O bispo emérito de São Tomé e Príncipe desafiou ontem em Loulé, na Eucaristia da Festa Grande de Nossa Senhora da Piedade, popularmente evocada como «Mãe Soberana», a seguir o exemplo dela, imitando-a.

Lembrando o tema deste ano das celebrações da «Mãe Soberana» – “Peregrinos com Maria, Mãe da Consolação” –, D. Manuel António dos Santos explicou o que isso significa. “Ser peregrinos com Maria, a Mãe da Consolação, a Senhora da Piedade, a nossa Mãe Soberana, como a veneramos aqui, significa aprender com ela a caminhar na fé, mesmo sem ver tudo com clareza; significa confiar, mesmo quando o caminho parece escuro; significa também ser presença de consolação para os outros”.

E foi, justamente, nesta última dimensão que D. Manuel António dos Santos se centrou para pedir aos cristãos que a ponham em prática. “Encontremos em Maria a Mãe da Consolação e aprendamos com ela a ir ao encontro do irmão que sofre, do irmão caído nas nossas estradas, do irmão doente, levando-lhes uma palavra amiga, um gesto de ternura, um abraço de consolação”, afirmou na Eucaristia a que presidiu junto ao monumento a Duarte Pacheco.

O bispo emérito da diocese são-tomense acrescentou que “hoje o mundo precisa de cristãos que caminhem ao lado dos que sofrem, como Jesus em Emaús e como Maria junto à cruz”. “O mundo de hoje precisa de nós, precisa que sejamos «candeias acesas», «luz que ilumina», palavra de paz num mundo de violência e guerra; precisa que sejamos pessoas que escutam, que acolhem, que reacendem a esperança”, concretizou.

Acrescentando que “quem encontra a luz ilumina o mundo; quem se sente amado vive amando; quem encontra Deus leva-o aos irmãos; quem sente a consolação de Deus na sua vida torna-se instrumento de consolação, de amor, de paz, de vida”, o bispo que está a colaborar desde 2023 com a diocese algarvia referiu-se ainda a um “mundo cansado, desanimado, sem esperança, com sombras negras no horizonte”, que vive “numa cultura de morte, que banaliza o aborto, a eutanásia, a violência”.

D. Manuel António dos Santos evidenciou ainda que a condição de peregrinos lembra que a “vida é uma viagem a caminho da pátria celeste”, da qual “também Maria se faz companheira”. “Ela que viveu a dor da cruz e a espera silenciosa da ressurreição sabe acompanhar os corações feridos. Maria não substitui Cristo, mas leva-nos até Ele, como uma mãe que aponta sempre para o filho. Como mãe ela caminha connosco, ampara-nos nas nossas dúvidas e medos, conforta-nos nas nossas dores e angústias, e diz-nos: «Não tenhais medo, confiai, fazendo tudo o que meu filho vos disser»”, explicou.

“Estamos todos de passagem, somos todos peregrinos. A nossa vida é uma peregrinação feita de dúvidas, encontros, esperanças e, muitas vezes também, de momentos de desânimo, (…) mas é exatamente neste caminho assim, feito de ilusões e de desânimo, que Deus se revela, vem ao nosso encontro, amparando-nos, guiando-nos, alimentando-nos com a Palavra e o Pão do Céu”, observou.

“Na nossa vida de peregrinos temos de ser capazes de perceber a presença de Jesus caminhando ao nosso lado como companheiro de viagem, iluminando-nos com a sua Palavra, saciando-nos com o seu pão. Ele cura o nosso coração ferido, conforta-nos, faz-se companheiro da nossa jornada”, prosseguiu.

Com base do Evangelho da liturgia de ontem, que relata o encontro de Jesus com dois discípulos a caminho de Emaús que só o reconheceram tardiamente quando partiu o pão, D. Manuel António dos Santos enumerou os “quatro aspetos muito importantes” na vida dos cristãos que o episódio evidencia: a Palavra de Deus, a Eucaristia, a comunidade e a vivência da fé em união com o Papa”.

“Os discípulos de Emaús, depois de terem reconhecido Jesus, voltam para a comunidade, vão ao encontro dos outros discípulos. Ninguém é cristão sozinho. Ninguém vive a fé em Jesus Cristo fechado nas suas coisas. Por isso quem diz «eu cá tenho a minha fé» ainda não percebeu o que é ser cristão; quem diz «eu não preciso de ir à Igreja para acreditar em Cristo» ainda não percebeu o que é ser cristão; quem diz «eu não preciso de ir à Missa ao domingo encontrar-me com os irmãos» ainda não entendeu o que é ser cristão. Cristo quis que a fé n’Ele fosse vivida na Igreja, em comunidade, como novo povo de Deus de portas abertas a todos os povos”, sustentou.

D. Manuel António dos Santos lembrou ainda que os discípulos de Emaús regressam a Jerusalém, contam a experiência que tinham tido e os irmãos da comunidade dizem-lhes que “Jesus ressuscitou e apareceu a Simão”. “Simão é Pedro. Simão é aquele que tem o ministério de confirmar a fé dos irmãos. É isso que Jesus lhe diz: «Pedro, depois confirma a fé dos teus irmãos». Este é o ministério do Santo Padre. Por isso, é importante vivermos a nossa fé em união com o Santo Padre neste mundo onde cada um acha que tem a verdade, cada um sabe tudo, cada um conhece tudo, onde cada um carrega num botão e aparece mil coisas e acha que com isto tem respostas para tudo, sabe toda a verdade”, acrescentou na Eucaristia que foi concelebrada pelo bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, e pelo bispo emérito do Funchal, D. António Carrilho, natural de Loulé, para além de muitos sacerdotes da diocese.

No final da celebração, o bispo do Algarve voltou a fazer a consagração da diocese à “Mãe Santíssima da Piedade”, pedindo pelas famílias, crianças, jovens, idosos, doentes, “os mais sós”, “os que sofrem do corpo ou do espírito”, “governantes e todos os que exercessem autoridade” para que “saibam cumprir a sua missão como um serviço ao bem comum, não se deixem vencer pelo desânimo e procurem sempre a promoção da justiça social, da verdade e da paz”, “todas as mães”, escolas, creches, infantários, indústrias e comércio, “todos os grupos ao serviço do bem comum, da promoção da vida e das pessoas, bombeiros, militares, centros de saúde, centros de terceira idade, Santas Casas da Misericórdia, confrarias e irmandades”.

Aquela que é a mais significativa expressão de devoção mariana algarvia, voltou a atrair a Loulé na sua Festa Grande uma multidão imensa, oriunda não só de todos os pontos do Algarve, como também de diversas regiões do país e até emigrantes.

Ao esforço dos homens oito homens, vestidos de calças e opas brancas, que transportam a imagem de Virgem Maria com Jesus nos braços, aliou-se a força espiritual dos muitos milhares de fiéis que, em vivas inflamadas a Nossa Senhora da Piedade, acenando lenços ou em passo vivo e na cadência musicada dos homens da Banda Filarmónica Artistas de Minerva, «empurraram», calçada acima no calor da fé, o pesado andor da padroeira.

Depois de a imagem ser levada de volta para a secular ermida do santuário, seguiu-se o regresso, em marcha, de todos com a banda até ao centro da cidade.

As festividades de Nossa Senhora da Piedade constituem uma tradição com provável origem em 1553, data oficial da edificação da capela que lhe é dedicada, mas um relatório de 1518 dos visitadores da Ordem de Santiago refere que na capela de Santo António da igreja matriz de Loulé já existia um “retábulo de portas com Nossa Senhora da Piedade”.











