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O presidente do Banco Português de Investimento (BPI), que falava numa palestra no Seminário de Faro, promovida pelo núcleo do Algarve da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, dedicada ao tema “Portugal: Realidade e Esperança”, considerou haver já “indicadores positivos” ao nível do interesse externo no país.

Fernando Ulrich justificou que, provavelmente, no próximo ano, Portugal terá “equilíbrios na bolsa de pagamentos” e que o país está a “evoluir de forma significa no défice do orçamento” e lembrou as “muitas reformas estruturais” já feitas. “O sistema financeiro português, retirando os casos de polícia que são conhecidos e que infelizmente aconteceram, tem tido um comportamento bastante resistente a tudo isto”, acrescentou o banqueiro, lembrando que “o nível das taxas de juro da dívida pública, quer dos bilhetes quer das obrigações do tesouro, está a baixar”.

A somar a estes, Ulrich apontou ainda como bons sinais a colocação de obrigações de empresas para investimento como a EDP, a ZON ou a Brisa, no valor de cerca de 1200 milhões de euros. “Isto era impensável em novembro”, enfatizou.

O conferencista considera assim que Portugal está a “caminhar rapidamente” para ser um país “mais rigoroso, sensato e muito mais consciente dos riscos” e que “não há outro caminho”. Ulrich defendeu ainda que o Estado tenderá a “ser mais pequeno”, “mais eficiente, menos interventivo” e a ter um “papel mais inteligente como regulador, fiscalizador e supervisor da banca”. “Não será investidor, tomará muito menos riscos por conta de agentes económicos privados, vai ter de ser um Estado muito mais inteligente e muito mais responsável perante os contribuintes o que de facto não aconteceu nos últimos 20/30 anos”, complementou, considerando que o Estado “se deixou degradar ao nível da responsabilização perante os contribuintes”. “O Estado vai ter de concentrar as suas capacidades de intervenção, cada vez mais –, e se calhar um dia exclusivamente –, na protecção da defesa dos mais necessitados”, acrescentou, defendendo que, “nos últimos anos, o Estado foi muito para além disso”.

O presidente do BPI considerou ainda que o modelo económico que o país seguiu nos últimos 12 anos estava “profundamente errado” e “não alocava os recursos da melhor forma”. “O sistema de incentivos na sociedade portuguesa estava profundamente errado, está a ser corrigido e leva tempo”, disse.

Fernando Ulrich defendeu ainda que a “parte pior” da globalização já passou e o atual contexto como uma “fonte de oportunidades para Portugal”. “Outro elemento de esperança e confiança é ver o comportamento do setor exportador que se está a portar muito bem. Hoje ainda temos uma grande fatia da economia que vive do mercado interno, mas isso está a mudar”, afirmou, desejando a capacidade de atração de mais investimento estrangeiro de “empresas que nos ajudam a dar saltos e a avançar mais rápido do que apenas pelo crescimento orgânico das nossas”.

O banqueiro, que defendeu a continuidade na “aposta na educação e na inovação”, manifestou ainda a necessidade de “estabilidade política”, concretizada através de um “apoio político razoavelmente sólido às grandes opções económicas”, de “estabilidade das regras e contratos”, mostrou-se favorável à redução da Taxa Social Única, “muito alta quando comparada com outros países”, e disse ser fundamental “existir confiança na continuidade e na permanência no Euro”. A este propósito citou Francisco Louçã, através do seu recente livro intitulado “A Dividadura” em que “explica a tragédia que seria para a população portuguesa, particularmente para os mais vulneráveis, a saída do Euro”. “Não li nenhuma explicação tão bem feita e tão pedagógica sobre o que significaria a saída do Euro como este texto”, afirmou.

Ulrich disse ainda que os líderes empresariais cristãos devem “ser competentes”, “promover o trabalho em equipa” e “explicar os problemas aos seus colaboradores porque quem percebe porque é que vai numa certa direção, reage muito melhor”. “Se há população que é compreensiva, desde que lhe expliquem qual o rumo a seguir, é a portuguesa”, justificou, admitindo aos jornalistas, que possam ainda haver “setores de atividade e segmentos da população” que ainda tenham “margem de manobra” para mais medidas de austeridade.

Considerando que “os níveis de desemprego que estamos a alcançar são de grande preocupação” e que a “taxa de desemprego vai continuar a crescer e com algum significado”, o banqueiro lamentou que a importância e papel das empresas como “integradores sociais” não sejam ainda suficientemente valorizados.

Aos jornalistas, Ulrich rejeitou ainda o apelo ao consumo como estratégia para sair de crise. “Não penso que, nesta fase, a forma mais saudável de fazer a economia crescer seja aumentar o consumo”, disse.

Samuel Mendonça
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