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Foto © Samuel Mendonça
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O cónego Joaquim Nunes explicou no último sábado, na jornada de formação sobre história da Igreja do Algarve, existirem aspetos que fundamentam a hipótese da existência de uma comunidade cristã organizada na região desde os séculos I ou II, até porque “a presença de comunidades cristãs na Península Ibérica é testemunhada, de modo documental, desde os fins do século II”.

Contudo, o sacerdote e historiador, que abordou o período histórico do século I ao início do século XX, assegurou que “a mais antiga referência documental acerca da existência de uma comunidade cristã, estável e organizada (diocese) na região que hoje é o Algarve data dos inícios do século IV” com a Igreja de Ossónoba.

Não obstante este facto, o conferencista explicou que Ossónoba “é, provavelmente, uma fundação fenícia do século VIII a.C., um entreposto comercial na rede que este povo mediterrânico estabeleceu”, e adiantou que “escavações na cripta da Sé [de Faro] permitiram identificar construções e arruamentos deste período”.

Promovida pela Igreja algarvia, através do seu Centro de Estudos e Formação de Leigos do Algarve (CEFLA) no contexto e na estrutura do Curso Básico de Teologia para agentes de pastoral, a jornada de formação que teve lugar no Centro Pastoral e Social da Diocese do Algarve, em Ferragudo, contou com cerca de 80 participantes de toda a diocese, incluindo alguns estrangeiros residentes na região.

O cónego Joaquim Nunes assegurou que “a localização geográfica de Ossónoba não oferece dúvidas: a cidade romana corresponde à atual cidade de Faro”. “Quanto à existência de um edifício religioso, uma igreja catedral, naturalmente que existiu desde o período constantiano, e é, igualmente natural, que se tenha situado na zona central da cidade, que atualmente é designada por Vila Adentro”, sustentou, embora acrescentando que esta possibilidade “continua a ser uma conjetura não confirmada”.

Foto © Samuel Mendonça
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O sacerdote lembrou que “as ruínas de Milreu, em Estoi, a escassos quilómetros de Faro, são os restos de uma villa na qual, frente à domus senhorial, existem os vestígios monumentais de um templo da antiguidade tardia dedicado a divindades aquáticas e que, no século IV, foi transformado em Igreja cristã com o seu batistério”. “Esta transformação dá conta do lugar e importância da comunidade cristã na região e da cristianização que se foi realizando, em desfavor dos cultos pagãos”, sustentou, acrescentando que também noutros lugares do Algarve há testemunhos da presença de comunidades cristãs, nomeadamente na Laranjeira, junto ao Guadiana, e na Quinta de Marim.

O sacerdote explicou que dos dois séculos seguintes nada se sabe, através de documentação escrita, acerca da Igreja de Ossónoba e que só “com o advento da monarquia visigótica e a unificação da Península [Ibérica] volta a mencionar-se a continuidade da Igreja local de Ossónoba, mediante a referência aos seus bispos ou delegados que participaram em diversos concílios”.

Explicou também que, durante a invasão árabe, “os cristãos, moçárabes, que se mantiveram fiéis constituíram comunidades organizadas”, mantiveram as dioceses e “alguns vieram a desempenhar cargos significativos no novo quadro de poder”. “Esta situação deveria ter sido a da Igreja local de Ossónoba, pelo menos até à invasão almóada (profundamente fundamentalistas) em 1147. É neste período que cai a denominação de Ossónoba”, afirmou, explicando que, “desaparecido o Califado de Córdova” e “a cidade de Uksúnuba começa a ser conhecida por Santa Maria que, entre 1016 e 1052 é governada pela família dos Ben Hárune, cujo nome se incorporou na sua denominação: Santa Maria de Faro”. “Esta troca do nome é sustentada por uma presença fortíssima de uma comunidade cristã reconhecida, estável e organizada. De outra maneira, não se vê que os autores muçulmanos – que são eles que dão testemunho disto – aceitarem esta mudança”, considerou.

“Durante este longo período, até à primeira conquista de Silves, em 1189, a existência de comunidades cristãs nesta região é dada através de testemunhos constantes em obras de autores muçulmanos e do conhecimento da atuação das autoridades locais perante as comunidades cristãs moçárabes”, complementou, destacando a lápide funerária do bispo Julião, encontrada em Cacela, como “documento arqueológico que certifica a existência de um bispo no Algarve do século X”.

