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Nuno Coelho, de 36 anos, natural de Lagoa, entrou para o Seminário de Faro em 2006, deixando a Câmara Municipal da sua terra natal onde já trabalhava há cerca de 10 anos.

Após frequentar o ano propedêutico, seguiu depois para o Seminário de Évora para completar o curso de Teologia que incluiu o mestrado em Sagrada Escritura.

Vai agora ser ordenado sacerdote para a Igreja algarvia numa celebração que se realizará na Sé de Silves no próximo sábado (29 de junho), na qual será ainda ordenado diácono o seminarista Jesus Ejocha.

Nas vésperas da ordenação, Folha do Domingo foi tentar perceber que avaliação faz o futuro sacerdote do seu percurso vocacional e quais as suas expetativas presentes e futuras.

Folha do Domingo – Que análise e avaliação fazes do teu percurso vocacional?

Nuno Coelho – Fazendo uma retrospetiva, penso que foi um percurso com altos e baixos, provavelmente devido à idade. Ao entrar no Seminário apanhei um embate forte pelo facto de não estar a estudar e por ter que retomar o estudo. Foi um pouco difícil. Também pelos colegas serem mais novos e houve, em certos momentos, algumas diferenças. Mas foram coisas que foram sendo ultrapassadas ao longo do tempo com discernimento e oração. Foi uma caminhada em que fui fazendo a análise e vendo que caminho quero eu. Houve momentos de dúvidas, que foram difíceis, mas que foram sendo ultrapassados aos poucos. No fim de tudo, é uma caminhada que pondero positiva porque me fez descobrir aquilo que quero. E, neste momento, não me consigo ver a não ser a servir a Igreja do Algarve como padre. Estar para servir.

Entraste no Seminário já adulto. Foi uma decisão completamente amadurecida e consciente?

Sim, foi.

E isso é positivo.

É. Foi o padre Rui Guerreiro que me fez o convite de passar a Semana Santa no Seminário e depois, num primeiro encontro, o padre Mário de Sousa disse-me em tom de brincadeira: «Tu, para o ano, entras no Seminário». Todas estas coisas, o convite de um e a palavra de outro, começaram a fazer eco e acabei mesmo por entrar no Seminário nesse ano.

Isso, numa altura em que tu já tinhas a tua vida resolvida.

Sim, tinha passado para encarregado de brigada da Câmara de Lagoa nesse ano. Estava na autarquia já há 10 anos e era funcionário do quadro. Estava responsável pela secção da limpeza. Estava a trabalhar com outro chefe, o senhor Rebelo, e a minha decisão também foi tomada com a ajuda dele. Ele disse-me: «Se é mesmo isso que queres, vai por aí». Todas estas coisas me levaram a tomar a decisão.

Deus revelou-se num determinado momento da tua caminhada ou foi-se revelando?

Foi-se revelando ao longo dela e ainda hoje se continua a revelar. Naquilo que vou vendo, sei que Ele se vai revelando aos poucos. A nossa caminhada não termina com a ordenação. Ele continua a revelar-se e temos de O ir descobrindo, cada vez mais. Se não se for descobrindo a vocação todos os dias, ela «morre na praia».

Consegues identificar alguns momentos marcantes na tua caminhada?

Marcante, marcante, talvez o último ano do seminário, ao fazer o Curso de Cristandade.

Foi uma experiência que te marcou?

Foi. Fazer o curso em novembro de 2011 e, depois, trabalhar nas equipas do Movimento dos Cursos de Cristandade durante todo esse ano pastoral permitiu-me ver os leigos de uma outra forma que não só como pessoas que vão à missa. São homens e mulheres que também têm um papel fundamental.

Essa visão é fundamental para uma pessoa que vai ser ordenada para depois presidir a uma comunidade com muitos leigos.

Sim. É necessário olhar para os leigos, não como pessoas que estão sentadas nos bancos da Igreja, mas como pessoas que nos podem ajudar a governar a Igreja e a paróquia, a testemunhar e dar aos outros a alegria de receber Cristo e comungar este Cristo que não se comunga só no pão da eucaristia mas também uns nos outros, no encontro, no amor, na vida.

Pediste agora para seres ordenado sacerdote. Entendes, por isso, que este é o momento certo para que isso aconteça.

Sim. Chegou a altura. Foram seis anos no Seminário Maior, mais um ano de estágio e acho que chegou a hora. Estou com 36 anos, incluindo alguns anos de trabalho fora, sei o que é trabalhar e agora é continuar a trabalhar, embora noutra área totalmente diferente.

Hoje é mais difícil ou mais exigente ser padre?

Por um lado sim, porque as pessoas estão ávidas de Deus, mas muitas vezes procuram-n’O pelas suas necessidades concretas e momentâneas e há que mostrar que Deus é mais do que uma necessidade momentânea. Há que demonstrar que Deus ama-nos na nossa condição, na nossa forma de ser e que O devemos buscar assim. Não só para satisfazer uma necessidade, mas para que O amemos. Procurá-l’O para amar. Porque as coisas derivam e variam de dia para dia e hoje há uma grande necessidade de amar. Olhamos para o nosso mundo e para a nossa sociedade e os valores vão definhando, cada vez há menos valores, cada um olha mais para si mesmo, há muito egoísmo e há necessidade de demonstrar que é preciso amar.

Isso também leva a que o trabalho dos sacerdotes não tenha a mesma aceitação de antigamente. Há hoje muitas pessoas que oferecem resistência?

Sim, há muitos que oferecem resistência e cabe-nos a nós quebrar essas resistências, mostrando que a Igreja está aberta e disponível para todos. Não para virem à Igreja somente «comprar» sacramentos, mas para sentirem que a Igreja está para eles, para os ajudar e apoiar e para conceder aquilo que Deus tem de melhor, desde que queiram abrir o coração ao que Deus tem para dar, que é o amor.

