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Jornada apresentou padres que desde o século I estabeleceram as estruturas da Igreja

Foto © Samuel Mendonça
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O padre Miguel Neto apresentou no passado sábado o caminho trilhado pela fé cristã até aos dias de hoje que estabeleceu as estruturas fundamentais da Igreja, particularmente os conteúdos doutrinais e pastorais.

Na jornada promovida no Centro Pastoral e Social da Diocese do Algarve, em Ferragudo, pelo Centro de Estudos e Formação de Leigos da Diocese do Algarve, o sacerdote expôs o legado deixado pelos chamados “Padres da Igreja” ao longo do período da história do Cristianismo que vai do século I ao V, destacando que também foram eles que “fixaram o cânone da Sagrada Escritura [Novo Testamento], bem como as profissões básicas da fé” (como a oração do Credo).

“Estabeleceram as bases da disciplina canónica e criaram as formas da liturgia que permanecem como ponto de referência obrigatória para todas as reformas posteriores e foram ainda os autores da primeira catequese cristã”, acrescentou o formador, evidenciando que entre outros benefícios, este trabalho permitiu a “passagem da improvisação litúrgica a normas e modos estáveis de celebração”.

Foto © Samuel Mendonça
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Na iniciativa, que contou com 76 participantes de todo o Algarve (58 alunos do Curso Básico de Teologia e 18 outras pessoas que quiseram estar presentes), o orador começou por esclarecer que o encontro iria tratar da Patrologia e não da Patrística, explicando que “a Patrologia tem por objeto a vida e os escritos” dos “Padres da Igreja” (e de outros escritores eclesiásticos) e não se ocupa do seu pensamento teológico como a Patrística. O orador acrescentou que esta “possui um caráter doutrinal e teológico”, enquanto a primeira “move-se mais no contexto da indagação histórica e da informação bibliográfica e literária”.

O padre Miguel Neto explicou que os “Padres da Igreja” foram “aqueles que a nível da fé e/ou da disciplina deixaram uma marca profunda na vida da comunidade cristã”. O orador acrescentou que os requisitos necessários para que um autor cristão possa gozar daquela prerrogativa são a “antiguidade”, a “ortodoxia de doutrina”, a “santidade de vida” e a “aprovação por parte da comunidade eclesial no seio da qual viveu e morreu”. “Os outros são escritores eclesiásticos. E temos escritores eclesiásticos muito importantes que nunca serão considerados padres da Igreja porque lhes falta a santidade de vida ou a ortodoxia”, acrescentou, lembrando que a maior parte destes autores foram martirizados.

“Conscientes do valor universal da Revelação, iniciaram a grande obra da inculturação cristã, sendo, por isso, um claro exemplo do encontro fecundo entre a fé e a cultura, a fé e a razão”, complementou, acrescentando que “os Padres da Igreja tinham uma grande preocupação em conhecer o mundo que os rodeava”.

Referindo-se concretamente aos “Padres Apostólicos” (séculos I e II), o padre Miguel Neto lembrou que se consideram os que “vão até à terceira geração que tiveram contacto com os apóstolos”, como São Clemente I de Roma, Santo Inácio de Antioquia, Hermas ou São Policarpo e acrescentou que a denominação engloba “escritos do Cristianismo mais antigo, que não ficaram integrados no cânone do Novo Testamento” como o Didaché ou a Epístola a Barnabae.

Foto © Samuel Mendonça
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O orador referiu-se depois aos “Padres Apologistas Gregos” (século II), explicando serem “escritores cristãos antigos que se propunham defender o Cristianismo das acusações dos pagãos e dos judeus e difundir a doutrina cristã em termos adequados à cultura do próprio tempo”. “A tarefa dos Padres Apologistas centrar-se-á mais na relação e confronto com o mundo exterior e pagão e com uma maior proximidade e diálogo com o mundo da cultura e da ciência”, complementou, acrescentando que estes padres – que “colocaram os pilares da reflexão teológica propriamente dita e por isso podem ser considerados como os primeiros teólogos da Igreja” –, pretendiam, entre outros fins, “demonstrar perante os imperadores e o paganismo em geral que o Cristianismo tinha legitimidade para existir e, tal como as outras religiões, de obter o direito de cidadania do império”. De entre eles, destacou São Justino, Melitão de Sardes, Atenágoras, São Teófilo de Antioquia e também a Epístola a Diogneto.

