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O fundador e atual presidente da YDreams, uma empresa especializada em tecnologias de interação que tem vindo a distinguir-se internacionalmente nas áreas do desenvolvimento de software para multimédia, da realidade virtual e da computação móvel, falava no jantar-palestra que teve lugar no Hotel Faro, promovido pelo núcleo do Algarve da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores.

O empresário e professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa defendeu ser possível a criação de uma empresa nacional que valha, por exemplo, “seis vezes o que vale a EDP” e explicou aos empresários algarvios que o objetivo da YDreams é chegar ao nível da Dell, Facebook, Microsoft, Google, Apple, Tom Tom ou IBM, lembrando que, hoje, as empresas “atingem valorizações e faturações imensas muito rapidamente”.

António Câmara lembrou que “a propriedade intelectual é decisiva mesmo em áreas de aproveitamento de recursos” e que “a atividade económica do mundo se relaciona, cada vez mais, com a inovação medida pelo número de patentes”, lamentando a inexistência em Portugal de entidades especializadas na defesa e salvaguarda da propriedade intelectual. “Isto resolve-se recorrendo a entidades no exterior”, afirmou, considerando que outras das dificuldades nacionais são a “pouca experiência de desenvolvimento de produtos”, o “desenvolvimento do negócio à escala global” e a “gestão do tempo”.

O empresário considerou ainda que a comunicação, crescentemente baseada na Internet, é outra componente “importantíssima” que em Portugal é “incrivelmente amadora”. “Estamos longe dos circuitos da comunicação”, lamentou. Explicando que “verdadeiramente importante” são também as pessoas, adiantou que a YDreams conseguiu manter, desde 2001, o “hardcore” do seu pessoal.

Ainda no âmbito do recrutamento de efetivos, António Câmara lamentou haver uma “confusão enorme na educação portuguesa sobre o que é fundamental e acessório” e adiantou que, para uma empresa, o “verdadeiramente fundamental” são capacidades como a “paixão, energia, autoconfiança, capacidade de lidar com o stresse e a ambiguidade, a capacidade de legar e confiar e a capacidade de concretizar”.

No entanto, o empresário considera que Portugal tem “finalmente” uma “massa crítica de pessoas educadas ao mais alto nível”. Segundo António Câmara são “milhares de pessoas que estudaram, cá e fora com os melhores professores, que têm ideias que podem competir em qualquer parte do mundo”. “O que se passa é muitas dessas pessoas não nasceram para ser empreendedoras e não querem sê-lo e isso é grande diferença para os Estados Unidos”, sustentou, lembrando que o “drama português” sempre foi um “problema educacional que começa na elite”. “O acesso à informação era controlado por uma elite, enquanto em muitos outros países já havia a educação em massa”, constatou, considerando que, mesmo agora, “a nossa elite económica com poder financeiro estuda pouco”. “Temos uma nova elite intelectual mas que não tem poder financeiro e poucos têm capacidade empreendedora”, sustentou.

Por outro lado, lamentou que, em Portugal, as pessoas que criticam sejam “mais favorecidas” na opinião pública do que aquelas que “ousam ideias novas”, considerando existir uma “eliminação sistemática” dos “geradores da inovação” e da “nova interação”.

Segundo o empresário, o “problema português” passa ainda pela falta de estratégia, garantindo que uma empresa nacional mesmo sem ajuda financeira poderá sobreviver se copiar o modelo da Hewlett-Packard, a “primeira empresa tecnológica dos Estados Unidos que se desenvolveu numa época em que não havia apoio”.

António Câmara sublinha assim que “a opção é a aventura em vez da lamúria” e diz que, embora o país já tenha saído da “cepa torta”, o que falta hoje em Portugal são “sonhos de grandeza”. “A única área em Portugal onde há verdadeiros sonhos de grandeza é o futebol”, lamenta, considerando que “não há melhor altura para arriscar do que esta”. “Hoje, o Aeroporto da Portela, às 6h, está completamente cheio de empresários portugueses que vão apanhar voos lowcost para terem reuniões por toda a Europa e voltarem à noite. Esta crise, por este lado, é boa porque há dois anos chegávamos à Portela às 6h e não estava ninguém”, testemunhou, considerando que esta mudança trará “resultados positivos”.

Entre os projetos que tem em mãos, como a construção de um “parque temático sobre os descobrimentos portugueses”, a YDreams desenvolveu a criação de “ecrãs do futuro” em materiais tão diversos como papel, vidro, madeira, plástico ou cortiça em ligação com os “melhores cientistas portugueses” e com os “principais grupos industriais nacionais”.

Outra das áreas de aposta foi a robótica, uma das mais fortes em Portugal, segundo António Câmara. “Fizemos um projeto para o banco espanhol Santader em que os robôs recebem as pessoas e as levam aos locais da reunião e decidimos fazer agora robôs cujo cérebro é o nosso telemóvel”, adiantou o empresário, garantindo que estes serão fabricados em Portugal e custarão cerca de 10 euros.

Outro dos projetos desenvolvido recentemente pela empresa portuguesa, que trabalha para multinacionais como a Nokia, a Adidas ou a China Mobile (com 470 milhões de clientes), foi para a Disney. “Competimos contra toda a gente”, testemunhou António Câmara, lembrando que “a ética é fundamental” num mundo global de negócios que “é uma selva” e que está “torpedeado por empresas gigantescas”.

Samuel Mendonça

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