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O frei Fernando Ventura e o jornalista Joaquim Franco vieram ontem ao Algarve para um “abanar de consciências solteiras e solitárias” e apresentar o “desafio” a um projecto de solidariedade.

A apresentação do livro de autoria conjunta, intitulado “Do eu solitário ao nós solidário”, lançado há cerca de um mês, surgiu de conversas “sobre Deus, o homem e o mundo” e da troca de ideias entre ambos, foi o pretexto para a proposta à “mudança do ser” apresentada em tom provocatório.

Na apresentação da publicação que figura entre as mais vendidas do momento em Portugal, no auditório do NERA – Associação Empresarial da Região do Algarve, em Loulé, o autor evidenciou que a publicação propõe uma “passagem do eu solitário, solteiro e solteirão que não tem a ver com estado civil”. “Esta «solteironice» que nos marca foi a que nos trouxe até aqui. Foi esta mania de sermos senhores do tempo, da história e dos outros. De tal maneira solteiros e solteirões que fomos «secando» por dentro”, lamentou o frei Fernando Ventura, que incentivou a “trazer para a rua a revolução dos não-violentos, antes que sejam os violentos a trazer a revolução para a rua”. “É a revolução daqueles que sabem que são gente com gente e que só com outra gente conseguem ser gente”, “daqueles que são capazes de se sentir possibilitados e necessitados da criação de redes de relações”, complementou.

O autor considerou mesmo a proposta apresentada na obra, que já vai na terceira edição, como “única porta de saída da situação em que nos colocaram”. “Trazer para a rua a revolução dos não-violentos é a única possibilidade de podermos sonhar a esperança”, apelou, advertindo os “senhores do tempo que se atreveram a tocar nas nossas esperanças”. “Cuidado se as deixam «cair ao chão». Agora, não perdoamos!”, acautelou.

Evidenciando o ridículo de termos “vícios imperiais” quando estamos “reduzidos à expressão de sermos o que somos”, lembrou que “só temos de ser o que somos” e apelou à “aprendizagem de uma solidariedade activa”. Criticou a “gente da religião” que “não vive «casada» com Deus e «divorciada» da história”, “gente que vai à missa e não se atreve a ir à vida”. “Tenho muito mais respeito por quem vai à vida e que, às vezes, nem tem tempo de ir à missa”, confessou.

Destacando a “urgência” de “nos pensarmos em sociedade” “porque a crise já chegou”, considerou que “seremos capazes de a vencer se formos capazes de dizer a alguém: eu gosto de ti”. “Este é o desafio para os homens e mulheres de religião se entenderem como homens e mulheres de fé. Já chega de gente de religião. Estamos fartos deles. São insuportáveis!”, afirmou, considerando que “este é o tempo de ir mais longe”. “Porque há um Deus que me diz que me ama é o tempo de sonhar possibilidades novas que fatalmente terão de vir porque a mudança, por si, é uma imposição da própria história”, constatou, frisando a necessidade de passar “da religião que mata para a que liberta”. “Todas as religiões, sem excepção, têm as mãos manchadas de sangue porque temos a mania, os cristãos, que Deus é cristão, os judeus, que Deus é judeu e os muçulmanos, que Deus é muçulmano”, criticou, apelando à “construção de uma consciência que vá para além das diferenças”.

O frei Fernando Ventura alertou ainda para algumas consequências práticas desta mudança de consciências, lembrando que “não é a mesma coisa fazer compras na loja da esquina ou na grande superfície” e que “não é indiferente o tipo de produtos bancários que compramos”. “Podemos também estar a ser agentes de destruição e promotores de outras mortes”, advertiu. “Sabem que muito do vosso dinheiro serve para especular no preço do milho e do trigo e que, por causa dos vossos gestos, há gente que vai morrer à fome? Não temos de mudar o mundo, basta que comecemos por nos mudar a nós próprios”, alertou.

A terminar, lembrou que “este não é o tempo da tristeza, mas da esperança com os pés atarraxados na história e não alienada nas mãos de ninguém, de nenhum poder político ou religioso”.

Joaquim Franco lembrou que a publicação parte do “pressuposto da dúvida”. “Acreditamos que sem dúvida, não há Deus”, afirmou, considerando que “a grande morte de Deus acontece quando se sublinham as nossas certezas sobre as dúvidas dos outros”. “É nesse momento que temos de repensar todo o nosso caminho”, complementou o autor, lembrando que “a fé cristã sem caridade, isto é, sem o encontro com o outro e a compreensão do outro como essencial para me compreender a mim, não existe, é um bluff, uma mentira”. “Quando abordamos o diferente, a partir do pressuposto de uma certeza que é obstáculo a que eu crie relação com o outro, então temos de repensar a certeza que constrói a nossa fé”, evidenciou.

O jornalista também destacou que “não há auto-realização”. “Eu sou cada vez mais eu quanto mais for com o outro”, complementou, considerando que “é tempo de revermos muitos dos nossos comportamentos, parâmetros de felicidade, códigos de compreensão, de ir ao essencial dos essenciais e de descobrir esse sentido maior da felicidade”.

A terminar interpelou a assistência com uma interrogação do livro: “quantos pobres são necessários para fazer um rico? Quantos Abeis mais precisamos para acabar com os Cains? Para trazer os Cains para o campo dos Abeis?”.

A apresentação da obra foi repetida, à noite, na paróquia de Santa Maria de Lagos.

Frei Fernando Ventura nasceu em 1959 é teólogo e biblista e é assíduo comentador de atualidade social e religiosa na SIC Notícias e a TSF escolheu-o como “figura do ano” em 2010.

Joaquim Franco nasceu em 1967 e fez parte da equipa que fundou a SIC Notícias no ano 2000 e especializou-se na temática religiosa, à qual tem dedicado particular atenção com reportagens, debates e entrevistas.

Samuel Mendonça
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