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“O leitor é guiado pelo narrador para que aceite os critérios de Deus e rejeite o que é próprio deste mundo”, evidenciou o biblista, sublinhando que, em última análise, é o leitor quem decide “se quer acabar em glória, como Jesus, ou em tragédia, negando-se ao seu seguimento”.

O conferencista falava na IV Jornada Bíblica que hoje teve lugar no Centro Pastoral e Social da Diocese do Algarve, em Ferragudo, promovida pelo Centro de Estudos e Formação de Leigos do Algarve (CEFLA) da Igreja algarvia, com a participação de 135 católicos algarvios, a maioria dos quais oriundos do barlavento algarvio.

O diretor do Instituto Superior de Teologia de Évora apresentou a obra do evangelista, sob uma “perspetiva narrativa”, como “um relato”, lembrando que a escritura teve origem num contexto de “perseguição e conflito”.

O cónego Morais Palos defendeu que, tal como o texto dos restantes três evangelistas, o evangelho segundo Marcos é resultado de “obras de coleção”. “Quem compôs o evangelho, muniu-se obras de coleção que já tinha anteriormente”, sustentou, considerando que, não obstante este aspeto, o resultado é um relato “unitário, consequente e coerente”.

O conferencista apresentou algumas linhas orientadoras para a interpretação do texto e lembrou que o mesmo apresenta uma “versão de acontecimentos históricos com pessoas e lugares bem definidos”, devendo ser olhado “mais como um relato do que como acontecimento histórico”.

Por outro lado, o cónego Morais Palos considerou que o autor “tem um estilo próprio”, que o texto “tem de ser lido de forma contínua”, “como narrativa completa”, e “não apenas em pequenos fragmentos” e que o leitor deve abdicar do que já sabe de Jesus. O conferencista aconselhou mesmo a ler o texto “independentemente” do dos restantes evangelistas, “como se fosse a única história acerca de Jesus”.

O biblista advertiu ainda que “não se podem projetar pressupostos da cultura do século XXI num mundo do século III” e que “não se devem aplicar modernas teologias de Jesus ao relato de Marcos”, acautelando que “o Jesus de Marcos não é o manso e humilde de coração”. “Esse é o de Mateus”, complementou.

Aludindo ao narrador, ao cenário, ao enredo, às personagens e à retórica como “aspetos-chave de narração”, o conferencista classificou o narrador como de “omnisciência ilimitada”, aquele que “conhece o que acontece em todos os lugares”. “Ler o evangelho segundo Marcos é quase como assistir a um filme de Hitchcock: o espetador sabe, desde o princípio, da situação embaraçante em que se encontram as personagens”, acrescentou.

Sobre o cenário, aludiu ao seu desdobramento nas dimensões “cósmica, social, temporal e político-cultural”, garantido que, em Marcos, “o cenário é o da intervenção de Deus na História”, sendo que todas as dimensões enumeradas “convidam o leitor e a ver a realidade da soberania de Deus”.

Aludindo à tensão que o evangelho segundo Marcos relata entre os “valores da soberania de Deus” e os “interesses humanos”, o conferencista lembrou que “a instauração da soberania ou reino de Deus é a origem de todos os conflitos” de Jesus com as autoridades e com os discípulos. O cónego Morais Palos considerou mesmo ser nos discípulos “que se acentua o conflito” entre viver segundo os critérios humanos ou segundo as propostas de Deus e disse que o narrador leva o leitor a identificar-se e a aprender com as “falhas” e “fracassos” daqueles.

A jornada terminou com uma oração segundo o método da Lectio Divina, uma forma aprofundada de rezar a partir da leitura da Bíblia, que exige disponibilidade de tempo e de espírito. Caracteriza-se por quatro etapas: leitura, meditação, oração e contemplação/aplicação à vida.

Samuel Mendonça

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