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O frei José Marques Henriques, sacerdote de 75 anos da comunidade algarvia da Ordem dos Frades Menores (franciscanos), celebrou ontem 50 de sacerdócio, 44 dos quais vividos na Guiné e os restantes no Algarve.

Natural da pequena aldeia de Cacinheira, na então freguesia de Freixianda (concelho de Ourém), hoje freguesia de Casal dos Bernardos, onde nasceu a 3 de agosto de 1944, José Henriques foi batizado no dia 10 do mesmo mês na igreja paroquial de Freixianda. Irmão de mais sete rapazes e duas raparigas, seis dos quais ainda vivos, chegou a estar interessado na vida militar por influência de um dos seus irmãos que já tinha seguido aquele caminho.

No entanto, foi o incentivo de um outro irmão que o levou aos 13 anos a ir fazer-lhe companhia no Seminário franciscano de Montariol, onde conheceu a Ordem a que viria a pertencer. Esteve naquele Seminário durante cinco anos e depois seguiu para Torres Vedras para fazer um ano de noviciado. Em 1963 foi para Leiria, onde permaneceu até 1966, e depois para o Seminário da Luz em Lisboa.

Quando o provincial lhe propôs ir reforçar a missão na Guiné, após a ordenação, aceitou de imediato por entender estar de acordo com aquilo a que era chamado a fazer e a ser como sacerdote.

Frei José Henriques em 1970

Ordenado em Lisboa no dia 17 de maio de 1970, com mais quatro padres, pelo cardeal D. Manuel Cerejeira, seguiu para terra de missão. “A minha ideia é que seria melhor se me desse totalmente aos outros. E totalmente seria como missionário”, explicou o frei José Henriques ao Folha do Domingo, garantindo que os “primeiros anos da independência” “foram mais difíceis ainda” do que os já “difíceis” anos da guerra. “Não havia nada e era difícil até encontrar um fósforo. Durante muito tempo não tinha nada para comer de manhã. E ao almoço era só arroz. Se havia batatas, era uma ou duas para três ou quatro pessoas”, relata.

Antes, já tinha vivido a dura e traumatizante realidade de uma guerra colonial que ninguém compreendia. “Uma vez fomos atacados de noite e eu estava no internato com as crianças”, conta, lembrando os tiros nas portas “porque a 100 metros havia um quartel”. “Uma vez, os militares portugueses dispararam uns tiros para a nossa missão. Então o Superior, avisou o general Spínola de que estávamos a ser atacados pela nossa própria tropa e ele disse-lhes que nunca mais um tiro poderia cair naquela missão”, relata, explicando que os guerrilheiros do movimento de libertação da antiga colónia nunca atacaram a sede franciscana porque as crianças à sua guarda eram os seus próprios filhos. “O próprio Spínola é que os tinha posto lá”, conta, explicando tratar-se de crianças de povoações que tinham sido invadidas.

Já no tempo da independência chegou a presenciar a prisão de dois jovens que estavam a preparar a festa de Santo Antão. Só a missiva que enviou ao então primeiro-ministro Nino Vieira diz ter motivado a sua libertação. Na memória permanece-lhe ainda a ocorrência de um fuzilamento de cinco pessoas no campo de aviação da sua missão. “Levaram as crianças das escolas para assistir, dizendo que iam assistir a um comício”, recorda com mágoa.

À pergunta se nunca pensou regressar nessa altura a Portugal, dá uma resposta perentória. “Nem nessa, nem nunca. Vim em 2014 porque vi que as forças já não davam mais”, assegurou.

Os primeiros três anos na Guiné passou-os como coadjutor da paróquia da catedral de Bissau e o ciclo da sua vida missionária naquela antiga colónia portuguesa em África completou-se com o regresso àquela comunidade para ser pároco nos últimos dois anos, antes de regressar a Portugal. No total esteve 10 anos em Bissau, tendo nos restantes cinco passado por mais duas paróquias que ajudou a desmembrar noutras. “Algumas, só na catequese tinham 3000 pessoas”, lembra, fazendo contas aos quilómetros percorridos por “acessos dificílimos”. Ao longo daqueles anos foi fundador de muitas comunidades perdidas no mato.

Regressou a Portugal em 2013 e rumou ao Algarve por problemas de saúde e durante sete meses manteve-se por cá. Ainda voltou ao país africano, mas regressou à diocese algarvia definitivamente em 2014 para fazer parte da comunidade franciscana no Algarve e hoje é o guardião da Fraternidade Franciscana de Faro.

Sobre o balanço deste meio século de ministério sacerdotal em que diz ter procurado “ser fiel”, entende que “só Deus é que poderá fazê-lo”. Assegura, no entanto, terem sido “anos de muita felicidade, mas também de sofrimento e muitas dores”. De entre os momentos positivos destaca ter testemunhado a cura de uma criança guineense com paludismo cerebral por quem rezou e que entregou aos cuidados médicos.

A festa das bodas de ouro sacerdotais foi ontem de manhã assinalada com a celebração da eucaristia na igreja de São Francisco, em Faro, que contou com a participação do provincial, frei Domingos do Casal Martins, e do conselho da Fraternidade de Faro.

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