O conferencista explicou também que no século VIII o corpo de São Vicente foi levado para o Cabo de São Vicente, em Sagres, que se torna um “local de peregrinação para os cristãos de todo o Andaluz” (designação da Península Ibérica), tendo as relíquias do diácono sido levadas para Lisboa em 1173.

O cónego Joaquim Nunes afirmou que a “conquista definitiva do Algarve pelas tropas de D. Afonso III, em 1249”, depois da primeira tomada em 1189 por D. Sancho I que só duraria dois anos antes da retoma almóada, “marca o início da diocese de Silves e da organização da Igreja local e a implementação da reforma litúrgica que substitui o rito moçárabe pela liturgia romana”. “O território da Diocese de Silves corresponde ao do Reino do Algarve e, desde então não sofreu alterações”, explicou, sublinhando que “a organização paroquial da Diocese estava completa em Silves”. “Os bispos de Silves criaram praticamente todas as paróquias do Algarve”, adiantou, acrescentando, por isso, que o quadro paroquial diocesano “é altamente estável”.

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Considerando que frei Roberto, em 1253, é, “de facto”, o primeiro bispo de Silves – uma vez que o episcopado de D. Nicolau durou o tempo da primeira conquista da cidade – lembrou que lhe sucederam 33 prelados até à mudança da sede da diocese para Faro, em 1577. “Observando com detalhe a lista da sucessão episcopal podemos verificar algumas características dos bispos do Algarve, com sede em Silves como em Faro: há muitos episcopados de curta duração; os bispos estão de passagem, serão transferidos para outras dioceses mais importantes; e não residem em Silves”, prosseguiu, destacando de entre os bispos de Silves D. Frei Álvaro Pais – “um homem próximo do papa”, “notável a nível, não apenas de Portugal, mas da Europa e sobretudo, da Igreja” – “pela personalidade, notoriedade intelectual e particulares posições face ao rei D. Afonso IV”.

Referindo-se à transferência da sede episcopal, o cónego Joaquim Nunes explicou que “a centralidade de Faro (a meio do Reino), a importância do eixo Faro-Loulé como fatores da economia e demografia e o desenvolvimento da vila (lugar sadio e abastado) e do termo apoiaram a decisão”. “O rei pede a transferência da sede para Faro e, em 1539, o papa Paulo III publica a bula que executa o pedido do monarca, transferindo a Sé para a paroquial igreja de Santa Maria, em Faro. No ano seguinte, D. João III eleva-a cidade, título condizente com a nova situação de cidade-cabeça de bispado. Mas foi tal a oposição violenta e indignada, clamores levantados pela Câmara e povo de Silves, e sobretudo pelo Cabido, que a Bula não teve execução durante os longos anos em que as demandas se sucederam nos tribunais, na tentativa de impedir a mudança”, contou, justificando que “a pequena nobreza de Silves estava apegada à importância e ao privilégio de ser cidade episcopal, ao controlo que tinham sobre a Câmara” e que “os cónegos tinham um conflito com o bispo”.

O sacerdote frisou que a mudança foi realizada em 1577, sendo bispo do Algarve “o humanista” D. Jerónimo Osório. “Estando em Faro, na Semana Santa deste ano, em dia de Sexta-feira, não regressou a Silves para celebrar as solenidades próprias”, contou, explicando que na Sé de Faro sucederam àquele prelado 16 bispos, tendo havido “um longo período de sede vacante [período em que a Sé episcopal de uma diocese está sem ocupante] de 22 anos (1649-71), devido à Restauração”. “Como em Silves, os bispos nomeados esperam melhor oportunidade, pelo que a maioria está pouco tempo no cargo”, “até irem para outro lugar mais importante”, afirmou, considerando que, não sendo assim, os prelados só vêm para a diocese “por qualquer razão complicada”.

De entre os bispos do Algarve assinalou D. Jerónimo Osório (1564-1580), D. Fernão Martins de Mascarenhas (1594-1616), D. António Pereira da Silva (1704-1715) e Frei Lourenço de Santa Maria (1752-1783), considerando que foram prelados para quem “a ação pastoral, a perfeição cristã e a proximidade com aqueles de quem eram pastores determinaram as opções de vida”.

Neste sentido destacou D. Frei Lourenço de Santa Maria como uma “pedra de tropeço” para o Marquês de Pombal nos seus intentos regalistas de constituir a Diocese de Portimão, no quadro da constituição de uma Igreja nacional em que o papa não teria nenhuma intervenção, o que nunca chegou a acontecer por nunca ter havido resposta de Roma.

