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“Estou disponível para a diocese, estou pronto para ser ordenado”

Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Na infância não quis continuar na catequese porque “aquilo não lhe dizia nada” e em adolescente tinha a certeza que não queria ser padre, mas aos 16 anos acabou por ingressar no Seminário de São José, em Faro, influenciado pelo testemunho de vida de um amigo.

Embora sempre se tenha identificado na Igreja com o carisma franciscano, o diácono Nelson Rodrigues, de 26 anos e natural da Conceição de Faro, no próximo domingo, pelas 17h, será ordenado padre da Diocese do Algarve no santuário da Mãe Soberana, em Loulé. Texto e fotos por Samuel Mendonça

Por que é que resolveste entrar no Seminário?

Porque tive uma experiência muito forte em Fátima que me chamou atenção. Mas não foi só a experiência. Houve um bom exemplo de um seminarista da minha paróquia na minha vida, o Carlos Martins, que é meu padrinho. Chamava-me muito a atenção na altura, quando andava nos escuteiros, ele vir de fim-de-semana e uma das suas preocupações no agrupamento ser a de pôr o pessoal a rezar. Ficou-me na cabeça ele dizer que não podíamos rezar o Pai Nosso de seguida, sem tomar atenção, e que tínhamos de fechar os nossos olhos e pensar em cada palavra.

Comecei, então, a pensar que queria ser como ele. Nessa altura comecei a frequentar o Seminário às quartas-feiras porque os seminaristas tinham a tarde livre e eu ia para lá jogar à bola e passar a tarde com eles. E comecei a gostar, até que, aos 16 anos, entrei, quando o Carlos já lá não estava. Quase parece que só esteve no Seminário para me servir de sinal.

Há pouco tempo, um amigo muito próximo perguntava-me como é que senti esta vontade de ir para padre. É verdade que, ao longo destes 10 anos, sempre fui chamado a dar testemunhos vocacionais, mas agora, aproximando-se a data, vejo que a minha história – a que eu chamo «história de salvação» –, tem sido feita de coisas concretas da vida, muito práticas.

Quando fiz seis anos frequentei o primeiro ano da catequese, mas desisti logo porque aquilo não me dizia nada e, mais tarde, voltei porque estava interessado numa rapariga. Ela pertencia aos escuteiros e eu fui para os escuteiros, andava na catequese e eu fui para a catequese.

A Paula Canário convidou-me também para começar a cantar no coro e a tocar instrumentos.

Contribuiu também muito ter ido para JUFRA [Juventude Franciscana] com 14 anos. Foram experiências muito boas as que vivi com eles, uma delas em Fátima num congresso da Canção Nova em que participei, cujo tema era ‘Família e Eucaristia’. Na altura foi uma experiência bastante forte e aquilo falou-me mesmo ao coração. Até aí nunca me tinha passado pela cabeça ser padre e naquele encontro, pela primeira vez, coloquei essa hipótese. Vim para Faro e fui ao convento dos franciscanos falar com o frei [José] António. Na altura disse-lhe: «Quero ser padre como o senhor». E comecei ali a chorar. É curioso que ele disse-me: «Não vais ser padre como eu, vais ser padre aqui nesta Igreja do Algarve». Deu a entender que eu não seria franciscano, mas diocesano. Disse-me para vir falar com um padre para partilhar o que sentia. E foi assim. Fui ao largo da Sé e nem sabia onde era o Seminário. Fui recebido pelo padre Francisco que falou comigo e percebeu que eu devia ser canalizado para o responsável vocacional da altura, o então diácono (hoje padre), Rui Guerreiro. Falei com ele e foi depois disso que comecei a frequentar o Seminário, semanalmente, às quartas-feiras.

Na altura houve também um CD que me «falou» bastante e que ainda hoje guardo como algo muito importante na minha descoberta vocacional, um CD do grupo ‘Cantando a Palavra’ que o meu padrinho conservava no seu quarto.

Chegaste a namorar?

Cheguei a namorar mas não com aquela rapariga que me levou a entrar para a catequese. Hoje percebo, perfeitamente, que nada mais foi do que algo próprio da idade e de que Deus se quis servir disso para me levar para a catequese.

O que te levou a entrar para a catequese com seis anos foi a vontade da família?

Não. Foi o padre Manuel Rodrigues ter ido à minha escola primária de Mar e Guerra no início do ano letivo fazer a promoção da catequese paroquial.

