tinha fundamento. Muitos deles, sobretudo aqueles com quem tinha uma relação mais próxima, até me disseram que o que lhes estava a contar não era novidade. O medo que eu tinha transformou-se em apoio.

A dada altura, o padre Elísio chamou-me e disse-me que iria começar a preparar a minha iniciação cristã para poder ser batizado, crismado e fazer a primeira comunhão e disse-me que me acompanharia no meu regresso aos jesuítas de Coimbra. Entretanto comecei a fazer voluntariado no lar de idosos de Quarteira e as irmãs [da Congregação da Divina Providência e Sagrada Família] convidaram-me para vir à Missa Crismal na Sé. Na celebração, o nosso bispo D. Manuel Quintas disse que tinha muita falta de sacerdotes para o Algarve. Isto entrou-me mentalmente com muita força. Saí da missa a pensar: «mas por que é que estás a querer ir para tão longe se mesmo cá podes ser útil? Se o bispo do Algarve diz que tem falta por que é que não serves a tua diocese?».

Fui depois batizado em Quarteira em 2008 por um padre comboniano, sendo o padre Elísio o meu padrinho e as palavras do nosso bispo não me saíam da cabeça até que resolvi falar com o padre Elísio, dizendo-lhe que queria entrar no Seminário diocesano e, mais tarde, caso percebesse que o meu futuro passaria por um instituto religioso, trataríamos da mudança. A partir daí o padre Elísio contactou a equipa formadora do Seminário, falei com o padre Mário, reitor da altura, e entrei em 2008.

“Tive muitas dificuldades em assimilar o ambiente do Seminário porque a minha educação era diferente

Tive muitas dificuldades em assimilar o ambiente do Seminário porque a minha educação era diferente, vinha de um meio e de um mundo totalmente distinto e porque até ali era eu que tomava as minhas decisões e organizava a minha vida. Mas fui caminhando e tive um bom diretor espiritual, o padre Manuel Rodrigues, e um bom pároco, o padre Elísio, que foram grandes pilares no meu sustento.

E como é que a tua família aceitou esse processo?

Não aceitou. Entrei para o Seminário praticamente sozinho. A minha família estava em pânico porque pensava que eu iria deixar-lhes quase mil euros em despesas e encargos mensais como casa e outros.

Mas eras um pilar a nível financeiro para a tua família?

A dada altura, tornei-me.

“A conversão dos meus familiares é algo que vai acontecendo de forma progressiva através da minha própria caminhada.

Daí o receio?

Sim. E também pelo facto de as pessoas da minha família não serem na altura pessoas de Igreja. Aliás, só são hoje por causa deste grande passo que dei. Mesmo depois de eu entrar no Seminário levaram três ou quatro anos até começarem a perceber que tinha escolhido esta vida por vocação. A conversão dos meus familiares é algo que vai acontecendo de forma progressiva através da minha própria caminhada.

Devo muito ao padre Elísio porque foi a pessoa que me sustentou a nível financeiro. Devo muito às obras de rua da Casa do Gaiato que muito me apoiaram. E, há bem pouco tempo, descobri que várias pessoas, através do padre Elísio, também me ajudaram sem que eu soubesse. Tive muita dificuldade em começar a ser ajudado porque estava muito habituado a trabalhar e a pagar as minhas contas. Mas senti-me sempre muito livre porque o padre Elísio disse-me para fazer a experiência com total liberdade, sem pensar que se desistisse teria de restituir o que me tinham dado e ajudou-me a perceber que deixar-me ajudar é também um sinal de humildade.

“O acontecimento da minha doença levou-me a perceber que o tempo de Deus não é o nosso tempo

No teu percurso consegues identificar alguns momentos que impulsionaram a tua vocação?

A minha entrada no Seminário foi muito atribulada. Eu sofro da doença de Crohn. Já a tinha antes de entrar para o Seminário, estava controlada, mas com toda a mudança de vida no primeiro ano tive uma crise enormíssima que me fez ir um mês e meio para o hospital. Isso para mim foi um transtorno muito grande pois eu queria despachar as coisas porque olhava para os padres Pedro e Flávio – que estavam a ser ordenados quando entrei no Seminário –, e constatava que o segundo tinha a minha idade e que o primeiro tinha menos quatro anos do que eu. Mas o acontecimento da minha doença levou-me a perceber que o tempo de Deus não é o nosso tempo. Percebi nesse momento que deveria caminhar com calma e serenidade. Esse foi um momento muito importante para voltar a ganhar um ponto de equilíbrio na minha vida e na minha oração e para perceber também as minhas debilidades e limitações como pessoa e conhecer-me melhor.