Igualmente destaque mereceu o arcebispo D. Francisco Gomes do Avelar, tendo salientado a sua “inteligência e a cultura humana e teológica, aliada aos conhecimentos práticos e técnicos” e afirmado que, “de entre os bispos iluministas que Portugal teve, ele foi o mais notável”. “Não estamos perante um homem qualquer, um erudito eclesiástico, mesmo de profundo saber. D. Francisco conhece e pratica saberes tão diversos quanto a arquitetura, a engenharia de pontes e calçadas ou agronomia e, ao mesmo tempo o latim, o grego ou o hebraico, a filosofia ou a teologia”, considerou, evidenciando o seu “carácter de conhecedor profundo da modernidade em termos artísticos”. “Num tempo em que o bispo é visto mais como príncipe que pastor, mais aliado do trono que servidor do altar, o ministério episcopal de D. Francisco Gomes foi, verdadeiramente, o de um pastor, servidor do povo que lhe foi confiado. A chave de leitura de toda a diversidade da sua ação e que a unifica é a pastoralidade”, completou.

O cónego Joaquim Nunes evidenciou ainda a intervenção de D. Francisco Gomes perante a invasão francesa de 1808, lembrando que “o bispo continuou a exercer sem ação prática a função de governador e passa a estar presente quando, em Faro, se forma uma Junta de Regência, assumindo de uma forma direta a gestão dos acontecimentos”. Este é um assunto que não tem a ver diretamente com a história da Igreja do Algarve, mas tem muito a ver com a personalidade e a ação do bispo”, justificou.

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No âmbito de período de implantação do Liberalismo (1820-1842), relatou as vicissitudes relativas ao período de conflito entre liberais e absolutistas, às quais os quatro prelados algarvios não foram alheios, sendo que muitos se viram enredados nas suas próprias contradições e infidelidades ao ministério. “Este caminho percorrido de pouco mais de duas décadas, mostram quer a presença/ausência de um bispo, quer as dificuldades/contradições da ação inerente ao pastor”, criticou, considerando que “a Diocese do Algarve atravessou o mar tormentoso do início do Liberalismo sem contar com competente timoneiro, que ao menos pudesse orientar na travessia, amparando os necessitados e exercendo o cuidado próprio do ministério episcopal”. “As mudanças impostas pela nova ordem incluíram muitas que afetavam profundamente a Igreja e os fiéis cristãos, criaram perseguição e revolta, geraram injustiça e desrespeito. Face a tudo isto faltou o acompanhamento e a palavra do bispo”, lamentou.

O conferencista explicou que “durante os anos que mediaram entre 1820 e 1851 sucederam-se avanços e recuos na implantação de um sistema político e social do Constitucionalismo” com “golpes e contragolpes, guerras civis, lutas de guerrilha, peso e influência maçónica, politização do clero, perseguição religiosa e destruição da vida social e religiosa”. “Tudo isto fora acrescido aos problemas decorrentes das invasões e presença do governo de Beresford”, acrescentou, lembrando que D. Carlos Cristóvão Genuês Pereira, bispo do Algarve entre 1855 e 1863, “encontra a diocese numa situação difícil após as vicissitudes locais decorrentes da implantação do Liberalismo e guerra civil, nomeadamente a guerrilha do Remexido”. “O sistema político só em 1851 ganha estabilidade com a «Regeneração»”, sustentou, acrescentando que a primeira medida do prelado foi restabelecer o Seminário para formar sacerdotes segundo o modelo do fundador da instituição , pois “o clero envelhecia e estava depauperado pelas lutas políticas”.

Os bispos sucessores de D. Carlos – D. Inácio do Nascimento Morais Cardoso (1864-1871), D. António Mendes Belo (1884-1908) e D. António Barbosa Leão (1908-1919) – “deram seguimento à reorganização da vida diocesana: formação do clero, inicial e contínua, visitas pastorais”, explicou, acrescentando que “o regime republicano não encontrou resistência no Algarve” e que “D. António Barbosa Leão conseguiu que o novo regime não provocasse desorientação entre o clero como entre os fiéis”.

O cónego Joaquim Nunes explicou que aquele bispo organizou em 1916 o Congresso das Obras Católicas que viria a inspirar iniciativas hoje promovidas como o Dia da Igreja Diocesana, as Jornadas da Igreja Diocesana ou a Assembleia Diocesana.

A terminar, o sacerdote explicou que todos os problemas ocorridos durante o século XIX “acentuaram uma prática cristã que se foi diluindo, quer no preceito dominical, quer no resto”. “Claro que se mantinham as grandes manifestações religiosas, mas perderam vida”, lamentou.

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