“Posso viver a espiritualidade franciscana como sacerdote diocesano

Foste a pé a Santiago de Compostela, trabalhaste com pessoas portadoras de deficiência, participaste em encontros europeus de jovens franciscanos. Consegues reconhecer a presença de Deus, em momentos concretos da tua caminhada, a orientar-te num determinado sentido?

Lembro-me de a dada altura na minha vida, quando a minha professora de Educação Moral e Religiosa Católica me disse que eu tinha jeito para ser padre, ter reagido muito mal. Eu sabia que não queria ser padre e criei alguma revolta. Quando alguém tocava no assunto, até na paróquia, tentava mostrar-me um bocadinho mais rebelde para não dar a entender que tinha perfil de padre.

Estas coisas – o congresso, o CD e a vinda ao Seminário – são as coisas belas desta história e as coisas bonitas que me ficaram. Em todas essas coisas que referiste fui posto à prova de várias formas. A experiência em Fátima com deficientes profundos foi importante para combater falhas minhas sempre em vista a uma preparação, já pensando que ia ser padre para todos. Os encontros franciscanos foram importantes para traçar o perfil de padre que Deus quer que eu seja. Ainda hoje muita gente me pergunta por que é que eu não fui para um convento de franciscanos, até pelos exemplos que tenho tido na minha paróquia e por este meu carisma franciscano. Na base está uma decisão do frei [José] António. Ele achou que eu deveria ser padre diocesano porque me conhecia, se calhar, melhor do que eu próprio. Mas a minha caminhada com os jovens franciscanos e também a participação nesses encontros foi contribuindo para perceber o que é que Deus queria de mim, o chamado carisma: um padre simples, próximo, no meio do povo. Obviamente, que não é preciso ser frade para se ser assim. Posso viver a espiritualidade franciscana como sacerdote diocesano e, ao mesmo tempo, é uma forma de me sentir muito reconhecido e agradecido a esta diocese porque o estou. Portanto, não me vejo fora dela, a não ser que seja vontade da própria Igreja que eu não esteja cá.

Mas durante a caminhada vocacional nunca pensaste que a tua vocação passaria por seres padre franciscano?                

Sim, pensei. Pensei e pedi à Paula Canário – na altura a nossa responsável da JUFRA – para me levar ao convento dos franciscanos, em Leiria, onde se faz o chamado postulantado, para falar com o padre responsável. Falei com ele e ele disse-me que só aceitavam jovens a partir dos 18 anos e que eu deveria continuar a minha caminhada. Ora isto, foi uma confirmação do que o frei [José] António me tinha dito. E logo nesse verão, no dia 14 de setembro, entrei para o Seminário diocesano. Mas sempre continuei com a vontade de um dia poder ser frade, o que hoje é uma coisa totalmente ultrapassada. Sou franciscano à mesma, não só porque pertenci à JUFRA, mas porque sou irmão da Ordem Franciscana Secular, uma das três ordens que São Francisco fundou, e os meus votos sou chamado a vivê-los na diocese.

E a tua ligação aos franciscanos vai ser vivida assim dessa forma?

Como franciscano secular.

Portanto, no teu ministério terás sempre esse carisma…

Sempre, sempre, sempre.

E como é que vais exercer o teu ministério com esse carisma? Como é que será o teu relacionamento com a Ordem dos Frades Menores?

Em termos de relacionamento, a minha referência continuará a ser a Ordem Franciscana Secular. Sou irmão da Ordem e procurarei, em momentos-chave do calendário litúrgico, estar presente, pelo menos no dia de São Francisco, se a pastoral onde estiver inserido me possibilitar. Mas penso que a minha ligação irá fazer-se notar mais no estilo de vida. No dia da ordenação diaconal já prometi obediência ao bispo e vou voltar a fazê-lo agora. A obediência é um dos pontos fundamentais da espiritualidade franciscana que devo procurar viver de uma forma, cada vez mais, aprofundada e evangélica, com uma total disponibilidade, não de sujeição a ninguém, mas para fazer a vontade do Senhor que reconheço ser a do bispo. O meu estilo de vida será alicerçado nas fontes fundamentais que prometo, de qualquer maneira, como sacerdote diocesano: a obediência à Igreja, uma castidade perfeita e um estilo de vida simples na pobreza.

