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Foto © Samuel Mendonça

Um especialista em história medieval disse no passado sábado não conhecer para a Idade Média “testemunho nenhum de peregrinações a Santiago saídas do Algarve”.

“Não quer dizer que não houvesse”, ressalvou Luís Filipe Oliveira, docente da Universidade do Algarve, que disse conhecer “razoavelmente” a documentação do sul.

O historiador abordou o tema “De Portugal ao Algarve: Castelo, Comendas e Igrejas da Ordem de Santiago” no jantar-palestra do encontro dedicado às questões da patrimonialização do Caminho Central Português para Santiago de Compostela desde Faro, uma iniciativa promovida no último fim-de-semana pela Associação Espaço Jacobeus.

“Se havia peregrinações, não é seguro que elas fossem feitas a pé pelos caminhos. A forma habitual de viajar entre Faro e Lisboa era por mar. A haver peregrinações para o norte, o mais provável é que elas se fizessem por barco. Se não fosse por barco é provável que os caminhos mais usados fossem os caminhos existentes, aquele que sai de Faro em direção a Salir, Almodôvar e Messejana e ou a partir de Tavira em direção a Mértola”, afirmou, lembrando que estes “são caminhos documentados mas pouco frequentados, intransitáveis no inverno e pouco frequentados no verão porque na serra não havia apoios”. “Há lobos e muitos. E há salteadores e bandidos”, acrescentou.

Por outro lado, o historiador que falava num restaurante do centro histórico de Faro lembrou que o Algarve tinha “os seus próprios centros de peregrinação medievais” em que “o mais importante, antigo e prestigiado é São Vicente”, “culto de todos os monarcas da primeira dinastia”, mas também Santa Maria de Faro, Santa Maria dos Mártires de Tavira, um “centro de peregrinação atestado no século XV” e Santa Bárbara de Nexe, um “centro de peregrinação que se desenvolve por volta do século XV com instalações para acolher peregrinos em redor da igreja”.

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Foto © Samuel Mendonça

Luís Filipe Oliveira, que apresentou a caraterização genérica das ordens militares, instituições religiosas da altura, frisou, contudo, que a memória de Santiago estava bem presente no Algarve porque a Ordem de Santiago “promovia o culto do santo”.

Começando por explicar que as ordens militares eram “urbanas, nascidas e implantadas em cidades”, salientou que a reconquista do território português, a partir do Tejo, foi no século XIII “obra fundamental dos freires militares de Santiago” e destacou que a reconquista do Algarve por Afonso III, em 1249, evidenciou um problema com aquela Ordem que vai causar “inúmeras tensões” entre o monarca português e Afonso X de Castela. “É que a Ordem de Santiago é internacional, está presente em Portugal mas também em Castela. O cavaleiro que comandou estas investidas da Ordem de Santiago, a partir de 1242, é mestre de Santiago em Castela. Para quem combate o mestre de Santiago? Para o rei de Portugal ou para o rei de Castela?”, questionou Luís Filipe Oliveira, lembrando que a Ordem de Santiago entregou a conquista de Ayamonte a Afonso X de Castela.

“A sul do Tejo, a atividade militar descansa fundamentalmente nas ordens militares e em particular na Ordem de Santiago, por isso é que a Ordem coloca problemas políticos seríssimos ao monarca português”, prosseguiu, explicando que a partir do século XIII, e sobretudo no XIV, a hoste régia portuguesa passa então a colocar-se sob a égide de São Jorge.

Luís Filipe Oliveira explicou que no Algarve, as únicas comendas da Ordem de Santiago são Cacela e Aljezur, mas disse que a Ordem é padroeira de um número significativo de igrejas no Algarve “Santa Maria de Faro, São Clemente de Loulé, Santa Maria de Tavira (Santiago de Tavira não é da ordem, é do bispo), Castro Marim e Alcoutim”, enumerou, lembrando que o padroado “implica o direito a apresentar o prior (freire) ao bispo que o nomeia e o direito a cobrar uma parte das dízimas”. “Nestas igrejas, a Ordem é responsável pela manutenção do culto, mas também pela manutenção da Fábrica da Igreja. O padroado das igrejas pode ser exclusivo (é o caso de Loulé) ou partilhado com o bispo (é o caso de Faro)”, acrescentou.

O historiador disse ainda que, “pela indicação dos órgãos”, havia “muito poucas invocações de Santiago” embora houvesse altares de Santiago “em todas as igrejas do padroado da Ordem” e que “em todas as igrejas da Ordem se organizava anualmente, na data consagrada, a festa de Santiago”.

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