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FOLHA DO DOMINGO – Como é que aparece esta experiência na vossa vida?
Ana
– Era algo que já ambicionava há bastante tempo. O ano passado, o pároco de Santa Maria de Lagos indicou-me uma missionária – Carmen Santos – que tinha ido em missão através das irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. A Carmen deu-me o contacto da irmã Alcinda com quem falei e iniciámos o percurso de formação. Eu e o Miguel somos amigos e, numa conversa, …

Miguel – …eu apanhei a dica e acabei por entrar na preparação que já estava a ser feita pela Ana. Este já era um interesse que mantínhamos. Não é qualquer coisa que apareceu agora como um «enlatado» que se compra. Já vínhamos fazendo alguma coisa ao nível do trabalho voluntário.

Que outras experiências de voluntariado já tinham?
Ana
– Trabalhei na Amadora, no bairro Cova da Moura, no bairro 6 de Maio e em algumas associações, e sempre muito com a população africana. Trabalhei também no HIV SIDA.

Miguel – Tive experiências ligadas à catequese e de ajuda a pessoas necessitadas nos bairros da Musgueira. Relativamente a Moçambique, com um grupo de amigos, colaborei no envio de um contentor, aquando das cheias. Fiz também parte da “Ajuda de Mãe”, que ajudei a fundar, e sou socorrista voluntário da Cruz Vermelha.

Essas experiências foram uma mais-valia em Moçambique?
Miguel
– Sim. Perante aquela realidade, somos chamados a usar todos os nossos recursos, aquilo que fomos aprendendo ao longo da vida. Pelo facto de ter alguma noção de primeiros socorros e suporte básico de vida, pude obviar alguma necessidade nesse campo.

Já tinham prática cristã ou intensificaram-na mais por causa desta experiência?
Ana – Intensifiquei agora mais a minha prática cristã. Na caminhada de preparação para a missão começámos a participar em encontros bíblicos na paróquia de São Sebastião de Lagos. Foi muito enriquecedor e agora continuamos, apesar de já termos regressado. Sentimos que já faz parte da nossa vida. Esta parte espiritual é fundamental porque ajuda a preparar-nos para o que se lá faz. Em Moçambique fomos padrinhos de Baptismo de uns jovens e isso agora também incute em nós certas responsabilidades. Queremos ser um exemplo para eles, por isso estamos também a fazer trabalho nesse sentido.

Miguel – O facto de termos presente o plano divino e de, no contexto de tudo isto que acontece, surgir mais intensamente a vida cristã, obviamente que nos fortalece e fortalece a nossa missão. Saímos fortalecidos e muito mais chamados à vida cristã. Resulta até mais fácil aplicar o arquétipo da vida cristã em termos daquilo que é a possibilidade de desenvolvimento do povo moçambicano. Toda a esperança de uma boa evolução das suas condições de vida, imbuída deste contexto de vida cristã, sai muito mais fortalecida e potenciada. O trabalho no terreno e a dimensão da espiritualidade não se dissociam.

Porque é que a Daniela Luz ficou lá mais tempo?
Ana – Porque tinha maior disponibilidade, apesar de ter recebido propostas de trabalho antes de ir. Mas já tinha assumido o compromisso que era também um objectivo dela.

Miguel – O facto de a Daniela lá estar dá continuidade ao trabalho. Da nossa parte acaba por não ter ser apenas um mês de trabalho… Estarmos agora cá, permite-nos ajudar de outra forma.

De que forma é que essa ajuda se está a concretizar?
Ana – Tínhamos os três o propósito de ir para ver quais as necessidades e os projectos nos quais poderíamos colaborar dando continuidade depois de regressar. A Daniela ter ficado lá possibilitou isso. Temos vários projectos, vimos quais as prioridades e, neste momento, estamos a avançar com um para a construção de um Centro de Moagem para o Centro de Saúde de Nhaconjo. Já tinha sido doada a máquina por uma organização, mas falta agora construir o edifício onde a máquina irá funcionar. O objectivo é permitir às famílias o acesso à farinha a um baixo custo e as receitas serão para melhorar a alimentação das crianças no Centro Nutricional. Temos trabalhado na angariação de fundos. Editámos uma colecção de postais e marcadores de livros com as fotografias que fizemos lá e temos feito divulgação nas paróquias e nas escolas aqui do concelho.

E tem havido receptividade?
Miguel
– Sim, tem havido muito interesse. Estamos a tentar enviar para todos os lados. As pessoas estão muito receptivas… Criámos uma conta bancária e estamos a ver se o que pensámos vai sendo cumprido passo a passo. Para este projecto do Centro de Moagem são precisos cerca de 10 mil euros. Temos andado alegremente atarefados, mas a perseguir os objectivos.
Ana – Nas paróquias, tem sido estimulante a adesão dos jovens quer a este trabalho missionário, quer na constatação do seu desejo de também partirem como missionários, pois outro objectivo é a continuação da ida de missionários para a continuidade dos projectos.

Miguel – Nas paróquias apresentamos uma breve projecção e os sacerdotes até nos têm deixado intervir na Eucaristia. Temos também uma exposição de fotografias e apelamos ao contributo das pessoas no final. Estamos com os moçambicanos e não é por estarmos aqui fisicamente que deixamos de estar com eles constantemente. Por isso, a missão continua. Ver chegar mais pessoas com vontade de participar é uma felicidade porque, quando faltarmos, alguém há-de continuar.

Ana – E os nossos amigos também já estão entusiasmados com o projecto. Temos materiais já difundidos pelo Norte e em Lisboa.