Os sacerdotes diocesanos não fazem voto de pobreza, só de obediência ao bispo…

Efetivamente não, mas não deixam de ser padres e de ter um evangelho para cumprir, portanto o estilo de vida simples está sempre lá. E temos um diretório de vida para o clero [Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros], estando lá bem explicito que o temos de viver sempre…

…mas, no teu caso, a diferença é que o voto vai ser formalmente professado.

Sim, mas eu conheço sacerdotes diocesanos muito santos que, se calhar, vivem isso muito melhor do que eu. Formalmente, já tenho os votos de pobreza, castidade e obediência feitos num estilo de vida secular. Não fiz votos religiosos porque não sou religioso, sou diocesano. Mas São Francisco, ao criar este estilo de vida secular, estava a pensar tanto em leigos e famílias que quisessem viver a espiritualidade deste estilo de vida simples, como nos padres seculares. Não se trata de um voto, mas ao mesmo tempo esta promessa que faço é muito parecida a um voto: proponho-me, diante da Igreja, da minha fraternidade e de todos, a viver isto da forma mais perfeita possível.

E, nesse contexto, sentes-te vocacionado para alguma área especial? Qual será a tua prioridade pastoral?

Vou responder-te de dois modos. Em primeiro lugar, os meus gostos pessoais que são a música e evangelização pela catequese, mais concretamente a catequese de adultos. Agora em termos de prioridade é, sem dúvida, a Pastoral Vocacional, para dizer que estou muito sensível a essa realidade e tentarei empenhar-me da melhor forma possível… É uma forma de retribuir tudo aquilo que recebi do Seminário, ao qual estou muito agradecido. É um dever meu como presbítero contribuir para o fomentar das vocações de especial consagração, sejam elas masculinas ou femininas. Agora, se puder desenvolver esta área da Pastoral Vocacional através das outras duas pelas quais tenho especial gosto, ótimo.

Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Que análise e avaliação fazes do teu percurso vocacional?

Foi um caminho muito, muito bonito. Vivi o retiro há uma semana atrás e tive oportunidade de repassar a história toda. É, sem dúvida, uma história bonita. Foi um caminho duro com muitas coisas difíceis. Não é só a parte intelectual. Tive de aprender a lidar, a conviver, a melhorar e a ultrapassar coisas da minha própria personalidade. Olhando para trás, para as coisas boas e coisas difíceis, obviamente que sobressaem as boas. São as coisas belas do meu passado que eu agora recordo. Os obstáculos estão aí para serem ultrapassados. Eu sempre lidei muito bem com os obstáculos e até brincava com Deus por causa disso. É engraçado que, desde o início da minha caminhada, a cor do martírio têm-me acompanhado. Entrei [no Seminário] no dia da Exaltação da Santa Cruz, fui instituído leitor, acólito e ordenado diácono sempre em dias litúrgicos de cor vermelha e agora serei ordenado presbítero no dia dos mártires Pedro e Paulo. É como se me dissessem: «olha, se queres mesmo arriscar por este caminho, se estás disposto a sofrer, a ultrapassar muitas coisas sempre para criar uma estabilidade com o Senhor, então avança». E é essa a retrospetiva que eu faço: um caminho difícil, duro, mas que não deixou de ser bastante belo.

E a tua família esteve presente ao longo desse caminho a apoiar-te?

De variadas formas. Ao início, claro que não.

“Para vir para o Seminário, (…) fiz as malas e saí de casa

Ficaram em choque?

Sim. E não queriam… Para vir para o Seminário, a opção que tive de tomar na altura foi a de esperar que os meus pais estivessem os dois a trabalhar, fiz as malas e saí de casa porque senão não teria conseguido. A minha mãe não queria, mas sabia que era naquele dia que eu tinha agendado a minha entrada no Seminário. Falei com o meu irmão que tinha um amigo que já conduzia, pedi para ele me ir buscar a casa, fiz as malas e vim-me embora.

E os teus pais aceitaram isso de ânimo leve?

A minha mãe aceitou um bocadinho menos. O meu pai, que já faleceu, disse-me com as lágrimas nos olhos: «Se é isso que tu queres, o pai aceita». Custou-lhe e, um tempo antes de morrer, voltou a dizer-me isso, mas estava feliz por mim. A minha mãe é que teve uma transformação muito grande porque passou da fase de não concordar… Eu não sei se era bem o não concordar que eu fosse padre. Penso que era não concordar que saísse de casa com 16 anos. O que lhe custou mais foi eu ter saído de casa e ao meu pai também, mas depois houve muita coisa que contribuiu para a minha mãe ir aceitando: a participação nos encontros das famílias, em que ela via outras famílias a acompanhar os seus filhos, o ver-me bem, feliz, a progredir, o ver-me o mesmo Nelson. E hoje está toda feliz pelo momento que se aproxima.

