A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista, porém desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. Porque, se a realidade é dinâmica e se transforma a uma velocidade cada vez mais elevada, uma das grandes questões que os educadores em geral devem fazer é esta: como é que ajudamos uma pessoa a habitar o mundo sem deixar de se habitar a si mesma, sem deixar de habitar com os outros e sem perder a capacidade de esperar aquilo que, porventura, ainda não existe?

1- Habitar-se
“Habitar-se” é olhar para si, para aquilo que se é e possui. É falar da dimensão da interioridade. E começo por aqui porque creio que esta é uma grande urgência dos nossos dias. Todos os dias, cada professor tem diante de si inúmeros alunos que vivem rodeados de informação, de imagens, de muitas possibilidades de comunicação, enfim, têm um sem número de estímulos a que responder. Todavia, estar permanentemente ligado não significa estar em contacto consigo próprio nem com os que o rodeiam. E existe um sem-número de questões que precisam de resposta, mas uma resposta que precisa de tempo, de espaço e de silêncio para ecoar na mente e no coração, para depois ser capaz de transformar a vida. E essas perguntas – quem sou eu? Do que já fiz, o que é que valeu mesmo a pena? O que é que eu faço com aquilo que me acontece? O que é ser livre? Em que é que acredito? – não encontram uma resposta satisfatória em nenhuma tecnologia. Então, partindo destas questões que são abordadas como horizonte de sentido nas aulas de EMRC é possível compreender que esta disciplina não habita a escola somente para transmitir informação ou conhecimento religioso. A sua presença na escola é, acima de tudo, para introduzir no mundo educativo a pergunta pelo sentido da vida, pela existência de cada ser humano. E isto é, para mim, uma questão de identidade da disciplina, algo que a define e diferencia.

Qualquer escola pode ensinar-nos muitas coisas sobre o passado e o presente, sobre este mundo e quiçá outros “mundos”, mas pode continuar sem ter espaço para uma pergunta crucial: o que é que significa ser-se humano? Assim, a EMRC pode e deve ser o lugar onde um aluno não é apenas convidado a saber mais, mas a interrogar-se de modo mais profundo, com o tempo de qualidade que esse exercício exige. Talvez por isso a interioridade não seja um luxo, mas uma necessidade educativa. E, enquanto educadores, necessitamos de ajudar os nossos alunos a parar, escutar e a reconhecer aquilo que sentem, desejam e procuram.

Permitam-me convocar a poesia e alguém que bem conhecemos e que escutámos neste Simpósio – o Cardeal Tolentino de Mendonça – que tem insistido na capacidade da poesia para nos devolver ao espanto, à escuta e a uma atenção diferenciada para com a realidade envolvente. Isto interessa-me enquanto docente, mais ainda como professor de EMRC. Porque educar é ensinar a olhar de novo, a olhar para uma pessoa e não apenas para o seu desempenho, a olhar para uma pergunta e não somente para a resposta, a olhar para a vida e compreender que ela é maior do que aquilo que conseguimos explicar no imediato. Por isso, o primeiro pilar escolhido para esta intervenção foi “habitar-se”, porque é preciso ajudar cada aluno a trabalhar a sua interioridade.

2- Habitar com
A interioridade cristã não é uma viagem para dentro que termina em nós. É exatamente o contrário. E quanto mais nos descobrimos em profundidade, mais compreendemos que somos relação e para a relação – então, faz sentido “habitar com”. Deste modo, encontro uma ligação bonita e fecunda com o Pacto Educativo Global e com a imagem da “Aldeia da Educação”, expressão cunhada pelo Papa Francisco, a partir do provérbio africano que afirma «para educar uma criança é necessária uma aldeia inteira». Assim, compreendemos de modo claro que ninguém educa sozinho. Não educa sozinho o professor, a família ou a escola, pois a educação é uma tarefa que exige relação e contributos vários. O recuperar desta lógica de aliança, de rede e de corresponsabilidade é uma das grandes intuições do Pacto Educativo Global. Também aqui o professor de EMRC tem um papel particular, pois a sua vocação faz com que não possa ser uma ilha dentro da escola, mas uma ponte. Ponte entre a escola e a comunidade, entre a fé e a cultura, entre as diferentes áreas do saber, entre as pessoas que pensam de modo distinto, entre aquilo que se aprende e o que se vive efetivamente.

Tudo isto nos aproxima dos aspetos fundamentais para a educação cristã, de acordo com Leão XIV – a interioridade (referida logo na primeira parte), a unidade, o amor e alegria1 – particularmente da unidade e do amor. Porque estar juntos não é viver em unidade. Podemos frequentar a mesma escola, estar na mesma sala, participar no mesmo projeto e, mesmo assim, continuarmos profundamente separados. A unidade exige relação e a relação pede cuidado. Por isso, quando Leão XIV fala da importância do amor na missão educativa, não o vejo como algo meramente sentimental, mas como um convite que pede a cada educador que se levante e vá ao encontro do aluno para que o possa realmente ver. Ver aquele que facilmente passa despercebido; o que não tem bons resultados; o que não participa se não é solicitado; o que se cala abruptamente; o que só tem oportunidade de comer na escola; o que sofre violência doméstica e que vive apavorado com medo que o pai mate a mãe; o que chega à escola com histórias que lhe fazem sangrar o coração e que cada educador desconhece, mas que influenciam profundamente a sua forma de interagir connosco e com os colegas.

