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Historiador explicou ao clero do sul as “raízes” e as “causas” da secularização

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O investigador do Centro de Estudos de História Religiosa do Instituto de História Contemporânea, Sérgio Ribeiro Pinto, explicou ao clero do sul do país que, relativamente ao fenómeno de secularização, as suas raízes – pese embora ele tenha um “caráter tardio” – remontam à “própria estruturação da organização eclesial” e que as suas causas são “de natureza teológica”, não obstante terem implicações nos âmbitos económico, social e político.

Aquele professor da Universidade Católica Portuguesa, que abordou na última terça-feira na formação anual dos bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal em Albufeira “As múltiplas raízes da Secularização nos países de tradição religiosa cristã”, disse-lhes que o termo secularização surgiu nos inícios da segunda metade do século XVI, referente a uma “alteração de estatuto da propriedade” relacionada com o “aresto dos bens da Igreja”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Rejeitando que a secularização resulte de um “declínio contínuo permanente da adesão religiosa”, o historiador referiu-se a três raízes do fenómeno – a “tradição religiosa cristã”, a “construção da autonomia entre o político e o espiritual” e a “experiência moderna (contemporânea) do tempo” –, destacando ter havido três processos que concorreram para ele: a “autonomização da religião”, a “autonomização da política” e a “autonomização das sociabilidades”.

O orador disse à centena de participantes das jornadas de atualização do clero que nos séculos XVI e XVIII se produziu uma “rutura entre religião e moral”. “A construção de identidades, que não se pensam já a partir da pertença religiosa, cria espaço à existência de outro tipo de crer que é socialmente legítimo. E mais significativo: das possibilidades de descrer, de não crer e de combater a crença”, afirmou.

O investigador referiu que esta “pulverização das identidades” reforçou o “papel da máquina administrativa do Estado”, mas também o tornou “alvo de debate, de disputa”. Sérgio Pinto acrescentou que, da “tentativa de obrigar” as Igrejas se cingirem ao âmbito espiritual nasce a “afirmação em nome dessa autonomia do político” de que o homem pode ser “indiferente, neutro, separado e, nalguns casos, anti-religioso”, constituindo-se como um “elemento de concorrência” do próprio religioso.

O historiador destacou assim que “o religioso vai tornar-se num facto de opinião” e que a “opinião religiosa de cada um” passa a ser uma “aquisição legitimada socialmente”.

O formador, que se referiu à “luta pela supremacia entre o espiritual e o temporal”, que percorre toda a baixa Idade Média, lembrou que “dessa distinção radical entre os dois elementos nasce também um conflito que atravessa as diferentes formulações, sobretudo de natureza eclesiológica”. “Essa distinção radical entre os dois elementos abriu um espaço ideológico, mas também um espaço social e político em que se insinua a possibilidade de essa confessionalidade não existir”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O conferencista, que explicou ter surgido na altura o questionamento do “próprio ato mediador do religioso”, rejeitou que o início da Modernidade tenha significado o início da perda de influência do religioso cristão. “A erosão da sociedade medieval não resultou de uma apreciação moral que não se fez contra a religião, ou seja, contra o Cristianismo e contra o seu hipotético excesso, mas por causa da sua insuficiência”, defendeu, observando ter surgido “uma nova noção de religião” e a “constituição de espaços de sociabilidade que são pensados a partir de maneiras diferentes de formular o que é a Igreja”.

Sérgio Ribeiro Pinto constatou que “a cristianização intensiva, levada a cabo pelas duas reformas [protestante e católica] a partir do século XVI, constituiu um esforço sem precedente para espiritualizar os comportamentos quotidianos” e “mudou a maneira de entender o que era o núcleo essencial da experiência cristã, do que eram as formas de manifestação de religião”. O orador disse que ela “resulta, não no intuito de fazer restringir o âmbito do religioso, mas de o alargar”. “Em nome desta exigência espiritual resultará uma alteração profunda que demorará, nalguns casos até ao início do século XX, a alterar o sistema beneficial que, de alguma forma, estruturava a existência eclesiástica, ou seja, o lugar das mediações”, acrescentou.

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