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Lidia_jorge_louleLídia Jorge lembra que a festa da Mãe Soberana é uma “festa de ressurreição”, que “tem todos os condimentos de glorificação”, não obstante a imagem venerada ser uma Pietá, ou seja, uma Nossa Senhora com Cristo morto nos braços.

A escritora algarvia, natural de Boliqueime, no concelho de Loulé, foi convidada no último domingo para apresentar a sua perspetiva sobre o culto a Nossa Senhora da Piedade, popularmente conhecida como Mãe Soberana, num encontro que teve lugar na igreja louletana de São Francisco com a participação do padre Carlos de Aquino, pároco de Loulé, de Vitor Aleixo, presidente da Câmara Municipal, e de Horácio Ferreira, um dos homens do andor, no âmbito das festividades deste ano promovidas pelas paróquias de Loulé com o apoio da Câmara Municipal.

“Há pessoas que não compreendem por que razão Nossa Senhora tem um Cristo ao colo. De facto, o culto é de uma Pietá, é de uma mãe lamentosa, porém a festa que nós fazemos é uma festa de ressurreição em todos os seus aspetos, é uma festa de alegria em que a pujança dos homens tem uma força fundamental, em que a expressão de força dos homens do andor ganha uma força muito grande”, afirmou Lídia Jorge, considerando que Nossa Senhora da Piedade “congrega um movimento heróico”. “Os homens do andor, que têm de ser figuras muito fortes, aparecem como heróis. Há uma espécie de expressão popular ativa de que se venceu alguma coisa, de que se está em alegria e o «grito» que se dá não é o de aleluia, mas o de viva à Mãe Soberana. Quando assistimos a esta festa assistimos a alguma coisa que é um bocado diferente das outras porque é uma festa de triunfo”, completou.

A escritora lembrou que o culto iniciou-se por volta do ano de 1553, “quando a casa de Nossa Senhora é fundada e aparece nessa altura esta Pietá”, e teve origem na Slabat Mater, imagem de Nossa Senhora que está de pé chorosa e lacrimosa junto do seu filho crucificado. “Está-se a caminho daquilo que será o Renascimento quando os pintores começam a desenhar os rostos com um certo realismo e começam a aparecer, sobretudo a partir da zona que hoje corresponde à Alemanha, muitas virgens sentadas”, sustentou, explicando que se passa da Slabat Mater para uma virgem sentada com Cristo nos braços até chegar, no século XV, a célebre Pietá de Miguel Ângelo que não é lacrimosa. “É uma virgem serena, que olha para o filho como quem diz: «eu sei que tu vais ressuscitar»”, afirmou Lídia Jorge, sublinhando que a imagem maneirista da Mãe Soberana tem essas marcas.

“O rosto da virgem mostra o próprio reflexo de Deus. É um rosto lindíssimo, maravilhoso, é uma donzela brilhante e é uma rapariga linda que está ali representada”, considerou, acrescentando que “a virgem irradia uma atração enorme sobre as pessoas”. “É a ideia da ternura feminina, da beleza que ultrapassa o tempo. Ao longo destes cinco séculos esta virgem tem um tempo que é muito forte e é uma imagem de sensualidade própria. O que os maneiristas pintam na expressão atravessa o coração das pessoas”, complementou, acrescentando que a Mãe Soberana “é a imagem da renascença”.

“A expressão da virgem, ao longo dos séculos, acabou por ser a expressão de que Deus será completo do ponto de vista das duas sexualidades, isto é, Deus está apto a entender o homem, a mulher e todos os seres do mundo. E isso é um entendimento que é positivo, que assegura as pessoas, dá-lhes ligação, dá-lhes uma relação com o mundo”, disse ainda a escritora.

A romancista afirmou também que, associado a este culto, “há sempre uma lembrança das antigas festas que se faziam pela Primavera”. “É uma festa das flores, dos frutos que virão daqui a uns meses, é uma festa da exuberância. E, possivelmente, haverá nesta festa algum resíduo daquilo que eram as antigas festas à deusa Flora dos romanos. Há um dançar das próprias pessoas que conduzem o andor e há um gingar festivo das pessoas que vão atrás. Há quem se dirija à virgem como se fosse uma rapariga bonita. O que é muito interessante perceber que se associa nesta vitalidade o culto da fertilidade, da renovação da natureza”, afirmou.

Numa perspetiva de futuro, Lídia Jorge alertou que este culto “híbrido” deve ser tratado “com delicadeza porque tem estas componentes variadas”. “Há uma festa popular que eu acho é muito difícil de ser alterada porque não precisa. Se forem introduzidos elementos exteriores, do ponto de vista voluntário, as pessoas vão achar que há uma intromissão. Acho que há uma espontaneidade que deve ser continuada”, defendeu, acrescentando que talvez falte “um bocadinho de sofisticação” porque “as pessoas querem participar e não têm palavras”. “Há uma espécie de desorientação”, considerou, apelando à organização “no sentido de fazer participar as pessoas”.

“Há um lado, não só religioso mas também com alguma coisa de pagão que eu acho que não deve evitado, nem posto de lado, mas deve ser entendido e assumido como um mistério de espiritualidade num sentido mais amplo”, afirmou, apelando à criação de espaços de observação. “Os espaços são fundamentais. Acho que há zonas em volta que poderiam ser lugares para as pessoas espontaneamente irem e verem melhor, estarem e participarem melhor. E possivelmente encontrar forma de aquela longa fila não ficar em silêncio para trás, mas haver um acompanhamento. Ajudar a não se desfazer, ajudar a manter”, afirmou.

Lídia Jorge propôs ainda a inclusão música erudita para “mover as pessoas”. “Esta virgem representa a paixão, mas representa também a ressurreição. Há peças magníficas de música erudita e poemas de grande beleza que podem ser associados”, considerou.

No final do encontro participado também pelo vigário geral da Diocese do Algarve, o cónego Carlos César Chantre desafiou a escritora a produzir algo “como mulher, mãe e avó” para que a terra de Loulé “continue a subir de nível”. “Aquilo que a minha querida amiga disse hoje vai fazer doutrina”, assegurou.

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