“«Preparados nunca estamos, convém é que estejamos prontos e disponíveis». E isso, eu estou.

Pediste agora para seres ordenado sacerdote. Entendes, por isso, que este é o momento certo para que isso aconteça?

Isso é uma pergunta difícil… Se é o momento? Sabemos perfeitamente que a decisão de pedir a ordenação nunca pode vir antes de um determinado tempo, particularmente, enquanto estamos a estudar…

…há que respeitar o prazo de seis meses depois da ordenação diaconal.

Eu já respeitei [risos]. Aliás, nunca respeitei os prazos, pois sempre dei margens maiores. Terminei os estudos, a diocese fez força (e ainda bem) para que eu terminasse a tese, foi-me pedida a experiência [estágio] em Loulé. Fiz essa experiência (que continuo a fazer graças a Deus), fiquei muito feliz quando soube que poderia lá continuar e, obviamente, a minha vocação não era a de seminarista. Eu sabia que aquilo tinha que acabar, mais tarde ou mais cedo. A grande questão é se estamos preparados ou não, se estamos prontos ou não e se estamos disponíveis ou não. E consolou-me muito as palavras do meu pregador de retiro: «Preparados nunca estamos, convém é que estejamos prontos e disponíveis». E isso, eu estou. Estou disponível para a diocese, para aquilo que o senhor bispo quiser, estou pronto para ser ordenado. A preparação é algo que me vai acompanhar a vida toda. Se estivesse à espera de ser uma pessoa perfeita para ser ordenada, ainda não teria sido agora a altura de fazer o pedido. Fiz porque senti, realmente, que estava pronto para assumir esta responsabilidade que agora a Igreja me pede. Me pede porque estou disponível, claro.

“A crise não é só na Igreja. A crise, sabemos que é geral. A falta de compromisso por parte da juventude está em todo o lado.

Vivemos uma época difícil em termos vocacionais, caraterizada por uma diminuição grande do número de vocações, por uma sociedade que oferece grande resistência a tudo o que é espiritual. Os sacerdotes hoje, em virtude dessa diminuição das vocações também vivem muito mais sobrecarregados do que vivam há anos. Achas que é hoje mais difícil ser padre?

Não. É mais fácil. Tenho a certeza. É mais fácil porque a falta de sacerdotes empenha muito mais os leigos. Eu vejo-me totalmente apoiado em tudo o que faço. Embora tenha uma agenda ligeiramente preenchida, sinto-me apoiado em tudo o que faço e sei que posso recorrer a esta pessoa e àquela. Penso que faço muito pouca coisa sozinho. Talvez o que faça sozinho é preparar homilias porque, de resto, conto com um grande apoio e sei que posso descansar em muitas pessoas. As coisas aparecem feitas e, se calhar, melhor feitas do que se tivesse sido só eu a fazê-las. Portanto, hoje está a ser mais fácil ser Igreja. Pode é estar a ser mais difícil gerir a Igreja em termos de horários de culto e tudo o mais porque somos menos. É a hora dos leigos. É a hora da Igreja, melhor dito. É a hora de cada um assumir e descobrir totalmente a sua vocação. [É preciso que] nem os leigos queiram ser ministros, padres, nem os sacerdotes se secularizem de tal forma, ao ponto de perderem a sua identidade e a sua vocação. Com cada um, assumindo a sua vocação, especifica na Igreja, as coisas andam.

Mas não deixa de haver o tal problema de que falavas. Precisamos de vocações, claro que sim. Daí que esteja sensível a esta realidade como falei há pouco. Penso que o grande problema da sociedade de hoje não será tanto a falta de coragem dos jovens de se comprometerem no sacerdócio. A crise não é só na Igreja. A crise, sabemos que é geral. A falta de compromisso por parte da juventude está em todo o lado. Cada vez menos há este caminho traçado dentro de cada um no sentido de saber o que quer para a vida, de se comprometer. Isto vê-se também nas relações afetivas, nos trabalhos, nas profissões. A crise é geral e, portanto, se há dificuldade a nível geral em se comprometer, também há aqui. E logo aqui que o compromisso implica uma série de coisas. A Igreja apenas está a sentir aquilo que é sentido em toda a sociedade.

