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O orador, que lamentou a não integração dos escritores árabes de Silves na cultura algarvia, lembrou que a mesma é constituída por figuras incontornáveis do pensamento, da literatura, da poesia e das artes como D. Jerónimo Osório, João de Deus, Júlio Dantas, Álvaro de Campos (heterónimo algarvio de Fernando Pessoa), Teixeira Gomes, João Lúcio, Cândido Guerreiro, Bernardo de Passos, Emiliano da Costa, Guilherme Centazi, António Ramos Rosa, Lídia Jorge e Raul Brandão, aos quais se juntam ainda os membros do grupo futurista de que faziam parte Carlos Porfírio, João Rosado ou Mário Lyster Franco e do grupo da Poesia 61 composto por Gastão Cruz, Maria Teresa Horta, Casimiro de Brito, entre outros.

Nuno Júdice acrescentou que a literatura “dá um dos grandes contributos para definir a dimensão espiritual do Algarve”.

Por sua vez, o padre António Martins, lembrando que “a cultura é o espaço dramático em que lutamos para dizer quem somos”, sublinhou que a mesma se define sobretudo como um espaço ou caminho plural e subjetivo de “paixão comum” pelo humano. Concretamente sobre a identidade, o teólogo da Diocese do Algarve considerou ser uma “invenção pessoal e coletiva de um grupo” para “pacificação da dimensão interior” que gera simultaneamente “unificação e fratura”. “A fidelidade à verdade é a fidelidade à condição humana”, afirmou.

O orador classificou ainda a cultura como “hermenêutica do corpo onde interage a finitude da biologia, os condicionalismos do tempo, mas também a capacidade de nos inventarmos”. Lembrando que o “paradigma da interpretação da nossa identidade” implica as dimensões da “paternidade”, “filialidade” e “fraternidade”, o padre António Martins considerou sermos “filhos de uma identidade cultural e tradição familiar”, mas também “chamados a ser pais de uma vida projetada para o futuro”. “Precisamos de equilibrar o que recebemos com o que inventamos”, advertiu, considerando existirem “nichos de marginalidade e contracorrente” que “têm o seu lugar”.

António Rosa Mendes, docente, historiador e responsável, em 2005, por “Faro, Capital Nacional da Cultura”, começou por destacar Nuno Júdice também como figura marcante da cultura algarvia e propôs um novo binómio para reflexão no contexto cultural: liberdade e responsabilidade.

O orador considerou a “dignidade da pessoa humana” como a “evolução radical” que o Cristianismo trouxe à cultura, lembrando que esta é o que “carateriza o ser humano enquanto homem livre”. “O Cristianismo é também uma cultura porque um cristão tem de justificar os seus atos”, afirmou.

Rosa Mendes juntou ainda D. Francisco Gomes do Avelar ao rol de personalidades que contribuíram “decisivamente para a identidade algarvia”, considerando que “a diocese algarvia vertebrou o Algarve”. “Faro deve a sua capitalidade a ter recebido a sede da diocese”, justificou.

O orador, advertindo que o Algarve tem uma “identidade ameaçada” porque o seu nível cultural foi sempre “muito baixo”, lembrou que “só sabendo quem somos, poderemos construir o futuro”.

A mesma opinião manifestou Guilherme de Oliveira Martins no II painel do fórum. Não obstante um imprevisto de última hora que o impediu de estar presente, o presidente do Centro Nacional de Cultura não quis deixar participar e, através de uma mensagem gravada, insurgiu-se contra uma sociedade “amnésica” que “precisa saber lidar com a memória” para “saber de onde vem e para onde vai”. “Memória exige equilíbrio entre recordação, evitando o ressentimento”, referiu.

Em relação com memória, Oliveira Martins enumerou ainda os conceitos de “património” e “herança”. “Património material e imaterial” e herança como “algo que corresponde à tradição, transmissão”, complementou, lembrando que “uma geração transmite à outra o que de mais importante tem”.

O orador defendeu a necessidade de “cultivar uma identidade aberta” em “diálogo, relação, abertura, e respeito mútuo” e de “usar a cultura contra a crise”. “Só uma sociedade que assume a cultura como criação, pode encontrar os meios para superar a crise em que se encontra”, afirmou, apontando a “capacidade criadora” contra a “especulação do imediatismo”, considerando que ser preciso “contrapor o cuidar a largo prazo”. “A cultura criadora, a capacidade de inovar e de transformar, pondo as pessoas no centro, é caminho para superarmos a crise”, complementou, apontando à “reciprocidade” porque “a cultura empobrece-se se não recebe”. “O outro é a outra metade de mim mesmo. Somos responsáveis uns perante os outros”, finalizou.

Pedro Ferré, docente de literatura, quis “falar desta inutilidade que é a cultura”, para considerar que a mesma “não passa de algo que, por pudor, não se omite”, pese embora seja “tão necessária quanto outras coisas consideradas úteis”.

O orador retomou a “tensão entre presente e tradição”, denunciada por Bento XVI em Portugal e já antes apontada pelo padre Carlos de Aquino, considerando que a mesma se exprime na “crise da verdade” e concordou com Oliveira Martins quando aludiu à necessidade de recentrar o homem na sociedade. “Esquecemo-nos do grande passo dado pelo Humanismo e o homem foi posto à margem”, lamentou, sublinhando a urgência de “conhecermo-nos a nós próprios, conhecendo o homem”.

Por fim, pediu à Igreja que recupere a sua “sólida tradição de cultura”. “A Igreja também se está a esquecer do papel grandioso que ainda tem na tradição da cultura”, disse.

Elisabete Rodrigues, jornalista, reforçou a ideia de que o Algarve é “feito de interculturalidade”, criada pelos não algarvios que cá vivem e pelos turistas que nos visitam, sejam portugueses ou estrangeiros. “Temos uma identidade, que não é estática, composta de muitas facetas e isso faz com que sejamos algo que se distingue no resto do país”, constatou, lembrando que há “caraterísticas muito próprias” que “nos definem e que são muito importantes”.

Samuel Mendonça
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