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O coordenador nacional da Pastoral da Saúde da Igreja Católica, que falava na abertura do IV Congresso de Medicina do Algarve, promovido pelo Conselho Distrital do Algarve da Ordem dos Médicos, no Tivoli Marinotel, em que foi convidado para apresentar uma palestra sobre o ponto de vista religioso da medicina, considerou mesmo que “a terapia da relação pode contrariar aspectos que agravam a saúde” como a angústia, a solidão, o isolamento ou o desconhecimento.

Advertindo para as “tentações” da medicina, como o “lucro”, o “cientificismo radical”, ou o “prestígio na cidade”, que devem ser ultrapassadas “na perspectiva da relação integral com a pessoa”, concretizou que uma das tentações é pensar “não precisar de se relacionar com o doente porque a máquina dá todos os dados precisos para cuidar dele”.

Neste sentido, começando por afirmar a medicina como ciência “ao serviço da pessoa humana”, defendeu que “a arte médica tem de privilegiar, cada vez mais, a terapia da compaixão, de sofrer o problema do outro”. “Isto é um trabalho muito interessante que a arte médica tem de contemplar até às últimas consequências. É este acompanhar o outro que «morde» o problema do religioso porque todo o ser humano é religioso”, afirmou, acrescentando que “o ser humano é um complexo” e que, por isso, a atenção deve ser dada ao “homem todo”, não esquecendo as componentes biológica, psicológica, social, cultural, espiritual e até religiosa. “Quando quero cuidar da pessoa tenho de olhar para a pessoa toda e não apenas para parte da pessoa”, completou, apontando a religião como “componente indispensável na plenitude do trabalho do apoio integral à pessoa humana”.

Considerando então que, com Jesus Cristo, “antes da cura, aparece sempre a relação”, o monsenhor Feytor Pinto inferiu que “a medicina não pode prescindir da humanização, da relação” e que “a dimensão religiosa desafia, no caso da medicina, a uma relação constante no respeito pela religião do outro, mas também compreendendo que essa é uma área importante para o desenvolvimento do processo de cura que o doente está a viver”. “A dimensão religiosa passa também por qualquer clínico, qualquer que seja a sua religião, porque o que está em questão não é a sua religião, mas a do outro”, disse perante uma assembleia restrita a cerca de 30 participantes da área da saúde, na sua maioria médicos.

Dentro desta perspectiva apresentou uma definição de saúde complementar à da Organização Mundial de Saúde: “a saúde não é apenas um bem-estar bio-psiquico-social e cultural, mas é a harmonia integral da pessoa, apesar dos limites daquelas dimensões, em ordem à realização completa do ser humano na idade da vida que é a sua”.

Numa abordagem mais concreta à “dimensão terapêutica” da própria espiritualidade, o palestrante sublinhou que esta “é uma preocupação que está a dominar a humanidade” e referiu que “há muitas universidades americanas que já estão a trabalhar esta dimensão em mestrados e doutoramentos”. “É importante o apoio espiritual e religioso porque isso vai permitir à pessoa ter a terapia de acompanhamento em transcendência para ser capaz de colaborar na terapia científica que lhe está a ser dada”, justificou, complementando ser necessário para que isto se realize “o respeito integral pela liberdade religiosa de cada um”, a “organização da assistência religiosa em cada unidade hospitalar”, o apelo à “participação de outras confissões” e a concessão de “alguma atenção às maiorias”.

O sacerdote lembrou ainda que “na antiguidade recorria-se aos deuses que tinham o «encargo» de curar”. “Na oração, ou se fazia acção de graças porque a pessoa se curou ou se pedia súplicas porque era necessário conseguir o sucesso que a medicina do tempo não era capaz de dar. Curiosamente, ainda hoje, mantém-se muito esta perspectiva. Daí ser muito necessário descobrir perspectivas completamente novas”, considerou, lamentando que, “no quadro de uma filosofia judaico-cristã, ainda se mantém a perspectiva de um Deus castigador ou benfeitor que é necessário ultrapassar”.

Reconhecendo que “a ciência não substitui o religioso, mas tem em atenção também o homem religioso”, citou um professor de medicina da Universidad Complutense de Madrid para lembrar que “Deus nunca quer a doença nem a morte, nem como castigo ou provação, porque é Pai”.

A terminar, disse ainda colocar “muitas reticências” ao carisma das curas existente ainda hoje na Igreja Católica. “Talvez imitando o pentecostalismo americano, surgiram movimentos carismáticos na Igreja católica em que se afirma muito exageradamente o carisma das curas. Admito o milagre em situações completamente excepcionais mas não em situações normais, porque acredito profundamente na ciência”, afirmou, considerando que “a tensão entre ciência e religião vai manter-se permanentemente”.

O Congresso de Medicina no Algarve teve continuidade até hoje com a abordagem ainda a outros temas igualmente relacionados com a medicina como o jornalismo, a história e as questões sindicais.

Samuel Mendonça

Ouça a conferência:

"Medicina e Religião"

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