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“Essa humildade e sinceridade que aprendi em missão, hoje molda as minhas ações enquanto pessoa e médica”

A Diocese do Algarve está a viver – de 21 de outubro de 2018 a 20 de outubro de 2019 – um ano missionário. Nesse âmbito, iniciamos um conjunto de entrevistas com pessoas que realizaram experiências missionárias nos últimos anos.

Natural de Albufeira, Márcia Rodrigues licenciou-se em medicina, área na qual trabalha, tendo feito a sua especialização em genética médica.

De setembro de 2012 a setembro de 2014 esteve a trabalhar com pessoas portadoras de deficiência como voluntária em missão durante 730 dias em Angola e Moçambique através da associação “Leigos para o Desenvolvimento”, uma ONGD (Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento) católica ligada aos jesuítas.

De setembro de 2012 a setembro de 2014 foste como voluntária em missão para Angola e Moçambique através da associação “Leigos para o Desenvolvimento”. Trabalhaste com crianças, jovens e universitários portadores de deficiência. A fazer concretamente o quê?
No primeiro ano de missão (2012-2013), trabalhei num projeto de saúde comunitária, um dos quatro eixos do projeto de desenvolvimento global do Bairro da Graça, em Benguela. Além da colaboração no Centro Materno-Infantil no início de missão, tive oportunidade de trabalhar em articulação com as escolas e as unidades de saúde deste bairro, promovendo ações de sensibilização sobre a prevenção da gravidez precoce e as doenças sexualmente transmissíveis. Nesta vertente do projeto, contactei com toda a comunidade escolar, incluindo diretores, professores e os estudantes do Ensino Primário ao Ensino Secundário, alguns dos quais portadores de deficiência (nomeadamente motora, como consequência da poliomielite). Paralelamente, desenvolvi uma atividade semanal de Pastoral na Casa do Gaiato de Benguela, que consistia em dar apoio escolar às crianças e jovens nas épocas de avaliação e dar uma formação mais geral, através de atividades lúdicas, às crianças mais pequenas (dos 5 aos 11 anos), grupo do qual fazia parte um menino com deficiência intelectual.
Já no segundo ano de missão (2013-2014), que decorreu na cidade de Cuamba, no Niassa (Moçambique), trabalhei com “mamãs” (nome dado às senhoras em Moçambique) como coordenadora de um projeto de empoderamento de género chamado “Projeto Muthiyana”. Com estas senhoras, fizemos uma formação específica em costura, para as capacitar no trabalho em equipa e economicamente através de algumas atividades de venda dos seus produtos de costura (carteirinhas, malas, roupa) e culinária (compotas e bolinhos). Neste segundo ano de missão, a minha atividade de pastoral consistiu em animar a Pastoral Universitária da Faculdade de Agricultura da Universidade Católica de Moçambique, em Cuamba, onde contactei com vários jovens provenientes diferentes províncias de Moçambique.

Como é que avalias a experiência missionária? De que forma contribuiu para a tua construção enquanto pessoa e, eventualmente, enquanto cristã e enquanto médica?
A minha experiência missionária ao serviço dos “Leigos para o Desenvolvimento” foi “a” experiência da minha vida até ao momento, pois permitiu-me confirmar a minha vocação enquanto cristã ao serviço dos outros, numa realidade simultaneamente tão diferente e tão próxima da minha. “Realidade diferente” porque, quer em Angola quer em Moçambique, as comunidades com quem convivi dispõem de recursos muito limitados, mas conseguem fazer tanto com tão pouco e o fazem sempre com um sorriso nos lábios – isso é uma aprendizagem que levarei comigo para sempre: a resiliência deste povo africano, que atravessou guerras civis, que tem um acesso limitado a comida e a água, que come pouco mais do que aquilo que a terra lhes dá, numa verdadeira agricultura de subsistência, ou vende produtos no mercado informal e, na maioria dos casos, com um filho às costas e dois ou três pela mão. Este “pouco” é, no entanto, razão suficiente para estarem sempre gratos a Deus por aquilo que lhes dá e, por isso, em África, as missas são repletas de cânticos e cores; de mamãs que, através das suas vozes e danças, mostram o seu Amor e Louvor a Deus e nos ensinam que também nós, que vimos de outro país inebriados pela necessidade de “querer sempre mais”, devemos ser mais agradecidos e aprender a viver de uma forma mais simples e despojada. Durante dois anos, tal foi possível para mim de uma forma muito concreta e, hoje, quatro anos depois, continuo a procurar manter esse estilo de vida, agradecida por tanto bem recebido. “Realidade semelhante” porque todos partilhamos os mesmos sentimentos, emoções e desejos, bem como as mesmas angústias e dificuldades independentemente da nossa etnia, cor de pele, ou credo. Tantas vezes me identifiquei com uma determinada pessoa numa determinada situação e senti que a nossa comunhão, união e partilha eram superiores à distância das respetivas origens. O sorriso da mamã ou da criança africana é igual ao da mulher ou da criança portuguesa, apenas mais humilde e sincero. É essa humildade e sinceridade que aprendi em missão, que hoje molda as minhas ações enquanto pessoa, mas também enquanto médica. Esta consciência empática está presente no meu dia-a-dia profissional, pois procuro viver a minha vocação de serviço ao outro, mesmo no mais pequeno dos detalhes, seja ele um simples sorriso ou uma palavra de conforto, sempre com a memória grata daqueles que um dia me concederam a graça de fazer parte das suas vidas.

Pretendes voltar a realizar uma missão?
Se Deus quiser, voltar a ser missionária é um dos planos que eu gostaria de concretizar. Não obstante as dificuldades pelas quais podemos passar em missão, a experiência que tive a nível humano foi tão rica e definidora para mim enquanto pessoa e enquanto cristã, que esse desejo de voltar à missão jamais abandona o meu coração… já faz parte de quem sou – resta saber quando será a altura de voltar. Porém, estou certa que o Senhor escolherá a melhor altura para tal e, até lá, continuarei a aguardar por esse dia com esperança e confiança.

Que mensagem gostarias de deixar a quem, por ventura, se sinta interpelado a fazer uma experiência semelhante?
Hoje em dia, mais do que nunca, estamos cada vez mais centrados em nós próprios, nas nossas necessidades e dificuldades, deixamos de ser capazes de “olhar” para o outro, de comunicar com o outro; somos socialmente pressionados a seguir um caminho egoísta e somos julgados quando não o fazemos. Este é o tipo de pressão que pode deter alguém que se sente interpelado a partir em missão. A minha mensagem para essa pessoa, que já possa ter a semente do voluntariado plantada no seu coração é: “cuida bem da tua semente e cria as condições necessárias para que ela germine e se transforme numa bela árvore, que certamente dará muitos frutos (para os outros, mas também para ti) no futuro, se arriscares a não ficar acomodado(a) no teu cantinho e se te atreveres a contrariar aquilo que parece ser a tendência”. Neste caso concreto, vale sempre a pena arriscar!

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