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O microclima da região e o aumento da procura por abacate estão a fazer disparar a produção daquele fruto subtropical no Algarve, embora quase nada fique em Portugal e a maioria seja exportada para outros países europeus.

O aumento da área de produção no Algarve – atualmente de 1.500 hectares, repartidos por 180 explorações – acompanha o mercado que, nos últimos anos, “começou a pedir abacate”, com um “aumento exponencial do consumo” nos países do Norte e Centro da Europa, explicou à Lusa o diretor regional de Agricultura e Pescas.

“Nós temos aqui condições de temperatura, luminosidade e, não havendo grande propensão para a ocorrência de geada, o clima propício que faz com que o Algarve e poucas zonas na Europa – há também no Sul de Espanha e na Sicília – tenha estas condições para a cultura do abacateiro”, referiu Pedro Valadas Monteiro.

O aumento da cultura de abacate no Algarve tem merecido críticas de alguns grupos de cidadãos que sustentam que as explorações estão a contribuir para esgotar os recursos hídricos e a contaminar os lençóis freáticos devido ao uso de glifosato (tipo de herbicida).

Ângela Rosa, uma jovem agricultora de Tavira, embora não esteja contra o abacate, defende a limitação das áreas de plantação, não só daquele fruto, mas também de outros cultivos de regadio, criticando a “liberalização total” do cultivo de abacate, que classifica como “descontrolado”.

A agricultora crítica o aumento de plantações no sotavento algarvio, onde se “pode plantar abacate como se não houvesse amanhã” e a utilização de glifosato: “basta andar pelo campo ou pela estrada e olharmos para as produções que estão queimadas de monda química, o glifosato”.

No entanto, segundo Amílcar Duarte, investigador em Agronomia da Universidade do Algarve (UAlg), esta é uma cultura “que se faz praticamente sem a aplicação de pesticidas”, em parte pelo facto de o abacateiro ter uma grande copa, desprendendo muitas folhas, que vão cobrindo o solo, diminuindo o aparecimento de ervas e a necessidade de utilização dos químicos.

Por outro lado, sendo uma cultura recente em Portugal, “ainda não foram introduzidas pragas nem doenças” que obriguem a tratamentos fitossanitários, alegou, notando que pode usar-se glifosato nos primeiros anos, “como em qualquer outra cultura frutícola”, mas depois, “basicamente, não é preciso aplicar nada”.

Quanto ao consumo de água, o investigador sublinhou que o abacateiro “não é melhor nem pior” do que as outras plantações de regadio que existem na região, consumindo “ligeiramente mais água do que os citrinos”.

Tomás Melo Gouveia, que possui um pomar de 35 hectares na Campina de Faro, atualmente em plena produção, nega a ideia que a cultura de abacate consuma muito mais água do que outras, sobretudo, se a rega for localizada, como na sua propriedade.

“Nós, para produzirmos um quilo de abacate, gastamos à volta de 600 litros de água, nas laranjas 500 litros e, para um quilo de carne, são precisos 14 mil litros”, referiu, acrescentando que a rega do seu pomar é monitorizada através de sondas.

No extremo leste do Algarve, João Bento optou mesmo por investir na colocação de uma estação meteorológica em cada uma das sete quintas que possui entre Tavira e Castro Marim, que medem, entre outros parâmetros, a direção e a velocidade do vento, a temperatura, a humidade relativa e a evapotranspiração.

Com uma produção de mil toneladas anuais, o produtor defende que o abacate é uma cultura “muito ecológica”, acusando as pessoas que a criticam de não conhecer “a agricultura moderna” e a “tecnologia de ponta” usada pelos agricultores.

Foto © Luís Forra/Lusa

O diretor regional de Agricultura estima que, na última década, tenham sido investidos entre 150 a 200 milhões de euros nas explorações de abacate, sobretudo ao nível da tecnologia e equipamentos para aplicação mais eficiente da rega.

“Quando o abacate é produzido na América do Sul, para vir para a Europa, tem um transporte associado, portanto estamos a falar de uma pegada ecológica substancialmente superior àquele abacate que é produzido aqui no Algarve”, conclui.

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