Miguel – Já temos donativos de Arcos de Valdevez, Guarda, Trancoso, Coimbra, Lisboa…

O que é que fizeram em Moçambique?
Ana
– A primeira semana foi essencialmente para nos inteirarmos das coisas. Fomos apresentados às várias comunidades e planificámos semanalmente o nosso trabalho, pelas várias áreas nas quais as irmãs nos pediram ajuda. Trabalhámos no Centro Nutricional Maria da Paixão do Centro de Saúde e no Gabinete Psicossocial HIV, em algumas actividades de animação e educação com as crianças. Promovemos também um ateliê de culinária cuja receita revertia para o centro de nutrição, um ateliê de costura, formação a educadores e auxiliares do jardim-de-infância e aulas de informática às jovens do internato e às irmãs. A Daniela agora está também a trabalhar na alfabetização das mães.

Miguel – O meu trabalho era no apoio escolar às crianças invisuais. Tivemos ideias para apoiar o instituto com algum equipamento. Muitas destas crianças ficaram cegas por incapacidade do sistema de saúde. Associa-se a falta de assistência médica a alguma falta de esclarecimento de quem cuida das crianças no modo de administração dos medicamentos. Não se pode curar uma conjuntivite com escamas de peixe ou bagos de arroz…

Essas crianças são órfãs?
Miguel – Muitas são órfãs e outras foram abandonadas, pois as famílias estão longe e os pais não têm dinheiro para irem visitá-las.

Levaram algum material pedagógico e lúdico. O que entregaram?
Miguel – Para além de livros, canetas, cds, pens, entre outros materiais didácticos, levámos também material para cuidados médicos. Fomos mesmo carregados. Praticamente só levámos a roupa do corpo, para poder levar na bagagem, em material, o peso máximo que nos autorizam (20 kg).

Aprenderam a relativizar os problemas daqui?
Miguel – Sim. Custou-nos muito regressar porque ficámos muito unidos ao povo moçambicano e à sua forma de estar. Apesar de todas as dificuldades e agruras do dia-a-dia, são um povo que mantém um sorriso, uma pureza e uma tranquilidade constantes.

Apesar de não terem as condições da Europa vivem mais felizes do que nós?
Miguel – Mesmo sendo habitual viverem numa agrura, penso que vivem mais felizes do que nós.

Ana – Enquanto aqui não temos tempo uns para os outros, lá a relação humana é muito valorizada. As pessoas têm tempo para nos acolher, para nos dar um abraço…

Miguel – …para nos receber nas suas casas e nos mostrar todos os aspectos da sua vida, de uma forma perfeitamente natural, como se fossemos da sua família.

Aquilo que encontraram era muito diferente do que estavam à espera?

Ana – Estávamos à espera de encontrar condições piores. Mas uma coisa são as condições da população, outra coisa são as das instituições onde ficámos.

Puderam aperceber-se de como funciona a sociedade moçambicana hoje?
Miguel – As dificuldades são mais acentuadas fora das cidades, concretamente os perigos, as distâncias, a falta de assistência médica, os obstáculos à educação…

Ainda se notam fenómenos como a corrupção?
Miguel – Para um país que sai do último lugar da tabela dos mais ricos do mundo, com um endividamento enorme, e que não tem recursos naturais, o processo de desenvolvimento é mais lento e a manifestação de fenómenos indesejáveis acontece. Mas há esperança e o povo é muito optimista. Se houver formação e aposta na juventude (50% da população tem menos de 18 anos), Moçambique poderá evoluir. Tem um potencial muito grande.

A altura em que estiveram em Moçambique coincidiu com as manifestações públicas?
Ana – Sim. Foi quando despoletaram.

Miguel – Chegámos a comentar que o povo era calmo e pacífico perante tantas injustiças e, de repente, foi precisamente quando estávamos no aeroporto para regressar que estalou tudo.

Qual é a importância da Igreja católica no apoio à população?
Ana – É muito grande. Nota-se que as pessoas têm uma grande fé e apoiam-se muito na Igreja.

Mas é um apoio concreto ao nível da melhoria de vida das pessoas?
Miguel – É um trabalho discreto, quase invisível, mas constante ao lado das populações, das famílias. É um trabalho muito intenso, não só ao nível espiritual, mas também das necessidades.

Ana – A Igreja está à frente de muitas organizações e o Estado também reconhece esse trabalho.

Como é a espiritualidade do povo moçambicano? Vivem a religiosidade de uma forma intensa?
Miguel – Intensa, bonita e pura. Com muita fé, entrega, aceitação e alegria. Dão-nos profundos exemplos de devoção, de confiança e de esperança. São um exemplo em termos de vida de fé.

Têm vontade de regressar. Já está definido quando voltarão?
Ana – Queremos regressar mas temos de reunir as condições para isso.

Tiveram algum apoio?
Miguel
– Tivemos um apoio de cerca de 400 euros, das irmãs e da Liga dos Amigos das Franciscanas Missionárias de Maria, que levámos. Lá, estabelecemos com as irmãs um critério para aplicação desse montante.

Ana – As viagens, ida e volta, custaram 1400 euros a cada um.

Quem toma agora contacto com o vosso projecto pode pensar que foi tudo estruturado antes de irem. Foi assim?
Ana
– Durante o percurso que fomos tendo em Moçambique as ideias foram surgindo e fomos trabalhando.

Como fazem chegar a Moçambique os fundos que angariam?
Ana
– As transferências bancárias são muito caras. Abrimos agora conta num banco onde os custos de transferência são menos e vamos transferindo para uma conta das irmãs em montantes maiores.

Como é que as vossas famílias apoiaram a decisão de irem em missão?
Miguel
– Estiveram perfeitamente unidos, também em missão. Ficaram cá, contribuindo para que viajássemos de forma confiante e sem preocupações. São agentes de apoio e de divulgação.

Ana – Como sabiam que era um desejo antigo, sabiam que mais tarde ou mais cedo haveria de se concretizar.

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