Portanto, e voltando um pouco atrás, pensas exercer o teu ministério de forma muito apoiada num grupo de pessoas que colabore contigo.

Claro. E se não o tiver, arranjo. É impensável um padre aventurar-se sozinho na pastoral.

Portanto, vais ter sempre disponibilidade para ouvir, para acompanhar espiritualmente as pessoas que necessitem de falar contigo?

Disponibilidade interior?

Interior e exterior, de tempo, porque hoje as pessoas queixam-se muito de que é difícil encontrar um sacerdote disponível.

Isso é uma pergunta em que poderei prejudicar-me pelo que vou responder. Na verdade, a única garantia que posso dar é que, a nível interior, tenho essa disponibilidade. Não te posso garantir que no futuro tenha esse tempo, porque isso não dependerá apenas de mim. Mas estar disponível será um esforço meu.

“Não me posso esquecer da fonte porque se me esquecer deixo de ser ministro de Deus.

Como pensas ser imagem real, viva e transparente de Cristo?

A pergunta é difícil mas também a resposta, se calhar, é o mais óbvia possível. Há uma série de coisas a que vou responder que sim no dia da ordenação. Basta não me esquecer disso, nem das promessas que já fiz no dia da ordenação diaconal. Há um ritmo de oração que devo continuar a ter sempre. Não me posso esquecer da fonte porque se me esquecer deixo de ser ministro de Deus. Esta disponibilidade de que falavas, de estar sempre pronto para atender às necessidades do povo de Deus, claro que sim. Se tivesse que escolher agora um lema de última hora, seria ‘ser ministro da alegria’. O ministro da alegria sabe descobrir que a verdadeira alegria cristã é aquela que se consegue viver mesmo nos momentos de tristeza e de choro. Esta alegria é que nos dá tranquilidade e esperança de que havemos novamente de conseguir a estabilidade. Vivendo esta alegria no dia-a-dia penso que vou conseguir ser esse rosto de Cristo de que falavas. Eu sei que a minha vocação específica como presbítero é configurar-me com Cristo como cabeça e pastor da Igreja, mas obviamente que continuo chamado a ser irmão, próximo, amigo, um amigo exemplar que dá exemplo do que é ser um cristão orante, do que é saber perdoar, saber amar, saber ouvir. Portanto, penso que será esse o caminho.

“O grande risco hoje será o de o sacerdote se corromper.

Há mais riscos que hoje se colocam ao ministério sacerdotal? Qual é o principal risco?

Se há mais riscos hoje, não sei. Não sei qual era o sentir dos sacerdotes de há uns anos atrás. O grande risco hoje será o de o sacerdote se corromper. O sacerdote está no mundo hoje mais do que nunca. E, portanto, o grande perigo é o de se deixar ir na corrente, o querer acreditar que é possível ser-se padre sem rezar, sem os outros padres, sem a comunhão com bispo, acumulando coisas (materiais mesmo) na sua vida. O sacerdote está com toda a gente e, porque toda a gente faz, pode cair no perigo de pensar que é normal e deixar-se conduzir pela moda.

Estás a colaborar com as paróquias de Loulé já há algum tempo. No futuro para onde é que irás?

Não sei. Sei que é costume o senhor bispo fazer nomeações em julho. Sei que, possivelmente, até lá falará comigo, mas também sei que, para além de ir prometer obediência ao senhor bispo para toda a vida, o certo é que vou prometê-la no dia 28 e nunca me passaria pela cabeça dizer-lhe que não logo à primeira coisa que me peça. Portanto, estou disponível e sou-te sincero ao dizer que não sei para onde vou. Estou disponível tanto para continuar, como para ir para outro sítio.

Identificas-te mais com uma realidade serrana, do barrocal ou mais urbana, do litoral?

A experiência pastoral que tenho tido até hoje é a do barrocal, seja esta de Loulé como a do sítio onde nasci. Se queres saber onde é que me sinto mais à vontade, é precisamente aí. Gosto do meio onde estou inserido. Tenho um particular apreço por estes sítios que têm as suas tradições, os seus costumes e uma mentalidade que tem as suas vantagens e desvantagens. São ambientes pelos quais tenho muito gosto, até porque tenho interesse em descobrir, aprofundar e cultivar esses mesmos costumes.

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