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“Todos os dias sonho quando é que se consegue fechar os Bancos Alimentares”, afirmou ontem à noite a presidente do Banco Alimentar (BA) Contra a Fome, no jantar-palestra promovido no Hotel Eva, em Faro, pelo núcleo do Algarve da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores.

Isabel Jonet explicou que há em Portugal 20 BA que, em conjunto, apoiam com alimentos quase 400 mil pessoas, através de 2300 instituições particulares de solidariedade social selecionadas. “Quase 4% da população portuguesa tem todos os dias no seu prato um alimento que vem do BA. Isto podia fazer com que achássemos que somos muito eficientes ou que os BA são fantásticos. Pois eu, pelo contrário, acho que é uma pena e, todos os dias, sonho quando é que se consegue fechar os bancos alimentares. Acho que somos os maiores falhados que podem existir em Portugal. Então andamos há 20 anos a tentar acabar com a fome em Portugal e só a fazemos aumentar? Isto significa que alguma coisa está mal”, afirmou, considerando que “alguma coisa está mal, não apenas do lado da procura, das pessoas que precisam, mas do lado da oferta”.

A presidente do BA adiantou que todos os dias os 20 BA portugueses distribuem em conjunto 120 toneladas de alimentos e que só do BA de Lisboa, o maior da Europa, saem diariamente 44 toneladas por dia. “Destes alimentos, a maior parte, cerca de 60%, teria como destino provável a destruição apenas por razões comerciais, porque são produzidos a mais ou porque a marca mudou ou porque estão quase a expirar o prazo de validade ou porque, por alguma razão, o mercado os rejeita”, denunciou, considerando que “alguma coisa está mal no mundo” e que “há excedentes de produção porque há excesso de consumo”. “Achamos sempre que precisamos de consumir mais do que, efetivamente, precisamos”, lamentou.

Jonet, que é também presidente da Federação Europeia dos Bancos Alimentares, que congrega 253 BA em 21 países, acrescentou que há “paletes e paletes” de produtos que saem do circuito comercial “apenas porque o consumidor não pode ver uma promoção durante mais de 15 dias na prateleira do supermercado”. “Portugal é um dos países da Europa onde há mais pobres. 2 milhões de pessoas vivem com menos de 450 euros por mês e há 1 milhão de pessoas que vive com menos de 245 euros e no entanto, estes produtos, seriam destruídos”, criticou.

A oradora considerou assim que o momento atual é a “oportunidade” para se regressar à “essência das coisas” e à “essência dos afetos”. “Há que regressar à essência que nos vai fazer, de alguma forma, despojar e que vai permitir recuperar valores essenciais para se construir o bem comum, valores que são a base de qualquer sociedade. E tenho esperança que isso permita que as famílias voltem a ser a base e a célula de uma sociedade que se pretende mais equitativa porque mais atenta. Acho que temos que voltar à lógica do poupar porque queremos deixar aos nossos filhos e netos aquilo que pudemos ter. E este momento, que pode até assustar algumas pessoas, é uma oportunidade de pequenos grupos serem uma mancha de azeite que vai mudar toda a sociedade”, sustentou.

Jonet lembrou que, em Portugal, à “pobreza estrutural” se juntou a “pobreza conjuntural”. “Temos pessoas que nunca imaginaram que não iriam ter tudo aquilo que tinham imaginado conseguir para os seus filhos. E temos pessoas da classe média que estavam habituados a fazer parte de um grupo de consumo e que, de repente, por causa do desemprego, deixaram de poder pertencer a esse grupo de consumo. Isso é muito angustiante porque muitas destas pessoas não querem admitir sequer perante elas própria que nunca mais vão voltar a ter aquilo que tinham imaginado ter”, concretizou.

A oradora disse ainda considerar que no fim do plano de intervenção da troika, Portugal deverá “estar melhor”. “Acho que vamos ter de estar melhor porque não temos alternativa. Para pior não podemos ir. Há muitas pessoas que vivem muito mal, mas o que eu pergunto é: qual era a alternativa? As pessoas têm que perceber que não havia alternativa. Nós todos vivíamos numa ilusão coletiva de que poderíamos viver para sempre a crédito, mas a «torneira» fechou-se. E, portanto, não havia alternativa. Acho que no fim deste plano de intervenção, nem que seja para ter reposicionado o nível de consumo, ajustando-o até àquele que é o efetivo nível de rendimento das famílias, nem que seja por isso, terá valido a pena”, defendeu.

A conferencista considerou ainda existir na Europa um problema que em Portugal se sente “com uma incidência talvez maior”: a “total alteração do mercado de emprego”. “Empregos para a vida deixaram de haver. Mesmo na função pública isso vai mudar. Então as pessoas têm de voltar a lançar mãos à obra. No entanto, muitas vezes, mesmo quando querem gerar o seu próprio emprego não encontram maneira de conseguir vender os produtos porque o mundo mudou e não podemos competir com países onde, por exemplo, os direitos sociais não são assegurados e não têm o mesmo custo”, lamentou.

Neste sentido, deu o exemplo dos chineses. “Os chineses são 1.400 milhões e os portugueses são 10 milhões e é contra esses que temos que competir e nem sequer sabemos falar a mesma língua que eles. No entanto, eles vêem para cá, nós acolhemo-los e compramos todos os produtos que eles nos querem vender apesar de não pagarem impostos”, afirmou.

O jantar, com cerca de 30 participantes, foi precedido pela celebração da eucaristia na igreja da Misericórdia, presidida pelo padre Rui Guerreiro, assistente do núcleo do Algarve da ACEGE.

Samuel Mendonça

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