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© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

A escritora algarvia Lídia Jorge venceu na quarta-feira o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2015, atribuído pela Universidade de Évora (UÉ), revelou à agência Lusa fonte da academia alentejana.

A vencedora foi escolhida durante uma reunião do júri do galardão, presidido por António Sáez Delgado e que integrou, entre outros, Eduardo Lourenço e Fernando Pinto do Amaral.

Instituído pela Universidade de Évora em 1997, o Prémio Vergílio Ferreira destina-se a distinguir, anualmente, o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio.

A escritora afirmou-se emocionada porque foi “muito amiga” de Vergílio Ferreira, que foi o primeiro que a reconheceu como seu par.

“Eu senti muita emoção, porque fui muito amiga de Vergílio Ferreira, que foi um escritor que me acompanhou, aquele que primeiro escreveu sobre [o romance] ‘O dia dos prodígios’, quando ainda nem sequer estava publicado”, disse a escritora à agência Lusa.

“Foi o primeiro escritor a reconhecer-me como seu par, o que me deu uma alegria enorme, como se pode imaginar”, recordou a autora de “Os Memoráveis” (2014), referindo que Vergílio Ferreira foi quem a apadrinhou na literatura.

“Foi aquele que me incentivou, aquele que me reconheceu”, sublinhou.

O Prémio Vergílio Ferreira 2015 foi atribuído a Lídia Jorge pelo conjunto da sua obra, na qual se distinguiu na ficção e no ensaio, afirma em comunicado a Universidade de Évora, que instituiu o galardão.

Segundo a mesma fonte, em ata pode ler-se que “o júri decidiu atribuir o prémio à escritora Lídia Jorge, autora de ‘O Dia dos Prodígios’, e à obra, que até hoje a continuou, dedicada desde então a uma revitalização realista e onírica da vida e da sociedade portuguesa pós-25 de Abril, numa rara convergência entre a singularidade do tempo que é ainda o nosso e a sua vocação de universalidade”.

A entrega do prémio realiza-se no dia 05 de março, na Sala dos Atos da Universidade de Évora, no edifício do Colégio do Espírito Santo.

Já em novembro do ano passado, Lídia Jorge tinha sido distinguida, por unanimidade, com o Prémio Luso-Espanhol de Arte Cultura 2014, atribuído pelo Ministério da Cultura de Espanha e pela Secretaria de Estado da Cultura de Portugal.

A escritora afirmou que “talvez os mais recentes livros” tenham contribuído para esta atribuição do galardão da universidade eborense, assim como do Prémio Luso-Espanhol de Arte Cultura, em finais do ano passado.

“Talvez os últimos livros tenham feito com que alguns leitores, que estão nestes júris, tenham confiança em mim, e consideram que eu estou dizendo algumas palavras que interessam aos leitores de hoje”, alvitrou a autora de “A noite das mulheres cantoras” (2011).

Recordando o convívio com o autor de “Aparição”, Lídia Jorge disse que “era um homem com certas arestas, mas era grande intelectual”.

“Como intelectual tinha enorme grandeza, e é essa dimensão e foi essa recordação que guardei dele”, disse a escritora que afirmou ainda que nem sempre teve “um contacto fácil” com Vergílio Ferreira, “porque ele era muito exigente”.

“Ele era muito exigente com os escritores jovens, e tinha uma conceção da literatura muito particular, e não acreditava muito que os jovens seguissem um bom caminho, sobretudo os ficcionistas, porque ele não acreditava no romance, só que ele praticava romance – isso era uma contradição dentro de si, não acreditava no romance, mas, como ele dizia, não ia fazer outra coisa”, afirmou a premiada.

A escritora referiu-se ao autor de “Manhã submersa” como “um filósofo na literatura, um pensador” e, recorrendo uma vez mais às palavras de Ferreira, tal como ele afirmava, comparou-o ao escritor checo Milan Kundera, na medida “em que a ficção e o pensamento filosóficos estão fundidos”.

“Ele achava que era da raça do Kundera, desse grupo de escritores; e era muito exigente connosco, os mais jovens, porque achava que nos desviávamos desse seu princípio”, recordou.

Entre outros galardões literários, a escritora já recebeu também o Prémio Dom Dinis, o Prémio PEN Clube, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, o Grande Prémio de Romance de Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o Prémio Jean Monet de Literatura Europeia, o Prémio Charles Bisset, e o Prémio Albatros, da Fundação Günter Grass.

Em 2013, Lídia Jorge foi considerada, pela revista francesa Le Magazine Littéraire, uma das “10 grandes vozes da literatura europeia”.

Nascida em 1946, em Boliqueime, Lídia Jorge publicou, em outubro do ano passado, pela editora Dom Quixote, o livro “O Organista”.

“A Costa dos Murmúrios” (1988), “A Última Dona” (1992), “O jardim sem limites” (1995), “O Vale da Paixão” (1998), “O Vento Assobiando nas Gruas” (2002), “Combateremos a sombra” (2007), “A Noite das Mulheres Cantoras” (2011) são outros romances de Lídia Jorge, que também assinou a peça “A maçon” (1997).

A escritora é igualmente a autora dos contos “A Instrumentalina” (1992), “O Conto do Nadador” (1992), “Marido” (1997), e “O Belo Adormecido” (2004).

Instituído pela Universidade de Évora para homenagear o escritor que lhe dá o nome, o Prémio Vergílio Ferreira tem caráter anual.

Este galardão da academia alentejana foi atribuído pela primeira vez a Maria Velho da Costa, seguindo-se Maria Judite de Carvalho, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, Vítor Manuel de Aguiar e Silva e Agustina Bessa-Luís.

Manuel Gusmão, Fernando Guimarães, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio, Mário de Carvalho, Luísa Dacosta, Maria Alzira Seixo, José Gil, Hélia Correia e Ofélia Paiva Monteiro foram os outros galardoados.

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