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(Nota: as palavras em “itálico” são expressões de Fernando Pessoa ou de outra “pessoa” e, seu heterónimo)

Nesta breve dissertação, aclamaria em primeiro lugar o poema “Futurista” de “Álvaro de Campos”; “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”. Datado do ano da morte de Fernando Pessoa, esta cósmica “Ode à Terra-Mãe”, detém um dos versos mais significativos do “Sensacionismo” pessoano mas, também paradigmático do “Heteronimismo”, e que perpassam por toda a obra do Mestre; «Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,/ (…).

Seguidamente, o mesmo Poema de “A. de Campos” proclamaria ainda; Mais completo serei pelo espaço inteiro fora./ Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,/ Porque, seja ele quem for, com certeza é Tudo,/ E fora d`Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco. (…) Sursum corda! (…)» Adivinham-se nestes versos do mais importante heterónimo e, “alter-ego” (“outro-eu”) de Pessoa, uma forte formação teológica ligando “Futurismo” (enquanto movimento literário), ao Cristianismo.

O conjunto de postulados do excelente prólogo de Teresa Rita Lopes (T.R.L.) ao livro; «Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro» («N.R.M.C.») de “Álvaro de Campos”, numa breve análise crítica, relembra-nos a origem estética das múltiplas “metáforas” e consequentes “mitos” acerca do Livro : a “Bíblia”. Considerada uma das maiores obras literárias, e “de que se nutre a nossa civilização”, reconfirma ainda aquilo que já suspeitávamos como alicerce do «Futurismo» português e, também acerca do «Heteronimismo» pessoano; “Pessoa investigou a história de Jesus para contestar a verdade histórica da personagem bíblica e dos factos bíblicos…” (T.R.L.).

Hoje, sabemos que a principal obra de Fernando Pessoa; «Mensagem», título que denuncia o seu carácter profético e etimologicamente “evangélico”, fora publicada em 1934 “da era de Cristo da Nazaré” como então quis evidenciar. Com este Poema, progrediu no seu aturado estudo sobre o original “Christismo”, fazendo ainda uma crítica acerca de várias outras religiões politeístas, e de que se nutre toda a sua poesia.

Através do “neo-paganismo” estilístico, estas características religiosas acham-se, e desde muito cedo, junto ao Cristianismo, plasmadas nos primeiros poemas de «O Guardador de Rebanhos» (1911-1912) de “Alberto Caeiro”. Os múltiplos versos desta “história do meu Menino Jesus”, são também bem paradigmáticos da existência de uma doutrina primitiva cristã mas, “original” pelos laivos de paganismo helénico e, até de algumas ideias contraditoriamente animistas. Esses filosóficos poemas ajudam ainda a compreender porque Fernando Pessoa se considerava um “Cristão gnóstico”, e em nota autobiográfica no ano da sua morte (1935).

Mestre Pessoa foi simultaneamente sebastianista e messiânico, tendo T.R.L. reconfirmado na sua análise crítica, a marcante invenção; a de um “Mestre”. E ainda, a constituição de “Discípulos” e, até de “Evangelistas”; os seus “4” principais heterónimos: “Alberto Caeiro”, “Ricardo Reis”, “Álvaro de Campos” e “António Mora”. Este último “alter-ego” é o continuador filosófico de “Caeiro”, e teria sido o obreiro doutro livro que ainda não viu a luz do dia com o paradigmático título: “Cristianismo Primitivo”.

Um Fernando Pessoa” (Agostinho da Silva), anulando-se de forma fingida e a si mesmo, paradigmaticamente, intitular-se-ia; “ninguém”. Sendo também considerado e de modo ficcionado pelos seus próprios heterónimos, como um “novelo embrulhado para o lado de dentro” ou o reflexo de “anterior realidade que não está em nenhuma”, mais precisamente através doutro importante “semi-heterónimo” : “Bernardo Soares”. Com este “” heterónimo, adivinha-se o outro “irmão não despegado”: “Vicente Guedes”. E já vão “6” heterónimos… “7” para ser mais preciso contando com o Poeta “ele-próprio”, também ele “um” fingido “heterónimo”.

Foi, sem dúvida, Fernando António Nogueira Pessoa o tal “Super-homem” e, nunca o “anti-Cristo” proclamado numa “blague” in «Ultimatum de Álvaro de Campos» (1917). O Mestre Pessoa é de uma “atitude religiosa”, e de outra “Filosofia” (1915) singular cristã, que são revelados noutro título de um dos mais belos poemas dedicados ao “Senhor”. Nele se revê “Um” “Cristo” mas, “Outro” intermediário de “Deus” :

*

Senhor, meu passo está no Limiar

                Da Tua Porta.

 

Faze-me humilde ante o que vou legar…

                Meu mero ser que importa?

 

Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho

               De Ti em mim.

 

Faze que eu seja o claro e humilde engenho

               Que revela o Teu Fim.

 

Depois, ou morte ou sombra o que aconteça

               Que fique, aqui,

 

Esta obra é Tua e em mim começa

               E acaba em Ti.

 

Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo

               _ Verdade e Lei _

 

O resto sou só eu e o ermo mundo…

               E o que revelarei.

(metade do Poema “Filosofia” de Fernando Pessoa, 15/16 de novembro de 1915)

*

No texto 12 de «N.R.M.C.», apresenta-se o heterónimo “Alberto Caeiro” equiparado a uma espécie de capitalidade e ao da “única Roma” para todo aquele que “visita” o poeta. E com a “individualidade” própria dos que se distinguem, até de “um corpo separado de outros corpos” numa orgânica paulista e, essencialmente cristã. Quase católica… mas, verdadeiramente “Universal”, também “Naturalista”, e até “Cósmica”. Finalmente, a mesma nota 12 de “Campos”, refere-se a uma espécie de heterónimo-ortónimo “Pessoa” (“irmão gémeo” para A. de Campos) num elogio ao seu criativo poema; «Chuva Oblíqua» e, considerada uma das suas “mais originais” obras, “onde o estado de alma é simultaneamente dois, onde o subjectivo e o objectivo, separados, se juntam, e ficam separados, onde o real e o irreal se confundem, para que fiquem bem distintos.” Não poderia haver melhor definição sobre a heteronímia pessoana mas, essencialmente, como importante condição estética «Futurista». «Chuva oblíqua» (1914) é também paradigma da «Arte Luz» (“Futurismo”), num jogo imaginado dual, geminado ou hifenizado; “interior-exterior”, “noite-dia”, “luz-som”, e em permanente “Interseccionismo”: “Espaço-Tempo-Luz” (“Futurista”).

*

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…

 Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro…

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro…

 A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa…

(«Chuva Oblíqua» II, Fernando Pessoa, 1915)

(continua)

Vítor Cantinho

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