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Grupos de deputados do PS e de elementos da comunidade judaica visitaram a exposição do “Pentateuco de Faro”

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A “Exposição para a Difusão do Conhecimento – Núcleo Histórico da Imprensa de Gutenberg e do Pentateuco de Faro”, que está patente desde o início deste mês no espaço da antiga capela do Paço Episcopal de Faro, tem sido visitada não só por particulares, mas também por grupos.

Nos últimos dias, a mostra foi visitada, primeiro, por membros do grupo parlamentar do PS e, depois, por uma comitiva da comunidade judaica em Portugal, liderada pelo embaixador de Israel, Raphael Gamzou, e pelo presidente da Comunidade Judaica de Lisboa, Gabriel Steinhardt.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Os deputados do PS, que estiveram até ontem em jornadas parlamentares no Algarve, visitaram a exposição na passada sexta-feira. Composto pelos deputados Alexandre Quintanilha, Ana Passos,
Fernando Jesus, Hortense Martins, Hugo Carvalho, Lúcia Araújo Silva, Luís Testa e Odete João, o grupo foi acolhido pelo vigário geral da Diocese do Algarve, o cónego Carlos César Chantre, pelo presidente do Círculo Teixeira Gomes, Paulo Neves, e pelo representante da editora ‘Sul, Sol e Sal’, Salvador Santos, as três principais entidades promotoras daquela iniciativa ligada à edição do “Pentateuco” (conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio), levada a cabo pelo judeu Samuel Gacon em 1487 e que marcou o início da imprensa em Portugal.

No acolhimento aos parlamentares, que visitaram também o túnel mouro da cidade, o cónego César Chantre criticou uma “cultura redutora e que subverte totalmente o princípio de Jesus Cristo” estranha que uma “casa da Igreja Católica” acolha uma exposição que tem por base o feito de um judeu. “O que está aqui a acontecer é um acontecimento histórico que eu gostaria que os senhores que mandam na Europa pudessem entender e, de uma vez por todas, acabar com estes complexos de religião que só levam ao fundamentalismo religioso”, afirmou, lembrando que “tudo o que é fundamentalista é contra Deus” e que “não há Cristianismo sem Judaísmo”.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Salvador Santos considerou que a impressão do primeiro livro em Portugal, feita em Faro, “é de absoluta importância porque é uma marca cultural de afirmação, de identidade”. “Celebramos aqui o nascimento da imprensa em Portugal e, sobretudo, a divulgação do conhecimento, da informação e o espírito de todos aqueles que lutaram sempre contra a censura, contra o analfabetismo, a inveja e tudo aquilo que não permite que Portugal se desenvolva e caminhe com futuro”, afirmou.

Já Paulo Neves – que fez o enquadramento histórico da invenção da imprensa por Gutenberg e da impressão do primeiro livro em território nacional, com o prelo e com os caracteres do inventor germânico –, evidenciou o significado simbólico da exposição. “A beleza deste projeto é que o Pentateuco – neste caso o fac-simile, porque o original está em Londres – voltou à sua casa”, afirmou, evocando o saque da biblioteca do bispo do Algarve D. Fernando Martins Mascarenhas (1594-1616) em 1596 pelo conde de Essex, Robert de Devereux. “O fundo inicial da London Library começou [1602] com 98 livros que o conde de Essex, na altura do reinado de Isabel I, levou para Londres”, sustentou, lembrando que entre essas publicações levadas do Paço Episcopal estava o Pentateuco impresso por Gacon.

Ontem de manhã, na visita da comitiva judaica com cerca de 25 elementos, o presidente do Círculo Teixeira Gomes disse que o Algarve não reivindica a restituição da obra. “Nós não pedimos a devolução do livro, nós temos é de ter acesso ao livro e vamos ter acesso ao livro”, afirmou, lembrando que o contacto já aconteceu para a realização da microfilmagem que permitiu a edição fac-similada da editora ‘Sul, Sol e Sal’, apresentada em junho de 2017.

Nos últimos dias, a exposição incluiu duas peças especiais, conforme explicou Paulo Neves. “Quando vem cá pessoas importantes, como é o vosso caso, nós fazemos aparecer um tesouro”, afirmou, referindo-se a um missal e a um livro da liturgia das horas, ambos com iluminuras e propriedade da Diocese do Algarve, que não foram também levados pelo corsário inglês porque não estavam na biblioteca do bispo, mas noutra zona do Paço Episcopal.

Paulo Neves lembrou ao embaixador de Israel em Portugal, ao presidente da Comunidade Judaica de Lisboa e aos restantes elementos da comitiva ter sido com Samuel Gacon, a partir de Faro, que, em Portugal, e se deu a “verdadeira difusão do conhecimento”. “Estava na vanguarda da difusão do conhecimento como a comunidade judaica estava no mundo”, referiu, acrescentando que a exposição, que tem sido visitada também por grupos de alunos, estará patente enquanto “motivar o interesse das pessoas”. “As 110 mil pessoas que entram nesta rua, que vêm ver a vila-a-dentro de Faro, têm, neste momento na entrada privilegiada da cidade, este espaço que podem visitar”, complementou.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O cónego César Chantre, que agradeceu a visita da comunidade judaica, lembrou que os judeus “são os pais do Cristianismo”. “Sendo o Judaísmo a raiz dos cristãos, como foi possível na história haver conflitos entre ambas as partes, entre filhos e pais?”, interrogou, acrescentando: “mas, graças a Deus, estamos numa outra fase”. “O ser humano complica tudo o que é simples e é por isso que não compreende Deus porque Deus é a simplicidade elevada quase ao absurdo e nós ligamos o botão do «complicómetro» e damos cabo disto tudo”, afirmou.

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O embaixador de Israel, Raphael Gamzou (E), o vigário geral da Diocese do Algarve, cónego Carlos César Chantre (C) e o presidente da Comunidade Judaica de Lisboa, Gabriel Steinhardt (D) • Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O vigário geral da Diocese do Algarve lamentou ainda os “escândalos das mortandades do século XX”. “Quando me lembro desses escândalos, fico espantado como é possível perdemos tanto tempo a criticar o que se passou nos séculos XIV e XV e não nos apercebemos do século XX que foi o século mais violento da história”, criticou, considerando os judeus a “expressão máxima” do “crime hediondo que é matar os outros em favor de um ideal que não se percebe qual é”. “Como é possível um povo mais de mil anos sem país, em 1948 rapidamente constituir um país? É sinal que o povo não desapareceu”, observou, considerando a história e o povo israelita como um “ensinamento”.

Em nome da comunidade, que de seguida visitou o cemitério judaico de Faro, Gabriel Steinhardt agradeceu o acolhimento e a receção.

Fotogaleria da visita de deputados do PS

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