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A artista plástica Lígia Rodrigues, entrevistada pelo Folha do Domingo, refere que a par da espiritualidade, também a arte faz parte do grupo das “áreas fundamentais” para “manter a saúde psicológica e mental” da sociedade em tempos de crise.

A criadora de arte, sedeada no Algarve, reforça que “o setor artístico é fundamental nestas alturas” em que as pessoas estão “todas em casa, deprimidas”. “Seria muito importante reconhecer isto”, realça, lembrando que os artistas “começaram a passar programas e a produzir arte e as pessoas consolaram-se”, mas “ninguém lhes pagou” por isso.

Lígia Rodrigues recorre ao exemplo dado pelo economista italiano Luigino Bruni para defender ser em momentos de crise que é mais preciso investir na beleza. “Quando não temos superfície, precisamos da beleza para sobreviver. O facto de uma senhora ir ao cabeleireiro e sentir-se bela num momento em que tudo está destruído é fundamental para manter a alma viva e para gerar nova vida”, compara.

“Há uma outra visão anímica que vai muito para além da superficialidade do consumismo que nós vivemos. Se calhar não é preciso o consumismo e é mesmo por aí que é preciso cortar e manter valores mais profundos que permanecem no tempo”, prossegue, lembrando que “a construção de um mundo novo e uma sociedade nova parte sempre do pensamento, da filosofia e da espiritualidade”. “Porque não descobrir novas belezas, porque não investir neste momento em valorizar os artistas e fazer-lhes propostas? O que é que têm para dizer agora com o objetivo de melhorar a sociedade e de lhe dar novas esperanças?”, questiona.

A artista plástica lamenta uma “falta de consciência artística contemporânea” e fala num crescimento que acha necessário fazer em Portugal a nível cultural que teria de começar pela educação. “Em Itália, as crianças a partir do 7º ano de escolaridade têm obrigatoriamente História da Arte. Em Portugal, só temos História da Arte se escolhermos ir para um curso da área artística. Só isso já diz tudo”, compara.

Lígia Rodrigues considera que mesmo na Igreja, que diz ter sido “protagonista da cultura” até ao século XX, “há muita tendência de manter e rever o passado”. “A mim, a maior parte das vezes, exigem-me o passado. É uma descaraterização completa do passado por falta de consciência artística contemporânea”, critica, reconhecendo haver “boas exceções”, mas que “são poucas”. “O Espírito faz sempre novas as coisas e, portanto, tem de ter uma intervenção em cada tempo”, considera.

Lígia Rodrigues é uma artista plástica radicada no Algarve desde 1999 e foi a autora da peça oferecida o pelo Santuário de Fátima ao papa Francisco na sua peregrinação por ocasião do centenário das aparições.

A artista, natural do Porto e licenciada em Belas Artes pela Faculdade da Universidade de Lisboa, veio parar ao Algarve depois de um percurso de emigração com os seus pais que a levou a países como França, Moçambique, África do Sul ou Zimbabué.

Por convite de um familiar veio viver para o Algarve, primeiro para Loulé e depois para o concelho de São Brás de Alportel, onde tem o seu ateliê.

Chegou a lecionar no ensino secundário e na Universidade do Algarve, mas não se entusiasmou com a carreira académica. Dedicada à arte sacra, Lígia Rodrigues trabalha em várias áreas que vão desde as artes plásticas ao design de equipamento e que incluem a escultura, a pintura, o desenho, a cerâmica ou o vitral.

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