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Foto © Samuel Mendonça

Os diretores demissionários do Centro Hospitalar do Algarve (CHA) afirmaram na quarta-feira que a decisão de se demitirem é “irrevogável”, criticando a ausência de uma estratégia para resolver a falta de recursos humanos e a perda de tecnologia instalada.

“A situação dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) da região do Algarve é francamente preocupante”, disse a subdiretora clínica demissionária do CHA, Ana Lopes, à margem de uma audição parlamentar, requerida pelo CDS-PP, na Comissão de Saúde.

De acordo com Ana Lopes, os hospitais públicos do CHA não estão a cumprir a missão de tratar os doentes da região, devido à falta de financiamento do Ministério da Saúde, o que tem impossibilitado também o cumprimento do contrato programa.

“Atendendo a estes condicionalismos, não temos capacidade, nem temos forma de dar a volta à situação”, referiu a subdiretora clínica demissionária do CHA.

Em dezembro de 2016, a subdiretora clínica e quatro diretores de departamento do CHA, que integra os hospitais de Faro, Portimão e de Lagos, apresentaram a demissão por alegada “falta de condições” que tem condicionado a quantidade e a qualidade da assistência nas unidades de saúde.

“Sentimo-nos derrotados, mas a nossa demissão não é um processo de intenções, a nossa demissão é irrevogável”, frisou o diretor demissionário do departamento de Cirurgia do CHA, João Ildefonso, no âmbito da audição parlamentar.

Entre os problemas existentes no CHA, João Ildefonso apontou a “ausência de estratégia a curto e a médio prazo” e a existência de concursos desertos, por falta de atratividade nos hospitais públicos da região algarvia, o que tem levado à saída de profissionais para a atividade privada, “muitos deles nem é por uma questão de ordenado, é por uma questão de condições de trabalho”.

“Todos os serviços de saúde estão deficitários”, considerou João Ildefonso, revelando que, “no departamento cirúrgico, existem 9.058 doentes a aguardar cirurgias, mas o mais grave é que 20% deles já ultrapassaram o tempo de espera máximo garantido e cerca de 10% estão há mais de 12 meses em lista de espera”.

“Em 2016 foram transferidos para os hospitais privados 5.675 doentes, tendo sido operados 4.218”, disse o diretor demissionário do departamento de Cirurgia do CHA.

Para comprovar a falta de recursos humanos, João Ildefonso declarou que na área de estomatologia, o CHA devia ter 15 especialistas e tem apenas três, todos com mais de 55 anos, na cirurgia geral existem 37 especialistas, 22 deles têm mais de 55 anos, a cirurgia plástica devia ter sete especialistas, tem três, todos com mais de 55 anos, a oftalmologia devia ter 22 especialistas, tem 11, seis têm mais de 55 anos, a ortopedia devia ter 30 especialista e 10 internos, tem 17 especialistas, 11 deles com mais de 55 anos, e tem quatro internos, a urologia devia ter 12 especialistas, tem nove e três têm mais de 50 anos, e a anestesiologia devia ter 40 especialista, mas tem 17, 11 deles com mais de 55 anos”.

“Todos os médicos acima dos 55 anos podem ser dispensados de fazer serviço de urgência”, lembrou o diretor demissionário do CHA.

Sobre o anunciado investimento do Governo no CHA, de 19 milhões de euros para o período 2017-2019, o diretor demissionário Pedro Leão Neves considerou que esse valor só serve para que os três hospitais públicos da região do Algarve não fechem as portas nos próximos quatro anos.

“Tem havido um subinvestimento a nível da saúde da região”, advogou Pedro Leão Neves, acrescentando que foi “com tristeza” que se demitiu do cargo de diretor do CHA.

No âmbito da audição parlamentar, a construção de um novo hospital no Algarve foi apontada como “uma boa arma para fazer crescer a saúde na região”, defendeu a subdiretora clínica demissionária do CHA, Ana Lopes, explicando que já existe terreno e projeto.

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