Como é que pensas exercer o ministério? Sentes-te vocacionado para alguma área especial? Qual será a tua prioridade pastoral?

De momento não sei qual será a área à qual me vou dedicar mais. Para já é a toda a Igreja. Ao chegar a uma paróquia devo olhar para a realidade que vou encontrar e perceber, primeiro, o que é que lá existe e como é que está a funcionar e, a partir daí, trabalhar naquilo que existe e, se houver modificações para melhor, fazê-las depois.

Mas achas que a tua forma de exercer o ministério vai ser marcado por alguma faceta ou qualidade que possas ter?

Não sei (risos). Não consigo prever isso neste momento. Gosto muito de trabalhar com os jovens, seja no escutismo, nos Convívios Fraternos ou aonde for, mas ao mesmo tempo [quero] trabalhar também com todos os outros porque há necessidade de acolhermos a todos. É necessário fazer acolhimento e estar disponível para acolher.

Neste momento há algum problema concreto da Igreja que te preocupe mais?

Talvez no que respeita aos sacramentos. Há a necessidade de explicar às pessoas o sentido dos sacramentos. Muitas vezes as pessoas aproximam-se como se a Igreja fosse um supermercado. É necessário mostrar que a Igreja não serve para vender coisas mas para dar. E, ao darmos, as pessoas têm que querer receber, não para guardar e não fazer mais nada, mas para retribuir. Se recebemos os dons, é para os pôr ao serviço dos outros. Há necessidade de demonstrar isso. É servindo que somos Igreja.

A dimensão do testemunho é exigida a todos os cristãos e, de forma particular, também aos sacerdotes. Isso poderá ser um peso? Como pensas ser imagem real, viva e transparente de Cristo?

Na simplicidade e na humildade de acolher e de estar disponível.

Esta diminuição do número de vocações e a escassez de sacerdotes que se vive atualmente leva muitas vezes a um ativismo excessivo dos que restam para responder a todo o trabalho pastoral que há para fazer. Achas que este é um dos principais riscos na vida de um sacerdote?

Poderá ser. Poderá ser se os padres não tiverem meios para delegar [tarefas] nos leigos. Porque há falta de padres, mas também há falta de leigos que se queiram comprometer. E talvez seja esse o ponto de viragem: olharmos para os leigos e tentarmos fazê-los perceber que têm um lugar concreto na vida paroquial e eclesial e pô-los a eles também a trabalhar, fazendo com que coloquem os seus dons a render, de forma a poder servir os outros na simplicidade do que são. Não é preciso ser-se mestre ou doutorado para servir. É necessário é ter um coração aberto ao serviço.

Porque o que importa no serviço é o testemunho e não a teoria?

Sim. Se testemunharmos a simplicidade e a humildade, como Jesus que foi simples e humilde a acolher os outros, conseguiremos talvez mudar a visão das coisas. Porque há uma visão materialista em todas as áreas e a Igreja não é exceção. Há muitos que vêem a Igreja apenas na dimensão material – «vamos ali, adquirimos e já está» – e é necessário mostrar o coração real da Igreja. Um coração de mãe, como ela é, e de pai como é Deus, um Pai que ama.

Temos vindo a assistir a uma envolvência crescente, por parte dos cristãos algarvios, em relação às vocações sacerdotais e, particularmente, em relação às ordenações. A tua ordenação também tem suscitado nas pessoas um sentimento de muita alegria e entusiasmo. Como é que vives esta realidade?

Com alegria porque vejo que há muito carinho das pessoas em relação àqueles que vão ser ordenados e comigo não é exceção. Há muita gente que se alegra com isso e a única coisa que tenho a fazer é agradecer a todos aqueles que se alegram. As pessoas querem ver no padre um amigo, aquele que está disponível para acolher, para conversar, para ouvir. Há muita necessidade de se ser escutado e as pessoas vêem no padre a resposta a essa necessidade. Talvez seja também por isso esta alegria que se vai vendo nas ordenações porque é mais um filho para a Igreja que fica ao serviço de todos os outros.

Sentiste sempre apoio ao longo deste percurso?

Sim. Muito apoio.

Por parte de quem?

Por parte dos leigos, tanto na minha paróquia como em todas aquelas por aonde tenho passado. Em Olhão e em Quelfes tenho tido também muito apoio neste ano de estágio. Por parte de muitos padres, do meu pároco principalmente. Foi um grande apoio em todo o meu percurso, tanto no Seminário como mesmo ainda hoje me apoia. No Seminário de Évora também houve muito apoio. Na Arquidiocese de Évora tive muito apoio. Das equipas do Movimento dos Cursos de Cristandade continuo ainda hoje a ter muito apoio. Sei que há muitas pessoas que rezam e que estão comigo, mesmo em Évora.

Que mensagem gostarias de deixar àqueles que, por ventura, possam estar a interrogar-se se esta será a sua vocação?

[Recordo] aquela expressão que me despertou também a atenção dita pelo Papa João Paulo II e reforçada por Bento XVI: «Não tenhais medo que Cristo não tira nada, mas dá tudo». [É preciso] não termos medo de nos entregarmos porque Deus, a única coisa que quer de nós é amar-nos, dar-nos o amor que tem. [Desafio a] entregarmo-nos livremente, sem medo porque Ele, mais do que tudo o possamos pensar, é um Pai extremoso que nos ama e nos conduz pelos seus caminhos para distribuirmos pelos homens o amor que Ele quer distribuir.

Sentes-te neste momento uma pessoa que ganhou muito mais do que tinha antes?

Muito mais… em «pais», «mães»…

Entrevista por Samuel Mendonça

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