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Eutanásia é “um ato que tem por finalidade acabar com a vida e não com o sofrimento”

O padre Rui Tereso (E), da Paulus Editora, o médico Luís Paulino Pereira (C) e o padre Mário de Sousa (D), pároco da matriz de Portimão Foto © Samuel Mendonça
O padre Rui Tereso (E), da Paulus Editora, o médico Luís Paulino Pereira (C) e o padre Mário de Sousa (D), pároco da matriz de Portimão – Foto © Samuel Mendonça

Luís Paulino Pereira, médico de medicina familiar no Centro de Saúde da Ajuda, em Lisboa, veio ao Algarve evidenciar que a eutanásia é “um ato que tem por finalidade acabar com a vida e não com o sofrimento”.

“Que ninguém se iluda. Eutanásia é acabar com a vida e é pôr na consciência dos médicos a responsabilidade da decisão dos doentes”, afirmou no passado dia 1 de outubro na conferência que proferiu no Centro Paroquial de Portimão, promovida pela paróquia matriz em parceria com a Paulus Editora .

Aquele clínico geral, que escreveu o prefácio da edição portuguesa do livro “Contra a eutanásia” do médico francês agnóstico já falecido, Lucien Israël, deixou claro que “não há eutanásias sem médicos”. “Um doente diz que quer morrer mas precisa de um médico para o matar”, lamentou, considerando que “uma coisa é a pessoa querer morrer, outra coisa é pedir ao médico que a mate”.

Foto © Samuel Mendonça
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Neste sentido advertiu que “o médico deixa de ser um aliado do doente para passar a ser um carrasco da sua auto-condenação”, lembrando que “não há médicos ao serviço da morte” e considerando que se algum dia a eutanásia for posta em prática em Portugal, a imagem da medicina no país “ficará irremediavelmente afetada”.

Considerando que o problema da eutanásia tem a ver com a falta de valores, o conferencista lembrou que “um médico não é um profissional qualquer que não tem valores”. “Cada vez temos mais licenciados em medicina e menos médicos”, criticou, evidenciando que “um médico é um profissional que está ao serviço da vida”. “A nossa classe, infelizmente, tem vindo a perder o prestígio. Os médicos têm de ter vocação para exercer a medicina e, acima de tudo, estar ao serviço da vida. E é por muitos não pensarem assim que abrimos a televisão e encontramos pessoas com responsabilidades no nosso país que vêm defender coisas que um médico em circunstância alguma pode defender”, acrescentou.

Foto © Samuel Mendonça
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Aquele profissional de saúde disse ter quase 2.000 utentes inscritos na sua lista do centro de saúde, incluindo “muitas pessoas acamadas, idosas e com problemas terríveis”. “Curiosamente não houve uma única pessoa até hoje que me tocasse no assunto, nem tampouco que me viesse perguntar o que era. Isto vale o que vale, mas quer dizer alguma coisa”, testemunhou.

“Será que este assunto é mesmo importante para as pessoas, de maneira a imporem este tema à sociedade? Ou é a sociedade que o impõe às pessoas? Não será a sociedade, carregada por esta falta de valores, que impõe às pessoas todos estes movimentos?”, questionou, lembrando outros temas como o do aborto ou a adoção de crianças por homossexuais.

“Não seria mais lógico e importante a sociedade preocupar-se em tentar saber os motivos que levam as pessoas a dizer que querem morrer para ir ao encontro dos seus verdadeiros problemas? Não seria mais importante fazer-se uma análise para ir ao encontro das necessidades e dos problemas das pessoas em vez de estar a tentar passar a mensagem de que a única coisa que há a fazer é a morte?”, prosseguiu, considerando que “estes movimentos não aparecem por acaso”. “É preciso haver um terreno fértil para que estes ventos de mudança possam penetrar”, alertou, convidando a ler o livro, cujo prefácio assina e que considerou “um hino à vida”, para “ajudar perceber o que é que está por detrás disto tudo e quais são os objetivos”.

Neste sentido desafiou a sociedade a “abordar o problema da família, indo ao encontro do sofrimento psíquico das pessoas, e a falar nos cuidados paliativos e na investigação da ciência”. “Se a sociedade não olhar para estes aspetos, estamos a criar todas as possibilidades a que surjam estas tempestades que, de vez em quando, temos de suportar”, advertiu, considerando que, na maioria dos casos, as reportagens sobre a eutanásia são feitas “com uma determinada orientação” para levar as pessoas a pensar que o melhor é aceitá-la.

Foto © Samuel Mendonça
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Citando o escritor e filósofo francês François René de Chateaubriand, constatou que “outrora a velhice era uma dignidade” e que “hoje é um peso”. “E o pior é que as pessoas se sentem mesmo um peso, um fado pesado para a família e para os amigos. E essa sensação, esse complexo de inutilidade, pode levar à angústia e desespero e a pessoa em desespero fica sensível a tudo aquilo que lhe possam meter na cabeça”, lamentou, acrescentando que “no Oriente não é assim”. “O velho com a sua experiência e sabedoria é uma mais-valia, é alguém à volta de quem toda a sociedade se revê”, acrescentou, aludindo à necessidade de a sociedade se “mobilizar em torno do problema da família”.

Aquele médico católico fundamentou ainda a rejeição da eutanásia em dois aspetos. “As verdadeiras maravilhas da medicina até aos nossos dias em nome da vida e tudo aquilo que é preciso fazer para a preservar. Destes dois aspetos nascem as razões pelas quais não podemos, de maneira nenhuma, aceitar a eutanásia”, frisou.

Neste sentido lembrou os “avanços da medicina” e da “biologia molecular” e as suas consequências no incremento do tempo e da qualidade de vida. “Hoje a medicina tem uma série de respostas que antigamente não tinha, de modo a que o prognóstico do cancro hoje anda à volta de 80% em alguns casos”, destacou, lembrando que a preservação da vida tem de continuar com a investigação e o investimento em áreas como os cuidados paliativos ou na preservação das células estaminais.

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