“Entrego-me a Deus com uma liberdade muito grande porque me sinto muito, muito feliz com este caminho

Entendes então que este é o momento certo para seres ordenado padre?

Tenho 37 anos, mas podia ter 40 ou 50 ou até podia ter dado este passo com 24 como o padre Pedro. Não sou eu que decido o momento porque, cada vez mais, sinto que ser ordenado é obra de Deus e não minha. Eu, simplesmente, disponibilizo a minha vida com as minhas fraquezas, pecados, qualidades e defeitos e entrego-me a Deus com uma liberdade muito grande porque me sinto muito, muito feliz com este caminho. Acho que ninguém pode dizer que está preparado para assumir um dom que não é nosso, mas vem de Deus. É uma construção que se vai fazendo ao longo da nossa vida. Vai ser toda uma nova vida para mim.

“Um padre diocesano não tem um carisma próprio, tem de saber ter o carisma de todos

Esperas exercer o teu ministério com alguma sensibilidade especial para alguma área? Vais ter alguma prioridade ou sentes-te vocacionado para alguma área da pastoral mais em especial?

Ao longo destes anos de Seminário percebi que os padres diocesanos são a «infantaria» da Igreja, são aqueles que estão à frente. E aqueles que estão à frente têm de estar preparados para tudo. Se estiver com crianças tenho que descer ao nível das crianças e saber lidar com elas, se estiver com eruditos ou intelectuais terei de saber falar com eles e estar ao nível deles, se estiver com o pobre terei de saber ter a linguagem do pobre e descer ao nível dele, se tiver movimentos [eclesiais] terei de saber lidar com eles. Ou seja, acho que um padre diocesano não tem um carisma próprio, tem de saber ter o carisma de todos, acolher e estar com todos, saber descer e subir a todos os níveis. E ser um homem que saiba fazer correções fraternas. Não poderei ser uma pessoa dura. Cada vez mais percebo que chamar uma pessoa à atenção passa, primeiramente, por acolhê-la, por tratá-la bem, por tentar compreendê-la e, só depois, fazê-la ver que errou.

Vivemos numa época em que a prática religiosa e a própria característica da comunidade eclesial são muito diferentes das de há 50 anos. A realidade mudou muito também por via da diminuição dos sacerdotes e os sacerdotes estão hoje muito mais sobrecarregados. Achas que é hoje mais difícil ser padre?

A questão não está no ser difícil. O sacerdócio é uma questão de amor e quando entra o amor não é uma questão de dificuldade, mas uma questão de nos deixarmos guiar pelo Espírito de Deus. Tenho uma opinião muito própria em relação às vocações. Há falta de padres mas a Igreja tem o Espírito Santo. E se as coisas estão assim, e se Deus deixa que estejam assim, acredito que Ele sabe o que faz. Se calhar temos é de pensar em estruturar a pastoral de outra forma. É preciso que as pessoas ultrapassem as suas próprias barreiras. Uma vida comunitária não tem de ser má no sentido de me cortar a liberdade e até pode ser boa. Temos de confiar mais nos leigos.

Esperas delegar responsabilidades nos leigos e guardar para ti aquilo que é específico do ministério?

O que mais me atrai no sacerdócio é a oração. Gosto muito de rezar e acho que vou gostar muito de celebrar a eucaristia, de confessar pessoas e poder fazer direção espiritual porque é isso que me atrai. Às vezes perdemos tempo com mil e uma coisas e não com aquilo que é essencial. Em muitas situações podemos e devemos pôr os leigos a trabalhar, deixar as pessoas fazer, sendo nós a cabeça da organização. Se um padre fica com a responsabilidade de quatro ou cinco paróquias e quer ser ele a fazer e a decidir tudo, é lógico que, como diz o ditado, «quem muitas carroças quer puxar, muitas delas vai deixar». Às vezes, nesta hiperatividade, esquecemo-nos de deixar o Espírito trabalhar.

Que mensagem deixarias a alguém que esteja a equacionar a hipótese de seguir a vida consagrada?

Diria sempre à pessoa para arriscar. A pior coisa que um ser humano pode fazer é deixar passar momentos em que sentimos que podemos fazer algo. No futuro isso sai-nos muito caro na nossa consciência. Se sentimos que podemos estar a ser chamados para algo diferente, é arriscar. Não se perde nada. É lógico que não vão encontrar um «mar de rosas» porque isso não se encontra em lado nenhum. Entregar-se por Jesus é o principal, o resto são acréscimos.

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