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Loulé promove cursos para evitar extinção de profissões e artesanato regional

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

Loulé pretende relançar a profissão de correeiro no concelho, uma arte quase extinta de trabalhar manualmente o couro no fabrico de correias e outros objetos, através dos cursos de iniciação “A Arte nas mãos”, explicou a organização.

A correaria, que outrora teve muitos profissionais naquele município do Algarve, está hoje quase extinta, mas desperta “grande interesse” em pessoas que devido à crise económica procuram soluções alternativas de subsistência.

Enquanto cozia uma carteira de pele que fez durante o curso, Fernando Gonçalves, 34 anos, disse à Lusa ter posto de lado a engenharia civil por falta de trabalho à cerca de um ano e tornou-se sapateiro, como o seu avô.

“Tive a sorte de ser selecionado”, disse à Lusa, Fernando Gonçalves, ter aprendido no curso que agora frequentou “algumas coisas das quais não tinha conhecimento visto que também nunca tinha trabalhado neste ramo”.

Já na reta final do curso, a técnica de restauro Andreia Machado, 38 anos, contou que o curso permitiu um contacto direto e prático com a pele e a forma como é trabalhada.

O trabalho de conservação e restauro de peças em pele e um doutoramento na mesma área dedicado a materiais orgânicos de origem subaquática aguçaram-lhe o interesse pelo curso disse à Lusa.

“Apesar de ter sido muito prático, aquilo que acontecia é que o pôr as mãos nos materiais é completamente diferente, mesmo quando sabemos que existem diferentes tipos de peles e de curtimenta para diferentes tipos de resistência”, observou.

A coordenadora do ciclo de cursos, Graça Palma, contou que a iniciativa abrange algumas das artes tradicionais mais emblemáticas daquele concelho algarvio e promover um primeiro contacto com os materiais e técnicas e incitar o gosto pelas artes e ofícios.

Desde que teve início, o ciclo “A arte nas mãos” já promoveu cursos de trapologia e empreita de palma estando marcado um curso de olaria para setembro e um curso de tecelagem em outubro.

O ciclo terminará em novembro com um curso de cestaria.

“Estamos num ponto em que é quase crítico, ou trabalhamos agora a valorização das artes tradicionais e tentamos ainda promover alguma formação de novos artesãos ou então algumas artes têm tendência a rapidamente desaparecer”, afirmou a coordenadora do ciclo Graça Palma admitindo já ser difícil encontrar artesãos para ensinar estes cursos.

Para a organização, ligada ao projeto Técnicas Ancestrais, Soluções Atuais (TASA) que tem vindo a promover a interação entre designers e artesãos algarvios para a fusão das técnicas ao design e à inovação, é chegado o momento de retomar artes e ofícios antigos e renová-los.

“As artes e ofícios não são uma curiosidade etnográfica meramente. Têm um espaço na atualidade, há uma certa tendência para a retoma da humanização da relação humana com a peça e faz todo o sentido trabalhar agora as artes tradicionais mas com uma dimensão mais de inovação e design associados para de facto criar emprego” explicou Graça Palma.

Neste ciclo os cursos são uma iniciação às artes e ofícios tradicionais, mas a organização já está a tentar encontrar parceiros para planear um ciclo de cursos de formação certificada.

“Estes cursos pretendem ser também um estudo de mercado” comentou a chefe de divisão de cultura da câmara de Loulé, Dália Paulo que espera perceber se existem os formadores necessários e se existe público para estes cursos.

Aquela responsável destacou que a reativação destes saberes e ofícios inserem-se numa “lógica de perceber de onde vimos, para onde queremos ir alicerçando no que é nosso, na nossa identidade nestas profissões que são tradicionais”.

Os cursos integram uma estratégia municipal que pretende integrar a rede internacional de Turismo Criativo, um novo segmento onde os turistas chegam a um local e em vez de o observarem, tentam integrar-se, participar em experiências tradicionais e aprender coisas típicas.

Graça Palma contou que a estratégia passa por uma aposta no “turismo criativo, na formação profissional, a promoção de residências turísticas para valorizar as artes tradicionais e mostrar que elas têm um papel na atualidade e podem ser motor para o desenvolvimento económico com a criação de emprego e o enaltecimento da nossa matriz cultural”.

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