Creio que a missão do professor, mais ainda o de EMRC, se cumpre quando pela sua presença e atitude é capaz de dizer a cada um dos alunos “Eu vejo-te. Tu contas para mim, com aquilo que és e com a história que carregas aos ombros. A tua vida tem valor por si só”. E isto é também a identidade da disciplina, não fosse a pessoa humana o seu centro e não fossem trabalhadas em sala de aula as dimensões da dignidade humana, da fraternidade, do cuidado consigo, com o outro e com a casa comum, entre tantas outras. Assim, a missão do professor é a de fazer com que as palavras ditas a cada aluno se tornem experiência e, então, faz sentido mencionar o “habitar com”. E, aqui, a “Aldeia da Educação” deixa de ser somente uma bonita imagem para ser uma responsabilidade real.

3- Habitar o ainda-não
Chego assim ao terceiro pilar, “habitar o ainda não”, talvez aquele que melhor responde a parte do título deste painel: “perante uma realidade que (se) transforma”. Porque vivemos num tempo extraordinariamente competente para prever o futuro, pois temos algoritmos, inteligência artificial, dados, modelos de previsão entre tantas outras coisas. Somos cada vez melhores a dizer com base no passado aquilo que provavelmente acontecerá no futuro. Porém a educação é uma tarefa que vai muito além da previsão, devendo preservar a possibilidade, pois a ela compete-lhe dizer a cada aluno “tu ainda podes ser”. Porque cada aluno não é apenas aquilo que foi, não é somente o seu resultado, não é simplesmente o seu erro, não é unicamente aquilo que os outros dizem ou disseram de si. Há qualquer coisa que ainda não está escrita e que merece atenção e dedicação e é importante que o educador seja a voz que diz a cada aluno que ele tem mais futuro do que passado.

Volto de novo ao Cardeal-poeta Tolentino de Mendonça, que a 21 de março deste ano – Dia Mundial da Poesia – afirmou que “o algoritmo é um mapa dos passos percorridos e o poema é um mapa dos caminhos a percorrer”. É uma imagem extraordinariamente feliz para pensar a educação, pois, aqui, o poema é a educação, a escola onde cada aluno faz o seu percurso, compreendendo que existem ainda muitas páginas por escrever. E, aqui, vejo o quarto aspeto referido por Leão XIV aos educadores – a alegria. Não a alegria como simples boa disposição, não a obrigação de o professor estar sempre sorridente. Mas a alegria como expressão de uma esperança fundamental que diz a cada aluno que a realidade não está fechada, ele mesmo não está fechado, a sua história não está fechada, o futuro não está fechado, mas que é possível fazer mais e melhor. Essa é a esperança que um educador deve transmitir aos alunos. E uma das maiores contribuições da educação cristã é precisamente esta: guardar na escola um lugar para a esperança. A escola tem que ser um laboratório de esperança e de fraternidade e estas têm que ser a sua bússola. E os professores de EMRC são chamados a ser guardiões deste tesouro transportado em vasos de barro. Existem fragilidades, cansaços, dúvidas e desmotivação. Nem sempre se consegue encontrar as palavras certas nem se observa os frutos daquilo que cada um semeou. Mas a fragilidade do barro não diminui o valor do tesouro, que não é um conjunto de conteúdos, mas a possibilidade de dizer a cada aluno que a sua vida tem sentido, que ele não é um mero número e que o seu futuro está de facto em aberto. Por isso, apesar das fragilidades e dificuldades, é importante não perder o horizonte da missão. E esse horizonte tem vários rostos, idades, personalidades, sensibilidades e emoções. Esse horizonte é cada um dos alunos confiado aos professores.

Num mundo que inúmeras vezes diz aos jovens aquilo que eles devem ser, precisamos também de lugares onde cada um possa descobrir aquilo que pode vir a ser. E a EMRC tem uma palavra a dizer, porque a esperança cristã não é uma fuga da realidade, mas a capacidade de a encarar e dizer que isto pode ser transformado. É a capacidade de cada um reconhecer que pode participar nessa transformação.

Regresso à poesia para terminar, porque, perante uma realidade que se transforma velozmente, a missão do educador não passa por oferecer aos jovens um mapa pronto a seguir, devidamente marcado ou percorrido por outros. É necessário ajudar cada aluno a ler mapas e, sobretudo, a desenhar caminhos, compreendendo que, mesmo quando essas estradas são becos ou não produzem o fruto desejado, é possível fazer diferente, continuando a buscar algo maior. Socorrendo-me da linguagem do GPS, quando a rota está traçada e por algum motivo nos enganamos, ele nunca nos diz – “atenção, enganaste-te”. Por norma, diz – “recalculando a rota”. Ou seja, enquanto educador, cada professor é o GPS dos alunos e, se o seu propósito é o de que eles possam percorrer caminhos em busca da sua realização, a missão docente é ajudá-los a recalcular rotas e a ajustar coordenadas quando, porventura, se enganarem, mostrando-lhes que o erro não é o fim, mas pode ser o início de algo muito bom.

Assim, vejo a missão da EMRC na escola como um átrio dos gentios onde todos, independentemente das suas convicções religiosas, têm lugar, e onde se lhes oferece a possibilidade de descobrirem que a partir de certos valores é possível construir um chão comum onde cada um se descobre, descobre o outro e compreende o seu lugar no mundo.

* Intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização. Fátima, 2 de outubro de 2026.

1 Cf. Discurso de Leão XIV aos educadores. Praça de São Pedro, 31 de outubro de 2025.