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Foto © Luís Forra/Lusa
Foto © Luís Forra/Lusa

Na ponta mais ocidental de Portugal e da Europa, cada camada dos rochedos em Sagres expõe mais de 300 milhões de anos da história da Terra mas os geólogos estão preocupados com a sua conservação.

“Além da espetacularidade das arribas no território português, esta parte aqui do Algarve conta uns capítulos da história da Terra, ou melhor, conta a história geológica desde há aproximadamente 300 a 310 milhões de anos até à atualidade, por capítulos pequeninos”, contou o geólogo Paulo Fernandes à Lusa.

O local onde esse registo é mais explícito é designado como “a discordância da Ponta do Telheiro”, um local isolado de arribas frente ao mar e que motiva a visita de geólogos de diferentes pontos do mundo.

“Há cerca de 200 milhões de anos, se olhássemos nesta direção víamos o Canadá”, afirmou o investigador, observando que o local conta “parte da História da Terra”, anterior e posterior à humanidade, sendo também prova física que quebrou conceitos pré estabelecidos ou leituras dogmáticas sobre a idade do planeta e a evolução do pensamento geológico.

“Espero que esta costa continue a ser erodida só pela natureza, pelo trabalho dela”, referiu Paulo Fernandes, reportando-se aos polémicos trabalhos camarários realizados na Praia do Telheiro, a cerca de 600 metros.

De acordo com o também investigador da Universidade do Algarve, a base das arribas é constituída por rochas marinhas depositadas no fundo do mar por ação de avalanches de sedimentos que contam a história anterior à separação do território em vários continentes que deu lugar ao oceano Atlântico.

Entre a deposição dessas rochas mais antigas e as que lá estão atualmente – chamadas de Grés de Silves – o território português (e a Península Ibérica) “foi apanhado numa colisão de grandes placas tectónicas e estas rochas que se depositaram começaram a ser comprimidas e enrugaram, formando dobras e dessas dobras formou-se uma grande cadeia montanhosa”, prosseguiu.

O local, ainda que relativamente isolado tem alguns caminhos de terra batida que são também os trilhos da Rota Vicentina, rota pedestre, podendo-se encontrar algumas pessoas a apreciar a paisagem.

Tanto o investigador da Universidade do Algarve como o autarca de Vila do Bispo defendem a divulgação do património existente e da beleza de Sagres com um cariz didático que permita que os espaços estejam disponíveis e sejam usufruídos sem que sejam destruídos.

A Câmara Municipal de Vila do Bispo faz, há vários anos, a reparação do caminho existente naquele local frequentado por turistas e surfistas, mas é alvo de preocupações.

“É uma ação que temos feito todos os anos, que é rotineira. A manutenção dos caminhos nem sequer requer parecer do Parque Natural”, explicou à Lusa o presidente do município, Adelino Soares, que garante que a autarquia conta com o património geológico para reforçar a promoção do concelho e de todo o seu património natural.

O professor Paulo Fernandes não esconde, no entanto, a sua preocupação relativamente à possibilidade de estas intervenções poderem acelerar o processo de erosão das arribas, em particular das que estão mais instáveis e ainda suscetíveis à atividade sísmica.

“A terraplanagem pode ter consequências na aceleração da erosão da própria arriba” ao retirar a camada de plantas locais que protegem o terreno da erosão e de infiltrações de chuvas. Isso e peso acrescido naquela zona, causado pelo parqueamento de viaturas na zona terraplana, podem levar a escorregamentos de partes da arriba.

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