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Francisco Lameira lembrou que os retábulos começaram a chegar ao fim no tempo de D. Francisco Gomes do Avelar

Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

“Falar de retábulos no tempo de D. Francisco Gomes do Avelar e de [Francesco] Fabri é falar do fim de um ciclo. A partir daí é mesmo a decadência. Pontualmente há um exemplar ou outro”, frisou Francisco Lameira.

Aquele docente da Universidade do Algarve e historiador proferiu uma conferência no passado dia 29 de julho no Seminário de São José de Faro sobre “A encomenda de retábulos pelo bispo do Algarve, D. Francisco Gomes do Avelar”, que esteve à frente da diocese algarvia de 1789 a 1816.

Na iniciativa, que decorreu no âmbito do programa, promovido pela Diocese do Algarve, que está a assinalar o segundo centenário da morte do bispo, natural do lugar de Matto, Termo de Alverca, atual freguesia da Calhandriz (concelho de Vila Franca de Xira), aquele especialista em retábulos lembrou que o tempo daqueles equipamentos estava a chegar ao fim e que “nos meados do século XVIII rompe-se com a tradição da talha dourada”. “O retábulo começava a perder parte da sua função fundamental, apesar de ser um equipamento litúrgico. A mudança que tinha ocorrido em 1789 na França, isto é o aparecimento do Liberalismo, vai por fim a este período longo em que os retábulos foram muitíssimo importantes”, explicou.

conferencia_lameira_d_francisco_gomes_avelarLembrando que a tradição dos retábulos começa a caminhar para a “decadência” no período tardo-barroco, Lameira destacou o desagrado estético do bispo ao chegar ao Algarve. “D. Francisco Gomes do Avelar quando chega cá não gosta nada do que vê, nem dos mestres pedreiros que nós temos”, afirmou, acrescentando que a partir de Fabri, o arquiteto de formação neoclássica que manda vir de Roma, surgem os revivalismos em que o primeiro é o neoclassicismo. “Fabri dá uma machadada fatal no mundo dos retábulos”, considerou.

“No Algarve, por via de D. Francisco Gomes e de Fabri, acabámos por ter um conjunto de retábulos muitíssimos interessantes sob esta perspetiva de romper com a tradição em que o tardo-barroco (com algumas reminiscências rococós) se ia mantendo”, acrescentou, frisando que Porto e Faro são únicos dois pontos no país onde existem dois pequenos núcleos do neoclassicismo, ambos influenciados por artistas italianos ou de formação italiana. “Não temos muito neoclassicismo no país. Os artistas nacionais não tinham conhecimento desta realidade que estava aqui a acontecer”, contou.

O conferencista explicou então que surge assim no Algarve um conjunto de retábulos com uma tipologia e um modelo compositivo que não aparece no resto do país: duas colunas grandes, normalmente jónicas (que podem também ser coríntias), pedestais, entablamento e um frontão triangular. O orador lembrou que aparece a tendência para que a escultura seja substituída pela pintura e, por vezes, a pintura em madeira a fingir a pedraria num estilo marcado pela “sobriedade, contenção e decoro”.

Lameira sublinhou que depois do neoclassicismo continuam a perpetuar-se os revivalismos com “modelos compositivos e tipologias setecentistas, quando não quinhentistas, neo-góticos ou neo-barrocos”. “O século XIX é um século em que tudo é possível”, advertiu.

Foto © Samuel Mendonça
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No final da conferência, o cónego José Pedro Martins, deão do Cabido Catedralício, anunciou serão realizadas algumas visitas guiadas no âmbito das palestras que têm decorrido no contexto do programa do segundo centenário da morte de D. Francisco Gomes do Avelar.

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