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Formação sobre família lembrou que a Igreja não vê a sexualidade apenas para a procriação

Foto © Samuel Mendonça

A segunda parte da ação de formação que a Diocese do Algarve levou a cabo para a constituição de agentes da pastoral familiar nas paróquias algarvias evidenciou que a visão cristã da sexualidade parte de um pressuposto diferente da atual visão social comum.

“Nós vemos a sexualidade integrada numa relação a dois, estável, fiel e num projeto de fecundidade”, destacou o casal Catarina e Nuno Fortes, da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa, que orientou a formação, que teve lugar nos anexos da igreja de São Pedro do Mar, em Quarteira.

Foto © Samuel Mendonça

Catarina Fortes valorizou a proposta cristã de olhar para a sexualidade numa relação onde há “duas pessoas que estão comprometidas e têm um projeto de vida”. “Não podemos ignorar que os jovens hoje aos 12, 13, 14 anos estão a iniciar a sua vida sexual. Não podemos ignorar que há uma desordenação de toda a sociedade no que toca à vida sexual, sejam jovens ou adultos, mas temos o dever de propor um caminho feliz de entrega numa doação plena, fecunda e duradoura de um para com o outro, no qual nos realizamos. É esta proposta que temos a missão apresentar, de propor e de trabalhar sobre ela”, acrescentou Nuno Fortes.

Aquele formador considerou mesmo que esta proposta deve ser trabalhada com médicos e educadores para que tenham presente esta perspetiva.

No segundo dia da formação, promovida no passado dia 11 de março pelo Sector da Pastoral Familiar da Diocese do Algarve (SDPF), o casal formador começou por lembrar as raízes aristotélicas (século V a.C.) da moral cristã no período pré Concílio Vaticano II para evidenciar que até Santo Agostinho (século V) o pensamento cristão sobre a sexualidade e a conjugalidade fixou-se durante praticamente 20 séculos em que a relação sexual era vista como “um mal necessário para alcançar um bem maior: a procriação”. Passando por outros autores latinos como São Tomás de Aquino, os formadores explicaram que começa então a falar-se do benefício também da relação sexual para a comunhão entre os esposos.

“Tivemos muitos pensadores ao longo da história, muitos santos, a afirmarem a sexualidade como uma realidade querida por Deus”, afirmou Nuno Fortes, considerando que o “período de charneira” é o Concílio Vaticano II no século XX. “Também no âmbito da teologia moral, introduz uma novidade de uma beleza extraordinária: a sexualidade ordena-se para a criação de uma comunhão de vida e de amor”, sustentou, explicando que aquele acontecimento “criou os fundamentos para uma nova teologia moral”. “A partir do Concílio Vaticano II, deixamos de falar numa orientação da relação conjugal para dois fins (em que o primeiro é a procriação e só depois a aproximação entre os esposos), para olhar para a relação sexual como um bem que serve o propósito de criar comunhão de vida. Temos um novo paradigma que assenta na integralidade da pessoa humana”, explicou, acrescentando também a relação direta que é apresentada entre o matrimónio e sexualidade e a entrega de Cristo pela Igreja.

Nuno Fortes prosseguiu reforçando que o papa Paulo VI, com a encíclica Humanae Vitae (1968) vem selar o entendimento destas duas finalidades “inseparáveis do ato conjugal” – a procriativa e a unitiva – sem que uma esteja em “subserviência” da outra. “Devemos ao papa Paulo VI a introdução de um novo conceito que é a paternidade responsável”, acrescentou, salvaguardando a perspetiva de que “todo o ato sexual deve permanecer aberto à transmissão de vida”.

“Diz-nos o papa Paulo VI que devemos observar e compreender o corpo do homem e da mulher, os ciclos presentes na vida da mulher, ciclos estes introduzidos por Deus que tudo criou, queridos também para nos assistir na compreensão sobre a reprodução. Ele diz também: vamos aproveitar estes ciclos para compreender quais é que são as circunstâncias em que um ato sexual – todos eles abertos à vida – tem probabilidade de originar uma nova vida ou não tem e estude-se, conheça-se”, complementou, lembrando o desenvolvimento nesta altura de institutos católicos que se dedicam à compreensão dos ciclos menstruais e ao desenvolvimento de métodos naturais de planeamento familiar. “Temos aqui uma transformação grande. Em 30 anos tivemos uma transformação radical. Não podemos aceitar que os católicos continuem a achar que a Igreja olha para a relação sexual como um pecado, quando a Igreja diz que é uma realidade boa e querida por Deus”, evidenciou.

Aquele formador destacou ainda as catequeses do papa João Paulo II sobre a teologia do corpo, nas quais disse ter sido inaugurada uma “nova moral sexual” ao apresentar a sexualidade humana como ícone da trindade, e a exortação apostólica Familiaris Consortio (1981) (na qual se baseou aquela formação) e a encíclica Evangelium Vitae (1995).

Nuno Fortes referiu ainda o “contributo muito rico” sobre a bioética do papa Bento XVI, ainda enquanto cardeal Joseph Ratzinger, responsável pela congregação para a Doutrina da Fé, e sublinhou não haver até agora uma “novidade de conteúdo” na pastoral da família com o pontificado de Francisco. “Tudo o que o papa Francisco tem a afirmado é uma reafirmação. Temos é uma visão nova sobre a forma”, considerou.

O formador, que se referiu também aos métodos artificiais e naturais para controlo da natalidade, lembrou que relativamente aos primeiros todos os que são abortivos “violam o princípio da vida e, portanto, são de rejeitar”. Acerca dos segundos, como os monitores de fertilidade, disse pressuporem sempre um “aspeto fundamental: o respeito pelos ciclos”. “Implica sempre um diálogo, um conhecimento e uma partilha de vida. Não nos permite ter uma vida sexual despreocupada sobre a consequência de ter filhos ou não”, realçou.

Lembrando que hoje 10% dos casais portugueses (cerca de 500.000 pessoas) sofrem de infertilidade, abordou a procriação medicamente assistida para sublinhar que relativamente aos diversos métodos “há um consenso entre os teólogos morais sobre a rejeição das práticas heterólogas” que incluem a participação de um terceiro elemento não pertencente ao casal, assim como, no caso das homólogas, da procriação medicamente assistida quando um dos elementos do casal (o homem) já faleceu.

Para além disto, lembrou ainda que em contexto de fertilização in vitro e de manipulação genética também “tudo o que seja utilização dos embriões para investigação científica e para terapia dos seus irmãos é rejeitado”. “Nesta crise, com muita facilidade, se não houver diálogo e acompanhamento pode haver um afastamento do casal”, advertiu, dando exemplos de movimentos católicos que promovem trabalho nesta área.

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