O sacerdote – que defendeu a explicação dos dogmas com uma linguagem não-hermenêutica e contemporânea à semelhança do que fez São Justino –, abordou depois a “Reação Cristã Anti-gnóstica”, lembrando que “sobretudo depois de 313 com o Édito da Tolerância de Constantino, a Igreja começou a trabalhar na sua definição doutrinal”. “O século II foi particularmente fustigado pela perigosa e poderosa influência das heresias nascidas no interior da própria Igreja, como é o caso do gnosticismo e do montanismo”, explicou, sublinhando que houve uma “luta pela definição doutrinal” e que os “muitos movimentos heréticos tiveram a sua força na influência política”. “A defesa das heresias era feita por questões políticas e não por verdadeira interpretação doutrinária”, constatou, evidenciando São Ireneu de Lião como o “grande lutador contra os gnósticos”.

Foto © Samuel Mendonça
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O formador abordou depois os padres e autores gregos do século III, explicando que “por volta do ano 200, a literatura eclesiástica dá mostras de um desenvolvimento extraordinário e adquire uma orientação totalmente nova”. “A produção literária do século II esteve condicionada pela luta que a Igreja teve que sustentar com os seus perseguidores. O valor permanente destes autores primitivos reside no serviço que prestaram à teologia ao colocar-lhe as suas primeiras bases. Nenhum escritor cristão tinha até então tentado considerar o conjunto da doutrina cristã como um todo, nem apresentá-lo de forma sistemática”, afirmou, acrescentando que a “fixação dos conteúdos do que é fundamental para se ser cristão” começa naquela altura com duas escolas – Alexandria e Antioquia –, sendo que os mais importantes autores da primeira foram São Clemente e Orígenes.

O padre Miguel Neto destacou assim que o Cristianismo surgiu no oriente e não em Roma.

Referindo-se aos padres e autores latinos do século III, explicou que, “enquanto os grandes padres do oriente, Clemente e Orígenes, se empenharam em ressaltar o conceito cristão da vida sobre os vícios que caraterizavam o paganismo e a destacar o valor objetivo da redenção”, os padres ocidentais, em especial os africanos, perante um contexto sócio eclesial impregnado de heresias e cismas, centram a sua atenção no aspeto subjetivo da salvação”. “Insistem na fé em ato, na luta do cristão contra o pecado, na prática da virtude e na centralidade da Igreja e comunhão com a sua doutrina e disciplina”, acrescentou, lembrando que “Santo Agostinho era africano e o maior teólogo do ocidente”. De entre os “grandes escritores eclesiásticos latinos” deste século, destacou Tertuliano e São Cipriano de Cartago, frisando que “estes autores tinham dois trabalhos: lutar contra as perseguições e contra os pagãos e também contra os hereges”.

Foto © Samuel Mendonça
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Seguidamente abordou os séculos IV e V recordando que “a vitória de Constantino, no ano 313, assinala o momento decisivo na história da Igreja Antiga”. “Significa o começo do Império cristão. O Cristianismo converte-se primeiro em religião tolerada, e, finalmente, sob Teodósio I, na religião do Estado”, destacou, evidenciando que “com a sua ciência, a sua liturgia e a sua arte, a Igreja entra numa nova era”. “Começa o período dos «Grandes Padres da Igreja», a «Idade de Ouro» da literatura eclesiástica”, sustentou, acrescentando que “a marca distintiva desta época é o desenvolvimento da ciência eclesiástica”. “Como a Igreja ficou livre das perseguições, desenvolveu-se a Teologia. Já liberta da opressão exterior, a Igreja dedica-se a preservar a sua doutrina da heresia e a definir os seus dogmas principais”, completou.

De entre os “Grandes Padres Orientais” destacou Atanásio de Alexandria, os Capadócios e João Crisóstomo e lembrou que “o Cristianismo nascido no oriente difunde-se no âmbito do império romano, cujas fronteiras o superam” e que a Igreja, através dos “Grandes Padres Ocidentais” “intensifica a sua expansão e progresso no ocidente”. “O ocidente não conhece, nem a efervescência teológica, nem as grandes controvérsias trinitárias e cristológicas do oriente”, assinalou, acrescentando que “a primeira controvérsia latina demonstra a autonomia do ocidente em relação ao oriente, autonomia que favorecerá a formação de uma teologia própria”. Como “grandes padres” deste período destacou Santo Hilário de Poitiers, Santo Ambrósio e Santo Agostinho de Hipona.

Por abordar ficaram as “características globais da reflexão patrística dos séculos VI a VIII”.

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